Garota
de Ipanema. Já ouviu falar? Pois é.
Frank Sinatra regravou, inclusive. Essa pérola
da Música Popular Brasileira foi apenas
uma de milhares de obras-primas do incrível
Vinicius de Moraes, poeta por excelência
e que soube musicar muito bem várias de
suas poesias.
Podemos começar nossa biografia com o depoimento
de ninguém menos que Carlos Drummond de
Andrade:
"Vinicius é o único poeta brasileiro
que ousou viver sob o signo da paixão.
Quer dizer, da poesia em estado natural".
"Eu queria ter sido Vinicius de Moraes".
Já Otto Lara Resende assim o definiu: "Manuel
Bandeira viveu e morreu com as raízes enterradas
no Recife. João Cabral continua ligado
à cana-de-açúcar. Drummond
nunca deixou de ser mineiro. Vinicius é
um poeta em paz com a sua cidade, o Rio. É
o único poeta carioca". Mas ele dizia
nada mais ser que "um labirinto em busca
de uma saída".
Na verdade, o que mais chama
atenção na obra de Vinicius é
a percepção do lado obscuro do homem.
E a coragem de enfrentá-lo. Parte, desde
o princípio, dos temas fundamentais: o
mistério, a paixão e a morte. Quando
deixa a poesia em segundo plano para se tornar
show-man da MPB, para viver nove casamentos, para
atravessar a vida viajando, Vinicius está
exercendo, mais que nunca, o poder que Drummond
descreve, sem conseguir dissimular sua imensa
inveja: "Foi o único de nós
que teve a vida de poeta".
Marcus Vinicius da Cruz e Mello
Moraes aos nove anos de idade parece que pressente
o poeta: vai com a irmã Lygia ao cartório
na Rua São José, centro do Rio,
e altera seu nome para Vinicius de Moraes. Nascido
em 19-10-1913, na Rua Lopes Quintas, 114 - bairro
da Gávea, na Cidade Maravilhosa, desde
cedo demonstra seu pendor para a poesia. Criado
por sua mãe, Lydia Cruz de Moraes, que,
dentre outras qualidades, era exímia pianista,
e ao lado do pai, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes,
poeta bissexto, Vinicius cresce morando em diversos
bairros do Rio, infância e juventude depois
contadas em seus versos, que refletiam o pensamento
da geração de 1940 em diante.
Após três mudanças,
em 1922 a família transfere-se para a Ilha
do Governador, na praia do Cocotá, 109-A.
Faz sua primeira comunhão na Matriz da
rua Voluntários da Pátria, no ano
seguinte. E, em 1924, inicia o Curso Secundário
no Colégio Santo Inácio, na rua
São Clemente. Começa a cantar no
coro do colégio nas missas de domingo,
criando fortes laços de amizade com seus
colegas Moacyr Veloso Cardoso de Oliveira e Renato
Pompéia da Fonseca Guimarães, este
sobrinho de Raul Pompéia. Participa, como
ator, em peças infantis.
Torna-se amigo dos irmãos
Paulo e Haroldo Tapajóz, em 1927, com os
quais começa a compor. Com eles, e alguns
colegas do colégio, forma um pequeno conjunto
musical que atua em festinhas, em casas de famílias
conhecidas.
Compõe, no ano seguinte,
com os irmãos Tapajóz, "Loura
ou morena" e "Canção
da noite", que têm grande sucesso.
Nessa época, namora invariavelmente todas
as amigas de sua irmã Laetitia.
A família
volta a morar na rua Lopes Quintas em 1929, ano
em que Vinicius bacharela-se em Letras no Santo
Inácio. No ano seguinte entra para a faculdade
de Direito da rua do Catete, sem vocação
especial. Defende tese sobre a vinda de D. João
VI para o Brasil, para ingressar no "Centro
Acadêmico de Estudos Jurídicos e
Sociais" (CAJU), tornando-se amigo de Otávio
de Faria, San Thiago Dantas, Thiers Martins Moreira,
Antônio Galloti, Gilson Amado, Hélio
Viana, Américo Jacobina Lacombe, Chermont
de Miranda, Almir de Andrade e Plínio Doyle.
Em 1931, entra para
o Centro de Preparação de Oficiais
da Reserva (CPOR).
Forma-se em Direito e termina o Curso de Oficial
da Reserva, em 1933. Estimulado por Otávio
de Faria, publica seu primeiro livro, O caminho
para a distância, na Schimidt Editora.
Dois anos depois, Forma e exegese, seu
livro de poesias, ganha o prêmio Felipe
d'Oliveira.
Em 1936, conhece o poeta Manuel
Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, dos quais
se torna amigo.
Em 1938, é agraciado
com a primeira bolsa do Conselho Britânico
para estudar língua e literatura inglesa
na Universidade de Oxford, para onde parte em
agosto daquele ano. Instado por Otávio
de Faria a se tornar um poeta mais com os pés
no chão, e não o "inquilino
do sublime" como, então, o chamou,
lança Novos Poemas. Seguindo esta
mesma linha, são lançados, posteriormente,
Cinco Elegias, em 1943, e Poemas,
Sonetos e Baladas, escrito em 1946, que já
começam a mostrar o poeta sensual e lírico,
mas, como ele próprio disse, um "poeta
do cotidiano".
No ano seguinte, casa-se por
procuração com Beatriz Azevedo de
Mello. No final desse ano, retorna ao Brasil devido
à eclosão da II Grande Guerra. Parte
da viagem é feita em companhia de Oswald
de Andrade.
O ano de 1940 marca o nascimento
de sua primeira filha, Suzana. Torna-se amigo
de Mário de Andrade. Em 1942, nasce seu
filho Pedro. No ano seguinte, ingressa, por concurso,
na carreira diplomática. Publica Cinco
Elegias em edição mandada fazer
por Manuel Bandeira, Aníbal Machado e Otávio
de Faria.
Dirige, em 1944, o Suplemento
Literário de "O Jornal", onde
lança, entre outros, Pedro Nava, Francisco
de Sá Pires, Oscar Niemeyer, Carlos Leão,
Marcelo Garcia e Lúcio Rangel, em colunas
assinadas, e publica desenhos de artistas plásticos
até então pouco conhecidos, como
Athos Bulcão, Maria Helena Vieira da Silva,
Alfredo Ceschiatti, Carlos Scliar, Eros (Martin)
Gonçalves e Arpad Czenes.
No ano de 1946, assume seu
primeiro posto diplomático: vice-consul
do Brasil em Los Angeles, Califórnia (USA).
Ali permanece por quase cinco anos, sem retornar
ao seu país. Publica, em edição
de luxo, com ilustrações de Carlos
Leão, seu livro, Poemas, sonetos e
baladas.
Em 1951, casa-se, pela segunda
vez, com Lila Maria Esquerdo e Bôscoli.
A convite de Samuel Wainer, começa a colaborar
no jornal "Última Hora", como
cronista diário e posteriormente crítico
de cinema.
Em 1953, nasce sua
filha Georgiana. Compõe seu primeiro samba,
música e letra, "Quando tu passas
por mim". Faz crônicas diárias
para o jornal "A Vanguarda" e colabora
no tablóide semanário "Flan",
de "Última Hora". Parte para
Paris como segundo secretário de Embaixada.
Escreve Orfeu da Conceição,
obra que seria premiada no Concurso de Teatro
do IV Centenário da Cidade de São
Paulo no ano seguinte, e que teve montagem teatral
em 1956, com cenários de Oscar Niemeyer.
Posteriormente transformada em filme (com o nome
de Orfeu negro) pelo diretor francês
Marcel Camus, em 1959, obteve grande sucesso internacional,
tendo sido premiada com a Palma de Ouro no Festival
de Cannes e com o Oscar, em Hollywood, como o
melhor filme estrangeiro do ano. Nesse filme acontece
seu primeiro trabalho com Antônio Carlos
Jobim (Tom Jobim).
Em 1956, retorna à pátria,
no gozo de licença-prêmio. Nasce
sua filha, Luciana. A convite de Jorge Amado,
colabora no quinzenário "Para Todos",
onde publica, na primeira edição,
o poema O operário em construção.
A peça Orfeu da Conceição
é encenada no Teatro Municipal, que aparece
também em edição comemorativa
de luxo, ilustrada por Carlos Scliar. As músicas
do espetáculo são de autoria de
Antônio Carlos Jobim, dando início
a uma parceria que, tempos depois, com a inclusão
do cantor e violonista João Gilberto, daria
início ao movimento de renovação
da música popular brasileira que se convencionou
chamar de bossa nova. Retorna ao posto, em Paris,
no final do ano.
Publica Livro de Sonetos,
em edição de Livros de Portugal,
em 1957. É transferido da Embaixada em
Paris para a delegação do Brasil
junto à UNESCO. No final do ano é
transferido para Montevidéu, regressando,
em trânsito, ao Brasil.
1959 marca o lançamento
do LP Por toda a minha vida, de canções
suas com Jobim, pela cantora Lenita Bruno. Casa-se
sua filha Susana.
Dá início à composição
de uma série de afro-sambas, em parceria
com Baden Powell, entre os quais Berimbau
e Canto de Ossanha. Com Carlos Lyra,
compõe as canções de sua
comédia musicada Pobre menina rica.
Em agosto desse ano, 1962, faz seu primeiro show,
que obteve grande repercussão, ao lado
de Jobim e João Gilberto, na boate "Au
Bon Gourmet", iniciando a fase dos "pocket-shows",
onde foram lançados grandes sucessos internacionais
como Garota de Ipanema e Samba da
benção.
Em 1963, inicia uma parceria
que produziria grandes sucessos com Edu Lobo.
Casa-se com Nelita Abreu Rocha e retorna a Paris,
assumindo posto na delegação do
Brasil junto à UNESCO.
1965 marca o lançamento
de Cordélia e o peregrino, em
edição do Serviço de Documentação
do Ministério de Educação
e Cultura. Ganha o primeiro e segundo lugares
do I Festival de Música Popular de São
Paulo, da TV Record, em canções
de parceria com Edu Lobo e Baden Powell. Parte
para Paris e St. Maxime para escrever o roteiro
do filme Arrastão. Indispõe-se
com o diretor e retira suas músicas do
filme.
No ano seguinte é lançado o livro
Para uma menina com uma flor. São
feitos documentários sobre o poeta pelas
televisões americana, alemã, italiana
e francesa. Seu Samba da benção,
em parceria com Baden Powell, é incluído,
em versão do compositor e ator Pierre Barouh,
no filme Un homme... une femme, vencedor
do Festival de Cannes do mesmo ano. Vinicius participa
do juri desse festival.
Em 1967, ocorre a estréia do filme Garota
de Ipanema. É colocado à disposição
do governo de Minas Gerais no sentido de estudar
a realização anual de um Festival
de Arte em Ouro Preto.
Falece sua mãe, em 25
de fevereiro de 1968. Aparece a primeira edição
de sua Obra Poética. Seus poemas
são traduzidos para o italiano por Ungaretti.
Em 1969, é
exonerado do Itamaraty. Casa-se com Cristina Gurjão,
com quem tem uma filha chamada Maria.
No ano seguinte,
casa-se com a atriz baiana Gesse Gessy. Inicia
parceria com o violonista Toquinho. Em 1971, muda-se
para Salvador, Bahia. Viaja pela Itália,
numa espécie de auto-exílio. No
ano seguinte, com Toquinho, lança naquele
país o LP Per vivere un grande amore.
Em 1976, novo casamento, agora
com Marta Rodrigues Santamaria. Escreve as letras
de Deus lhe pague, em parceria com Edu
Lobo. No ano seguinte, excursiona com Toquinho
pela Europa. Casa-se com Gilda de Queirós
Matoso.
No dia 17 de abril de 1980,
é operado para a instalação
de um dreno cerebral. Morre, na manhã de
09 de julho, de edema pulmonar, em sua casa na
Gávea, em companhia de Toquinho e de sua
última mulher. Extraviam-se os originais
de seu livro O deve e o haver.
Inconstante no amor (seus biógrafos
dizem que teve, oficialmente, 09 mulheres), um
dia foi questionado pelo parceiro Tom Jobim: "Afinal,
poetinha, quantas vezes você vai se casar?".
Num improviso de sabedoria, Vinicius respondeu:
"Quantas forem necessárias."
No dia 08/09/2006, é
homenageado pelo governo brasileiro com sua reintegração
post mortem aos quadros do Ministério das
Relações Exteriores, ocasião
em que foi inaugurado o "Espaço Vinicius
de Moraes" no Palácio do Itamaraty
- Rio de Janeiro (RJ).