Um sentido...
Diziam que eu parecia triste, ou que estava deprimida,
mas preferi intitular-me: lúgubre.
Gostava de ir à igreja ver Cristo pregado numa
Cruz, assim podia visualizar um sofrimento maior que
o meu, saía de lá renovada, valia para
os próximos dez minutos.
Para os colegas, eu era Patrícia; no trabalho,
eu era a chefe; em casa, mãe e esposa. Controlava
tudo, zelava por tudo e todos, menos por mim, eu não
precisava de cuidados.
As crianças estavam no catecismo e enquanto aguardava-as,
fui confessar-me, há muito tempo eu não
era ouvida com tanta atenção. Atenção
que me foi colocada à disposição.
Levar os meninos ao catecismo deixou de ser uma obrigação
da empregada, eu passei a exercer essa tarefa pessoalmente,
e dentre minhas várias atividades, era a que
eu mais gostava de fazer, na igreja, eu tinha com quem
conversar.
Numa dessas conversas, resolvi falar sobre as minhas
dores do excesso, que tinha de tudo, e até mesmo
era feliz, pelo menos, às vezes. E o meu excesso
era o meu delator.
Eu seria capaz de invejar a vida que eu levava e ao
mesmo tempo odiar a pessoa que eu era, tudo estava no
lugar, e nada fazia sentido.
Não parava de pensar naquele homem que com tanta
compreensão ouvia-me, por vezes, parecia-me vaga
a idéia de que aquele homem era o padre.
Os abraços na chegada e na despedida tornavam-se
cada vez mais cálidos e durante os diálogos
passamos a trocar mais que palavras.
Em casa e no trabalho, diziam que a igreja estava me
fazendo muito bem. Que há tempos eles não
me viam tão de bem com a vida. As crianças
fizeram a primeira comunhão, eu e meu marido,
o encontro de casais. Os colegas chamavam-me de baratinha
de igreja.
Levava uma vida dupla que se misturava. E a consciência
de que eu fazia algo inescrupuloso tornou-me uma pessoa
melhor...
Roberta
Binatti
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