Tom Jobim
Tom Jobim é
um dos nomes que melhor representam a música
brasileira na segunda metade do século XX.
Pianista, compositor, cantor, arranjador, violonista
às vezes, é praticamente uma unanimidade
quando se pensa em qualidade e sofisticação
musical.
Nasceu no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, mudando-se
logo com a família para Ipanema. Aprendeu
a tocar violão e piano tendo tido aulas,
entre outros, com o professor alemão Koellreuter,
introdutor da técnica dodecafônica
no Brasil.
Pensou em trabalhar como arquiteto e chegou a se
empregar em um escritório, mas logo desistiu
e resolveu ser pianista. Tocava em bares e inferninhos
em Copacabana no início dos anos 50, até
que em 1952 foi contratado como arranjador pela
gravadora Continental. Além dos arranjos,
também tinha a função de transcrever
para a pauta as melodias de compositores que não
dominavam a escrita musical. Por essa época
começou a escrever suas primeiras composições.
A primeira música gravada foi Incerteza
(com Newton Mendonça), por Mauricy Moura.
Tereza da Praia, parceria com Billy Blanco,
gravada por Lúcio Alves e Dick Farney pela
Continental em 1954, foi o primeiro sucesso. Depois
disso participou de gravações e compôs
com Billy Blanco a Sinfonia do Rio de Janeiro,
além de outras parcerias como Dolores Duran
(Se É por Falta de Adeus, Por
Causa de Você).
Em 1956 musicou a peça Orfeu da Conceição
com Vinicius de Moraes, que se tornou um de seus
parceiros mais constantes. Dessa peça, fez
bastante sucesso a música Se Todos Fossem
Iguais a Você, gravada diversas vezes.
Tom Jobim fez parte do núcleo embrionário
da bossa nova. A concretização da
bossa nova como estilo musical veio logo em seguida
com o 78 rotações Chega de Saudade,
interpretado por João Gilberto, lançado
em 1958. No ano seguinte, o LP Chega de Saudade,
de João Gilberto, com arranjos e direção
musical de Tom, consolidou os rumos que a música
popular brasileira tomaria dali pra frente. No mesmo
ano foi a vez de Silvia Telles gravar Amor de
Gente Moça, um disco com 12 músicas
de Tom, entre elas Só em Teus Braços,
Dindi (com Aloysio de Oliveira) e
A Felicidade (com Vinicius).
Tom foi um dos destaques do Festival de Bossa Nova
do Carnegie Hall, em Nova York em 1962. No ano seguinte
compôs, com Vinicius, um de seus maiores sucessos
e possivelmente a música brasileira mais
executada no exterior: Garota de Ipanema.
Nos anos de 1962 e 1963 a quantidade de "clássicos"
produzidos por Tom é impressionante: Samba
do Avião, Só Danço
Samba (com Vinicius), Ela É Carioca
(com Vinicius), O Morro Não Tem
Vez, Inútil Paisagem (com Aloysio)
e Vivo Sonhando.
Nos Estados Unidos gravou discos (o primeiro individual
foi The Composer Of 'Desafinado' Plays,
de 1965), participou de shows e fundou sua própria
editora, a Corcovado Music. O sucesso de suas músicas
fora do Brasil o fez voltar aos EUA em 1967 para
gravar com um dos grandes mitos americanos, Frank
Sinatra. O disco Francis Albert Sinatra e Antônio
Carlos Jobim, com arranjos de Claus Ogerman,
incluiu versões em inglês de músicas
de Tom (The Girl From Ipanema, How
Insensitive, Dindi, Quiet Night
of Quiet Stars) e composições
americanas, como
I Concentrate On You, de Cole Porter.
No fim dos anos 60, depois de lançar o disco
Wave, participou de festivais no Brasil,
ganhando inclusive o primeiro lugar no III Festival
Internacional da Canção da TV Globo
com Sabiá, parceria com Chico Buarque,
interpretado por Cynara e Cybele, do Quarteto em
Cy.
Aprofundando seus estudos musicais, adquirindo influências
de compositores eruditos, principalmente Villa-Lobos
e Debussy, Tom Jobim prosseguiu gravando e compondo
músicas vocais e instrumentais de rara inspiração,
juntando harmonias do jazz ("Stone Flower")
e elementos tipicamente brasileiros, fruto de suas
pesquisas sobre a cultura brasileira. É o
caso de Matita Perê e Urubu,
lançados na década de 70, que marcam
a aliança entre a sofisticação
harmônica de Tom e sua qualidade de letrista.
Fazem parte desses dois discos a lendária
Águas de Março e Correnteza.
Também nessa época grava discos com
outros artistas, casos de "Elis e Tom",
"Miúcha e Tom Jobim" e "Edu
e Tom". Passarim, de 1987, é
a obra de um compositor já consagrado, que
pode desenvolver seu trabalho sem qualquer receio,
acompanhado por uma banda grande, a Nova Banda.
Além da faixa-título, Gabriela,
Luiza, Chansong, Borzeguim
e Anos Dourados (com Chico Buarque) são
os destaques.
É difícil
escolher os mais significativos entre os mais de
50 discos de que participou, como intérprete
ou arranjador. Todos eles têm algo de inovador,
de diferente e especial. Seu último CD, Antônio
Brasileiro, foi lançado em 1994, pouco
antes da sua morte, em dezembro, nos EUA.
Biografias foram lançadas, entre elas "Antônio
Carlos Jobim, um Homem Iluminado", de sua irmã
Helena Jobim, "Antônio Carlos Jobim -
Uma Biografia", de Sérgio Cabral, e
"Tons sobre Tom", de Márcia Cezimbra,
Tárik de Souza e Tessy Callado.

Águas de Março
É pau, é pedra,
é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é
o sol
É a noite, é a morte, é um laço,
é o anzol
É peroba do campo, é o nó da
madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira
ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da
canseira
É o pé, é o chão, é
a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no
chão
É um regato, é uma fonte, é um
pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do
caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma
conta, é um conto
É uma ponta, é um ponto, é um
pingo pingando
É um peixe, é um gesto, é uma
prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo
chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da
picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na
estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama,
é a lama
É um passo, é uma ponte, é um
sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando
o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João,
é José
É um espinho na mão, é um corte
no pé
É um passo, é uma ponte, é um
sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando
o verão
É a promessa de vida no teu coração

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