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Tardes


Estou cansado de ser meta. Sempre escrevo sobre escrever, sempre falo de falar, sempre ouço de ouvir, é que eu ouço rádio. Estou cansado de ser meta, mas é difícil evitar. Conheço gente que me diria pseudo, porque falando assim parece até que já sei o que dizer. Na verdade eu concordo com pseudopoeta. Eu não sei se sou mesmo, mas esse fingimento é imperativo.
Hoje comecei a sentir a tarde, eu sinto a tarde, gosto de ver a tarde, gosto de cheirar a tarde, gosto de ouvir a tarde, mas ainda não provei a tarde. Preciso de um gosto para a tarde. Você já sentiu as três da tarde? Que experimento, que sentimento!
Eu tenho essa coisa, aliás, a vida tem coisas. As três da tarde sentidas, não são como as três da tarde trabalhadas. As três da tarde sentidas dão vontade de estar num canto, fazem cheiro de sol, têm luzes esparramadas, os ventos entram nas orelhas. São diferentes. Não se trata de ocupação, mas de “acordação” de sentidos para as três da tarde.
Deu vontade de dormir, o dia começou assim. Quando pude arranjar sono preguiçoso, ouvi música para alcançá-lo, lembrei a luminicência de Clarice de ontem. A Clarice – gosto de dizer o artigo antes do nome – não deixou meu ressonar. A luminicência me lembrou da tarde que senti. Falar de tarde parece comum, para mim é involuntário. Lembrei da tarde, não sei o dia dela, sei que eram três. Tinha escrito para uma amiga, entreguei em mãos e trabalhamos em Biologia. Ah, lembrei do dia, era descompromissado, por isso li cordel. Senti a tarde naquele dia: paredes verdes e vontade de anos 80, não é música nem modismos, mas carpete e logotipos engraçados.
Eu pressinto uma coisa – conheço gente que pressente citação – o meu frio na espinha é por situações engraçadas. Pressinto, miro e lá ela está. Porém não pressinto quando verei o trançar de arbustos balançarem em uma rua comprida com portões por onde não passa ninguém. Isso acontece às três da tarde – isso porque três da tarde é meio, as coisas já estão tomando forma, ninguém começa às três, ninguém planeja às três, na verdade eu me enclausuro às três. As três são meio, meio onde ninguém começa, tudo já tem caminho – às vezes eu sinto, às vezes me ligo a ela, tarde.
Também é à tarde, às três, que vejo o mar – não de perto – a praça XV ou os jardins do MAM. Eles não são tão três da tarde? A moldura pontilhada por seus oitenta ou sei lá, vinte e poucos anos não é tão três da tarde? A instalação desgastada por ser tão remontada, não é tarde? Lembrar da semana de 22, lembrar do homem amarelo não é só três da tarde? O estacionar de barcas subidoras e descedoras – aqui no Rio – é pura tarde às três. Cinema não é tão três da tarde, mas a pipoca no saco verde é tão. Carregar livro, atravessar a Cinelândia e ficar com vontade de entrar no Municipal, além de ser necessário, não é três da tarde? Persuadir um amigo, o que já fiz, duas vezes à tarde também é tarde. Uma vez foi quando descompromissado fiz um pacto, ah! lembrei das sobrancelhas de Frida, não são tardes?, deu certo, mas às vezes custa 12 reais para mantê-lo. A outra vez foi quando o amigo comprou discos no chão do Catete comigo, não era tarde, mas devia ter sido, e tomou café vendo ratos.
Hoje senti tarde, e agora devo ir pois é à ela, três da tarde, a quem devo me render.

 

Lucas Vieira Souza


 

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