|
O Padê de Juçara Marçal!
Juçara Marçal é
dos raros luminares negros da cultura popular urbano-paulistana,
em meio a um mundo de artistas e pesquisadores que bebe
nas fontes africanas do interior paulista – lundu,
congada, jongo, batuque -, nos terreiros das velhas
guardas e nos saberes de negras e negros velhos. Salve
Juçara Marçal! Salve Fabiana Cozza! Salve
Beth Belli! Saudades, Ney Mesquita! É cantora
de fôlego e afinação imensos. Compõe,
dá aulas de canto e língua portuguesa.
É mestre em literatura brasileira pela USP e
integra os grupos "A Barca" e "Vésper
Coral". "Padê" é seu primeiro
disco solo, feito em parceria com Kiko Dinucci. Por
falar no parceiro, quem não o conhece e vê
a gravura da capa, Kiko por ele mesmo, vê um rapaz...
mestiço, digamos. Ao ouvir a música você
compreende o auto-retrato, trata-se de um "branco-afro-macarrônico".
Já que não existe negro de alma branca,
também não existe branco de alma negra.
É um desses moços urbano-paulistas que
bebe nas fontes africanas com seriedade, respeito e
competência. O disco é delicioso. A música
de abertura é "Padê", composição
de Kiko Dinucci. É brado de chamada, de iniciação
ao canto de Juçara Marçal. O baixo de
Marcelo Maniere dá um toque especial a este arranjo
para Exu. É mantra de dormir e acordar. Laroiê!
Em "São Jorge", também de Kiko,
novamente o baixo se destaca, do mesmo Marcelo. O poeta
Kiko vem montado em cavalo baio e vestido de gala: "a
guimba e a fumaça do meu cigarro/cega o olho
do soldado que pensou em me ferir/com um sorriso derrubo
uma tropa inteira/mesmo que na dianteira a sombra venha
a me seguir". "Machado de Xangô"
é a próxima e tem um quê de música
cubana ou de outros lugares do Caribe, assim anos 40,50,
impossível não ouvir com os quadris. O
violão de Kiko faz magia e cadencia tudo, somam-se
os atabaques e a voz de Juçara e somos transportados
para um barracão de encantados ou para a mata...
"se eu perder a fé no meu senhor (Xangô)/
ele rola a pedreira por cima de mim / ele rola a pedreira
po cima de mim". É papo para iniciados,
gente senhoriada por Xangô sabe que a coisa é
mesmo assim. "Atotô" é simples
e portentosa, como Obaluaê. Kiko é preciso
e Juçara é incisiva. "Jatobá"
apresenta a cantora-compositora e o canto lembra tanto
Ná Ozzetti, e a poesia é Lira Paulistana
renascida com tônus de sabedoria africana enraizada
em São Paulo. O arranjo e o piano de Lincoln
Antônio são magistrais. A Lira Paulistana
prossegue em sua visita pelo disco. Opa! Mas é
Candeia, em "Cabocla". Nada é impossível,
deve ser efeito do arranjo vocal e do baixo, outra vez.
"Mar de lágrimas" é a letra
mais fraca do disco, é pretensiosa, mas não
diz nada. É salva pela voz encantadora de Juçara
e pela combinação piano-tamborim, lindas.
Assim mesmo, dói no ouvido a tal "culpabilidade"
no meio de uma poesia. São inevitáveis
as lembranças de letras bobas cantadas por Leny
Andrade, dentre outras musas, protegidas por arranjos
belíssimos, músicos primorosos e voz sem
adjetivos. Santa proteção à Juçara.
Em "Engasga gato", a cantora brinca um pouco
mais com a voz, emoldurada por tambores e baixo, maraca
e reco, quando os tambores descansam. Um quê rumbeiro
nos arrebata. Mais brincadeira com a voz em "Samba
estranho", talvez a música mais pop do disco.
Enredo de samba de breque, colorido de Itamar Assumpção,
ritmo de cartoon e a cantora imprime marca cinematográfica
à música. "Velha morena" parece
nos levar de volta aos 80, tempos da Lira Paulistana
e leva mesmo, é Luis Tatit em ação.
No arranjo vocal Juçara brinca como brincam o
Rumo, Itamar Assumpção, Luis Tatit, Ná
Ozzetti. "Imitação" é
só voz e volão, Juçara, Kiko e
boa poesia: "dona solução/reveja
o meu caso com atenção/a esperança
que é forte/mora no meu coração".
"Batuque para Ney" saúda e evoca Ney
Mesquita, um luminar que já se foi, aquele que
lançou Kiko Dinucci: "Cadê Ney Mesquita?/cantou
violão, tambor gritou"... E dá-lhe
matraca de Renato Ihu: "eu sou do tempo da coruja
batuqueira/conheço batuqueiro/é pelo jeito
que ele bate". "Roda de Sampa", um samba
bom e bem paulistano de Kiko, encerra o disco. E a voz
melodiosa de Juçara reverbera nos tímpanos
da gente.
Cidinha da Silva
www.cidinhadasilva.blogspot.com
Voltar
para galeria
|