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Ogundana: o Alabê de Jerusalém
“Ogundana: o Alabê de Jerusalém”
é, por enquanto, meu livro do ano. Comecei a
fila de leituras com uma nova visita a Mário
Quintana, outra a Paulo Mendes Campos e na seqüência
fui arrebatada pela prosa poética de Altay Veloso.
A capa fisgou minha atenção ao primeiro
olhar – um belo jovem negro de tranças,
rosto de estátua de bronze e olhos iluminados,
um machado de Xangô e um pássaro de três
cabeças, dentre outros adereços laterais.
Também me inquietou o título do livro,
pensei tratar-se da história de um filho de Ogum,
mas a leitura me trouxe um filho de Xangô e Oxum,
maternado por Nanã, conhecedor dos segredos de
Ossain e Obaluaê, apadrinhado por Exu e Ogum,
ancorado na generosidade e carinho de todo o panteão
dos deuses iorubanos.
O livro estava disposto entre os contos e crônicas
da livraria e se não fuçasse a prateleira
não o teria visto. Catalogação
esquisita, Ogundana é um quase-romance, uma novela,
prosa poética, pura poesia desenhada por hábil
contador de histórias. Faz parte de um projeto
maior de Altay, a ópera “O Alabê
de Jerusalém”, encenada com sucesso de
público e crítica no Teatro Municipal
do Rio de Janeiro, em maio de 2007.
Ogundana é um andarilho africano que viveu há
dois mil anos, contemporâneo de Jesus Cristo.
Ele sai da própria aldeia, em Ifé, Nigéria,
aos doze anos e atravessa todo o Norte da África,
a pé, poucas vezes em caravanas, até romper
as fronteiras do continente e chegar a Roma. Busca conhecer
o mundo e encontrar a si mesmo.
A passagem pela África ocupa o primeiro quarto
do livro e foi o que mais me emocionou e interessou.
O tônus poético das cenas e cenários
é de difícil tradução, resta
destacá-los para que os sentidos de quem lê
este texto possam se aproximar da magia de Ogundana,
ao demonstrar, por exemplo, a necessidade de desenvolver
fina sintonia com o Orixá de cada dia, como requisito
para se tornar um Alabê, aquele que cuida da música
nos cultos Iorubás. “Foi então,
que na manhã seguinte, com realeza e requinte,
na casa dos instrumentos, recebi dos sacerdotes a empunhadura
do archote que ilumina os fundamentos, a orientação
secreta pra ficar em sintonia com o Orixá de
cada dia, pra receber a energia que cura, que alivia
e neutraliza a magia fria dos maus momentos. Assim,
ao som dos tambores, Xangô desceu de Aruanda trazendo
seus dois machados e os cruzou no meu peito, realizou
os preceitos; e, então, já quase eleito
um Alabê iniciado fui levado em cortejo até
a beira do rio. E ao som dos cânticos sagrados,
recebi a grande honraria: ser portador de um colar,
uma guia, que foi por Oxum batizada, pertencer à
hierarquia dos que vivem em sintonia com o raio que
Xangô envia rumo ao palácio das águas”
(p.18).
Madiba, primo e melhor amigo de Ogundana vai ao encontro
dele, pois não o deixaria viajar sozinho rumo
ao desconhecido que ele, Madiba, também queria
alcançar. Ogundana o define como aquele que “trazia
consigo, além da força dos destemidos,
a luz do sexto sentido que brilha nos olhos dos iniciados.”
Embora fosse um menino, assim como ele, inocente, Madiba
“era um sábio, tinha a intuição
dos magos, a lucidez dos videntes” (p.29).
Mas Madiba adoece, parte, e o momento de sua passagem
é requintada reflexão de fé na
existência do mundo espiritual e nas razões
que a razão desconhece. A dor de Ogundana é
dilacerante e a poesia gerada dessa dor nos ajuda a
compreender e superar nossas dores causadas por perdas:
“Conduzido pela dor, fui levado ao traiçoeiro
reino da apatia. Lá, sujeito às bruxarias
silenciosas e à música furiosa daquele
mundo sombrio, caí no mais denso e frio estado
de melancolia. Não mais levantei os olhos para
contemplar o firmamento; e, sem o sábio aconselhamento
das estrelas, distante da luminosidade solar e do carinhoso
olhar da lua cheia, cheguei a perder de vista o elo
resplandecente da poderosa corrente que une os deuses
da minha aldeia. Era como um açoite, a escuridão
da noite, toda vez que ela chegava. E eu sofria pesadelos,
acordava assustado. Ainda na inocência, confundia
a luz da vidência com as trevas dos maus presságios”(p.35).
Antes disso, a lucidez de Madiba diante da morte iminente,
impressiona. “Ogundana, sinto muito, mas acho
que chegou a hora. Minha razão, já está
em silêncio, não encontrou nenhuma resposta,
e já não faz nenhuma pergunta. Mas a tua,
vai estar mais forte que nunca, depois da minha partida,
pode deixá-lo de costas pra luz do seu espírito,
e, te mergulhar em suas próprias sombras, arruinar
sua vida. A razão quase sempre zomba da percepção
da alma. Não aceite a hostilidade, segue em busca
da verdade, confia nas divindades, que com o tempo,
ela se acalma” (p. 32 e 33).
Ainda em estado aflitivo, Ogundana prossegue a caminhada.
Sonha com um rei altivo e carinhoso, senhor de belo
reinado que lhe dá conselhos plenos de sabedoria:
(...) “Todos nós estamos sujeitos a cair
nas armadilhas da tristeza. Não percas a delicadeza,
só ela traz a clareza quando a estrada é
sombria, mantém-te em vigília. Às
vezes parece que tarda a chegar o tempo das flores.
Mas é que a natureza o guarda porque sabe que
os pintores, os que fabricam as cores, moram em outras
estações. E por isso ela espera até
que outros artistas procurem-na e felizes lhe digam:
“Querida mãe natureza, já temos
todos os matizes pra pintar sua primavera””
(p.37).
Uma das mais belas partes do livro vem logo a seguir,
um diálogo entre o rio Nilo e o deserto, feito
por meio dos viajantes que trazem a um, notícias
do outro. Há também reflexões profundas
sobre a vida e a paixão, “uma nos joga
na estrada e a outra em algum lugar nos espera”,
e, finalmente, sobre a difícil decisão
de persistir no caminho, de atender ao chamado da vida:
“Hesitei, não por me faltar coragem, mas
o ritual de passagem de um mundo conhecido pra outro
tão longe de nossas raízes é um
ato violento. Correu por dentro de mim como um raio,
quase me levou ao desmaio, uma assustadora sensação
de saudade (...) Chorei. Não como uma criança,
mas como um homem que tem esperança, um homem
que acredita que a estrada ama os caminheiros, que crê
ser do mundo um passageiro e que não deve descansar
enquanto o corpo a alma puder levar ao encontro de novos
companheiros’ (p.53).
A partir daí, a poesia reinante se torna episódica.
Há mudanças no tom do texto, adota-se
um coloquialismo excessivo que destoa da elaborada linguagem
anterior. O maior mérito dos restantes três
quartos do livro, a meu ver, é destacar a simultaneidade
da presença de Ogundana, um africano, ao período
de vida de Jesus Cristo na Galiléia. Ou seja,
o autor mostra o intercruzamento de mundos que não
eram estanques, cujas fronteiras eram transpostas e
ocorria o diálogo, mesmo que entre estrangeiros,
entenda-se, pessoas e culturas em permanente estranhamento.
Ao final, uma grande surpresa, Ogundana não seria
uma personagem de ficção? Teria existido?
Seria hoje uma entidade espiritual, o “Alabê
de Jerusalém”, que se comunica com os humanos
ancorado em uma plêiade de pretos velhos resplandescentes?
Se assim for, pode ser “desculpada” uma
ou outra incongruência temporal da obra, por exemplo,
o fato de uma personagem que viveu há dois mil
anos afrimar que não poderia deixar de adotar
um determinado comportamento “por conta de ideologia”.
A palavra ideologia sequer existia naquela época,
é construção política do
século XVIII.
Mas é também um bom impasse literário,
ou foi problema de revisão, de falta de leitura
crítica, ou solução de espírito
atemporal que vive em múltiplas eras e incorpora
distintas linguagens.
Cidinha da Silva
www.cidinhadasilva.blogspot.com
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