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Linguística
A vida humana em sociedade
não teria sido possível sem sistemas
de signos que permitissem a comunicação.
A ciência da linguística começou
a se desenvolver quando os homens começaram
a fazer perguntas sobre a linguagem que embasava sua
civilização.
Linguística
é a ciência que estuda a linguagem. O
termo foi empregado pela primeira vez em meados do
século XIX, para distinguir as novas diretrizes
para o estudo da linguagem, em contraposição
ao enfoque filológico mais tradicional. A filologia
ocupa-se, principalmente, da evolução
histórica das línguas, tal como se manifestam
nos textos escritos e no contexto literário
e cultural associado. A linguística tende a
dar prioridade à língua falada e à
maneira como ela se manifesta em determinada época.
Apresenta
ainda uma tendência maior à universalização
e aspira à construção de uma
teoria geral da estrutura da linguagem que abarque
todos os seus aspectos. O desenvolvimento, ao longo
dos séculos, de várias hipóteses
sobre a formação, evolução
e funcionamento da linguagem criou a base para as
pesquisas linguísticas atuais.
Antes
do século XIX, quando a linguística
ainda não havia adquirido caráter científico,
os estudos nessa área eram dominados por considerações
empíricas sobre a própria condição
da linguagem, que proliferaram em vários glossários
e gramáticas cujo objetivo era explicar e conservar
as formas linguísticas conhecidas. No século
V antes da era cristã, surgiu na Índia
a primeira gramática destinada a preservar
as antigas escrituras sagradas.
Na Grécia
antiga, as questões propostas em torno da naturalidade
e arbitrariedade da linguagem -- ou seja, o que existe
nela "por natureza" ou "por convenção"
-- deram origem a duas escolas opostas: os analogistas
sustentavam a regularidade básica da linguagem,
devida à convenção, e os anomalistas
consideravam que a linguagem era irregular, por refletir
a própria irregularidade da natureza. As pesquisas
sobre essas questões, que os gramáticos
romanos se encarregariam, mais tarde, de continuar
e transmitir, impulsionaram o progresso da gramática
no Ocidente.
A concepção
da linguagem como um espelho em que se refletia a
verdadeira imagem da realidade levou as gramáticas
especulativas medievais a destacarem o aspecto semântico
-- relativo ao significado -- da língua. A
partir do século XV, a tradição
gramatical greco-romana, que até então
imperara, perdeu importância à medida
que avançava o estudo das línguas vernáculas
e exóticas.
A gramática
geral de Port-Royal, redigida por estudiosos franceses
no século XVII, preparou a abordagem histórica
da língua que caracterizou os estudos linguísticos
do século XVIII e abriu caminho ao comparativismo
do século seguinte. Gramática comparada
e linguística histórica. A descoberta,
no final do século XVIII, das afinidades "genealógicas"
entre o sânscrito, o grego e o latim, atribuída
comumente ao orientalista inglês Sir William
Jones, deu lugar a um exaustivo estudo comparado dessas
e de outras línguas. Tais pesquisas apresentaram
os primeiros resultados positivos quando, em 1816,
o linguista alemão Franz Bopp publicou sua
obra Über das Conjugations system der Sanskritsprache...
(Sobre o sistema das conjugações em
sânscrito...). Por meio da comparação
metódica das conjugações do sânscrito,
persa, grego, latim e alemão, Bopp concluiu
que as afinidades fonéticas e morfológicas
demonstravam a existência de um tronco hipotético
ou língua comum anterior, o indo-europeu.
Foram assim estabelecidos os alicerces
da gramática comparada, que não tardaria
a adquirir caráter científico graças
ao trabalho de dois linguistas: Rasmus Rask, na Dinamarca,
e Jacob Grimm, na Alemanha.
Ao primeiro
se deve a elaboração de uma gramática
geral e comparativa das línguas do mundo e
o estabelecimento de uma série de correspondências
fonéticas entre as palavras de significado
igual ou semelhante. Grimm acrescentou a esses estudos
uma perspectiva histórica, ao pesquisar as
numerosas correspondências fonéticas
entre as consoantes do latim, do grego, do sânscrito
e do ramo germânico do indo-europeu. O resultado
de sua pesquisa, conhecido como "lei de Grimm"
ou "primeira mutação consonântica
do germânico", representou um progresso
notável nos estudos lingüísticos.
A classificação
das línguas, a evolução histórica
de seus aspectos fonológicos, morfológicos
e léxicos, os estudos sobre distribuição
geográfica dos idiomas indo-europeus e a reconstrução
da língua comum de que provinham definiram
o contorno geral dos estudos linguísticos que
dominaram a segunda metade do século XIX. Na
década de 1870, o movimento dos neogramáticos,
cujos principais representantes foram os alemães
August Leskien e Hermann Paul, marcou um dos períodos
mais significativos da linguística histórica
por conferir à disciplina um caráter
mais científico e preciso.
Com base
nas teorias evolucionistas de Charles Darwin e na
compreensão da língua como um organismo
vivo, que nasce, se desenvolve e morre, os neogramáticos
atribuíram à evolução
histórica das línguas a determinadas
leis fonéticas, regulares e imutáveis,
a partir das quais seria possível reconstruir
as formas originais de que haviam surgido. Apesar
das evidentes limitações desse enfoque
fonético, o método e as técnicas
dos neogramáticos muito influenciaram os linguistas
posteriores.
Nas correntes
linguísticas surgidas durante a primeira metade
do século XX, foram também importantes
as teorias desenvolvidas um século antes pelo
alemão Wilhelm Von Humboldt, para quem a língua,
organismo vivo e manifestação do espírito
humano, era uma atividade e não um ato. Com
sua concepção estruturalista da língua
como um conjunto orgânico composto por uma forma
externa (os sons), estruturada e dotada de sentido
por uma forma interna, peculiar a cada língua,
Humboldt foi o precursor do estruturalismo linguístico
de Ferdinand de Saussure.
Com o
progresso do método comparativista, os estudos
linguísticos do século XX adotaram uma
nova orientação e uma nova atitude com
relação ao enfoque e ao objeto de estudo
da linguística. Ao invés de se concentrar
na descrição histórica da língua,
como queriam os gramáticos comparativistas,
a linguística daria maior ênfase ao estudo
da linguagem em si mesma e a seu caráter sociocultural.
Durante a primeira metade do século
XX, as novas orientações linguísticas
estiveram representadas fundamentalmente pelo estruturalismo,
cujos expoentes foram Ferdinand de Saussure, na Europa,
e Leonard Bloomfield, nos Estados Unidos.
Considera-se
em geral o suíço Ferdinand de Saussure
o fundador do estruturalismo linguístico na
Europa, embora suas teorias não tenham sido
assim definidas explicitamente. As principais ideias
de Saussure, reunidas por seus discípulos Charles
Bally e Albert Séchehaye e publicadas postumamente
sob o título Cours de linguistique générale
(1916; Curso de linguística geral), tiveram
forte influência nos estudos linguísticos
da primeira metade do século XX.
O estruturalismo,
conforme exposto na obra de Saussure, baseia-se na
convicção de que a linguagem é
um sistema abstrato de relações diferenciais
entre todas as suas partes. Esse sistema se apresenta
subjacente aos fatos linguísticos concretos
e constitui o principal objeto de estudo do linguista.
Saussure
considerou prioritário o estudo sincrônico,
que permite revelar a estrutura essencial da linguagem:
"A língua é um sistema em que todas
as partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade
sincrônica."
Os linguistas encontraram nas ideias
renovadoras de Saussure o ponto de partida para desenvolver
novos métodos e teorias. Foi o caso da chamada
escola de Praga, surgida em 1926 e formada, entre
outros, pelos linguistas de origem russa Nikolai Trubetskoi,
Serguei Karcevski e Roman Jakobson. No I Congresso
Internacional de Linguistas, realizado em Haia, em
1928, os integrantes da escola de Praga assinalaram
a importância da fonologia no sistema da língua.
Sobre a base das distinções
realizadas por Saussure entre língua e discurso,
sincronia e diacronia, os linguistas da escola de
Praga proclamaram a necessidade de se fazer distinção
entre fonologia e fonética, dois termos usados
até então para definir a ciência
dos sons. Segundo eles, a fonologia estuda as funções
linguísticas dos sons, os fonemas, enquanto
a fonética se preocupa com a produção
e as características dos sons da fala.
À
escola de Praga deveu-se também a definição
de fonema como a unidade mínima do significante
que está no plano da língua, assim como
o conceito de traços pertinentes, distintivos
ou funcionais dos fonemas.
O surgimento do estruturalismo nos
Estados Unidos foi condicionado pela análise
descritiva das centenas de línguas ameríndias
no final do século XIX. A necessidade de buscar
princípios metodológicos apropriados
para a análise dessas línguas, em grande
parte desconhecidas e ágrafas (não escritas),
resultou num enfoque antropológico e etnológico
desses estudos.
Os pesquisadores
pretendiam reconstruir as civilizações
primitivas, cujas estruturas linguísticas consideravam
indissociáveis do contexto social e cultural
em que se haviam originado. Nesse sentido destacaram-se
os trabalhos de Franz Boas e de seu discípulo
Edward Sapir, que em Language (1921; Linguagem)
ressaltou, como fizera Saussure, o caráter
da linguagem como modelo geral e preparou o caminho
da linguística estrutural americana, cujo principal
representante seria Leonard Bloomfield.
Em 1933, a publicação
de um livro de Bloomfield, Language, marcou
o início de uma nova era na linguística
e influiu nos trabalhos da escola distribucionalista
(também denominada neobloomfieldiana) surgida
depois dele. Para obter o máximo rigor científico
no estudo da linguagem, Bloomfield adotou um enfoque
behaviorista em sua análise linguística
e definiu a linguagem em termos de respostas a estímulos.
O autor excluiu de suas considerações,
quase completamente, alusões à significação
ou à semântica.
A publicação
de Syntactic Structures (1957; Estruturas
sintáticas), do americano Noam Chomsky, deu
nova orientação aos estudos linguísticos
modernos. Chomsky reagia contra as hipóteses
teóricas do distribucionalismo (fora discípulo
de Zellig S. Harris) e expunha o que deveria ser,
em sua opinião, o objetivo da linguística:
a formulação de uma gramática
que, por meio de um número finito de regras,
fosse capaz de gerar todas as frases de um idioma,
do mesmo modo que um falante pode formar um número
infinito de frases em sua língua, mesmo quando
nunca as tenha ouvido ou pronunciado.
Tais
regras, afirmou Chomsky, não são leis
da natureza. Foram "construídas pela mente
durante a aquisição do conhecimento"
e podem ser consideradas "princípios universais
da linguagem". A tese representou uma negação
frontal do behaviorismo.
Cabia ao linguista a tarefa de construir essa gramática,
a partir do que Chomsky denominou "competência"
(o conhecimento que o falante possui de sua língua
e que lhe permite gerar e compreender mensagens) e
não do "desempenho" (o emprego concreto
que o falante faz de sua língua). A regras
gramaticais que permitissem gerar orações
inteligíveis num idioma seria denominada gramática
gerativa.
Em suas formulações
sobre essa gramática, Chomsky distinguiu três
componentes: o sintático, com função
geradora; o fonológico, a imagem acústica
da estrutura elaborada pelo componente sintático;
e o semântico, que interpreta essa imagem. Em
oposição à gramática estruturalista
dos distribucionalistas, que se baseava na análise
dos constituintes imediatos, Chomsky analisou as estruturas
das orações em dois níveis, o
profundo e o superficial, para indicar as transformações
produzidas ao se passar de um nível para outro
e as regras que regem as transformações.
Esses conceitos explicam a razão do termo gramática
gerativo-transformacional e fundamentaram grande parte
dos estudos linguísticos realizados depois
de Chomsky.
Segundo a teoria gerativo-transformacional,
todas as línguas possuem uma estrutura superficial
ou aparente, que representa a forma em que aparece
a oração, e outra estrutura profunda
ou latente, que encerra o conteúdo semântico
da oração e forma o corpus gramatical
básico que o falante de uma língua possui.
Por meio de uma quantidade limitada de regras de transformação,
o falante pode criar um número infinito de
orações superficiais. O componente fonológico,
ou seja, a imagem acústica das estruturas elaboradas
pelo componente sintático, é dado por
uma série de segmentos -- denominados morfofonemas
por alguns linguistas -- com traços distintivos
que indicam como devem ser representadas, na estrutura
superficial, as orações geradas pela
sintaxe.
De maneira semelhante, o componente
semântico fornece o significado às orações
da estrutura superficial pela substituição
ou inserção léxica de palavras
e morfemas (unidades significativas) durante o processo
de transformação da estrutura profunda
na superficial.
Essa
consideração do componente semântico,
que respondia à diferenciação
entre sintaxe e semântica das primeiras formulações
da gramática gerativa, foi um dos pontos mais
conflituosos para teorias gerativas posteriores, que
consideravam inexistente essa diferenciação.
A teoria gerativa de Chomsky abriu
caminho para uma renovação radical da
linguística e para sua aplicação
a diversas disciplinas do saber humano, como a psicologia
ou a sociologia. Um dos principais campos de aplicação
da gramática gerativo-transformacional, sobretudo
no que diz respeito à dicotomia competência-desempenho,
foi à psicolinguística, termo surgido
na década de 1940 e definido como o estudo
de fatos da linguagem considerados sob seus aspectos
psicológicos, fundamentalmente no que se refere
à aquisição da linguagem, à
percepção da fala e aos distúrbios
patológicos, como por exemplo a afasia (perda
da fala).
O caráter e função
social da linguagem, suas repercussões no comportamento
do indivíduo e os condicionamentos sociais
(diferenças de classe, sexo, educação,
idade e ocupação) que determinam as
variações linguísticas dentro
de uma língua representam os objetivos principais
da sociolinguística.
Em oposição
às teorias sociolinguísticas, segundo
as quais a língua é ao mesmo tempo causa
e efeito das concepções sobre a realidade
e o mundo de uma comunidade de falantes (hipótese
do americano Benjamin Lee Whorf) ou resultado de estruturas
sociais determinadas (teoria do georgiano Nikolai
Y. Marr), as pesquisas do americano William Labov
tentaram explicar as variações linguísticas
de uma determinada língua por meio de uma redefinição
do conceito chomskiano de competência. Labov
entendia a competência como o conjunto de regras
de conteúdo sociológico -- diferentes
níveis e registros de língua -- que,
uma vez conhecidas pelo falante, podem ser empregadas
de acordo com o contexto social ou a situação.
Embora
a influência do trabalho de Chomsky tenha levado
praticamente todas as escolas linguísticas
a definirem suas posições com relação
às teorias do linguista americano, continuaram
a surgir enfoques radicalmente opostos. A gramática
estratificacional, desenvolvida pelo americano Sidney
Lamb, reelaborou elementos do estruturalismo de Bloomfield
ao definir a estrutura linguística como uma
teia de relações, mais do que como um
sistema de regras; as unidades linguísticas
seriam apenas pontos, ou posições, nessa
teia. O distribucionalismo e a escola de Praga inspiraram
também tendências como à análise
tagmêmica (que considera que a posição
dos elementos define a gramática de uma língua)
ou a chamada gramática de casos.
A linguística representa hoje um campo aberto
e em contínua renovação, cujos
estudos, a partir de perspectivas diferentes, contribuem
para a construção de modelos cada vez
mais amplos que considerem os elementos constituintes
do fenômeno linguístico.
Fonte: Brasil Escola
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