Graciliano Ramos
Vamos falar um pouco
sobre o espetacular Graciliano Ramos, aquele escritor
Modernista que falava tudo com poucas palavras...
e com elegância! Nasceu no dia 27 de outubro
de 1892, na cidade de Quebrângulo, sertão
de Alagoas, filho primogênito dos dezesseis
que teriam seus pais, Sebastião Ramos de
Oliveira e Maria Amélia Ferro
Ramos.
Viveu sua infância nas cidades de Viçosa,
Palmeira dos Índios (AL) e Buíque
(PE), sob o regime das secas e das surras que lhe
eram aplicadas por seu pai, o que o fez alimentar,
desde cedo, a idéia de que todas as relações
humanas são regidas pela violência.
Em seu livro autobiográfico "Infância",
assim se referia a seus pais: "Um homem sério,
de testa larga (...), dentes fortes, queixo rijo,
fala tremenda; uma senhora enfezada, agressiva,
ranzinza (...), olhos maus que em momentos de cólera
se inflamavam com um brilho de loucura".
Em 1904, retornam ao Estado de Alagoas, indo morar
em Viçosa. Lá, Graciliano cria um
jornalzinho dedicado às crianças,
o "Dilúculo". Posteriormente, redige
o jornal "Echo Viçosense", que
tinha entre seus redatores seu mentor intelectual,
Mário Venâncio. Porém, com o
suicídio de Mário Venâncio,
em fevereiro de 1906, o "Echo" deixa de
circular. Graciliano publica na revista carioca
"O Malho" sonetos sob o pseudônimo
de Feliciano de Olivença.
Em 1909, passa a colaborar com o "Jornal de
Alagoas", de Maceió, publicando o soneto
"Céptico" sob o pseudônimo
de Almeida Cunha. Até 1913, nesse jornal,
usa outros pseudônimos: S. de Almeida Cunha,
Soares de Almeida Cunha e Lambda, este usado em
trabalhos de prosa.
Em 1914, embarca para o Rio de Janeiro (RJ) no vapor
Itassuoê. Nesse ano, e parte do ano seguinte,
trabalha como revisor de provas tipográficas
nos jornais cariocas "Correio da Manhã",
"A Tarde" e "O Século".
Colaborando com o "Jornal de Alagoas"
e com o fluminense "Paraíba do Sul",
sob as iniciais R.O. (Ramos de Oliveira). Casa-se
com Maria Augusta Ramos que veio a falecer em 1920,
deixando quatro filhos menores.
O ano de 1933 marca o lançamento de seu primeiro
livro, "Caetés", que já
trazia consigo o pessimismo que marcou sua obra.
Esse romance, Graciliano vinha escrevendo desde
1925. No ano seguinte, publica "São
Bernardo".
Em março de 1936, acusado — sem que
a acusação fosse formalizada —
de ter conspirado no malsucedido levante comunista
de novembro de 1935, é demitido, preso em
Maceió e enviado a Recife, onde é
embarcado com destino ao Rio de Janeiro no navio
"Manaus", com outros 115 presos. O país
estava sob a ditadura de Vargas e do poderoso coronel
Filinto Müller. No período em que esteve
preso no Rio, até janeiro de 1937, passou
pelo Pavilhão dos Primários da Casa
de Detenção, pela Colônia Correcional
de Dois Rios (na Ilha Grande), voltou à Casa
de Detenção e, por fim, pela Sala
da Capela de Correção. Seu livro "Angústia"
é lançado no mês de agosto daquele
ano. Esse romance é agraciado, nesse mesmo
ano, com o prêmio "Lima Barreto",
concedido pela "Revista Acadêmica".
Em 1938, publica seu famoso romance "Vidas
secas". No ano seguinte é nomeado Inspetor
Federal do Ensino Secundário no Rio de Janeiro.
Em 1940, freqüenta assiduamente a sede da revista
"Diretrizes", junto de Álvaro Moreira,
Joel Silveira, José Lins do Rego e outros
"conhecidos comunistas e elementos de esquerda",
como consta de sua ficha na polícia política.
Traduz "Memórias de um negro",
do americano Booker T. Washington, publicado pela
Editora Nacional, S. Paulo.
Em 1942, recebe o prêmio "Felipe de Oliveira"
pelo conjunto de sua obra, por ocasião do
jantar comemorativo a seus 50 anos. O romance "Brandão
entre o mar e o amor", escrito em parceria
com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal
Machado e Rachel de Queiroz é publicado pela
Livraria Martins, S. Paulo.
Lança, em 1944, o livro de literatura infantil
"Histórias de Alexandre". Seu livro
"Angústia" é publicado no
Uruguai. Em 1945, filia-se ao Partido Comunista,
ano em que são lançados "Dois
dedos" e o livro de memórias "Infância".
Em 1946, publica "Histórias incompletas",
que reúne os contos de "Dois dedos",
o conto inédito "Luciana", três
capítulos de "Vidas secas" e quatro
capítulos de "Infância".
Já em1947, são publicados os contos
de "Insônia".
Traduz, em 1950, o famoso romance "A Peste",
de Albert Camus, cujo lançamento se dá
nesse mesmo ano pela José Olympio. Em abril
de 1952, viaja em companhia de sua segunda esposa,
Heloísa Medeiros Ramos, à Tcheco-Eslováquia
e Rússia, onde teve alguns de seus romances
traduzidos. Visita, também, a França
e Portugal. Ao retornar, em 16 de junho, já
enfermo, decide ir a Buenos Aires, Argentina, onde
se submete a tratamento de pulmão, em setembro
daquele ano. É operado, mas os médicos
não lhe dão muito tempo de vida.
Em janeiro do ano seguinte é internado na
Casa de Saúde e Maternidade S. Vitor, onde
vem a falecer, vitimado pelo câncer, no dia
20 de março, às 5:35 horas de uma
sexta-feira. É publicado o livro "Memórias
do cárcere", que Graciliano Ramos não
chegou a concluir, tendo ficado sem o capítulo
final.
Postumamente, são publicados os seguintes
livros: "Viagem", 1954, "Linhas tortas",
"Viventes das Alagoas" e "Alexandre
e outros heróis", em 1962, e "Cartas",
1980, uma reunião de sua correspondência.
Seus livros "Vidas secas" e "Memórias
do cárcere" são adaptados para
o cinema por Nelson Pereira dos Santos, em 1963
e 1983, respectivamente. O filme "Vidas secas"
obtém os prêmios "Catholique International
du Cinema" e "Ciudad de Valladolid"
(Espanha). Leon Hirszman dirige "São
Bernardo", em 1980.

"Deve-se escrever
da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas
fazem seu ofício. Elas começam com uma
primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa
ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente,
voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem
uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão
mais uma molhada, agora jogando a água com
a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa,
e dão mais uma torcida e mais outra, torcem
até não pingar do pano uma só
gota. Somente depois de feito tudo isso é que
elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal,
para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa.
A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar
como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."
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