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                                  João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto é mais um daqueles poetas que nos fazem crescer o orgulho de sermos brasileiros... É, vamos por assim dizer, um artista da palavra, justamente por traduzir a realidade de nosso povo através de sua inesquecível lírica poesia.
João Cabral de Melo Neto Nasceu a 9 de Janeiro de 1920, em Recife, Pernambuco. Filho de Luiz Antônio Cabral de Melo e de Carmem Carneiro-Leão Cabral de Melo, possuía, ainda, primos do quilate de Manuel Bandeira e Gilberto Freyre. Passou sua infância em engenhos de açúcar, tendo se mudado para Recife quando contava com 10 anos de idade.
Em 1940 viaja com a família para o Rio de Janeiro, onde conhece Murilo Mendes. Esse o apresenta a Carlos Drummond de Andrade e ao círculo de intelectuais que se reunia no consultório de Jorge de Lima. No ano seguinte, participa do Congresso de Poesia do Recife, ocasião em que apresenta suas Considerações sobre o poeta dormindo.
Em 1942, chega o momento de publicar seu primeiro livro: Pedra do Sono – o tema pedra, inclusive, será freqüentemente abordado por João Cabral em suas poesias, e se refere ao solo pedregoso do sofrido interior nordestino. Nesse mesmo ano, em novembro, viaja para o Rio de Janeiro, onde é convocado para integrar a Força Expedicionária Brasileira; porém, é dispensado por problemas de saúde. Fica no Rio de Janeiro, no entanto, por ser aprovado no concurso do DASP (Departamento de Administração do Serviço Público). Publica Os Três mal-amados na Revista do Brasil.
O engenheiro é publicado em 1945, em edição custeada por Augusto Frederico Schmidt. Faz concurso para a carreira diplomática, para a qual é nomeado em dezembro. Começa a trabalhar em 1946, no Departamento Cultural do Itamaraty, depois no Departamento Político e, posteriormente, na comissão de Organismos Internacionais. Em fevereiro, casa-se com Stella Maria Barbosa de Oliveira, no Rio de Janeiro e, em dezembro, nasce seu primeiro filho, Rodrigo.
A 1947, é transferido para o Consulado Geral em Barcelona, como vice-cônsul. Esse foi um período de importante engrandecimento cultural, já que João Cabral de Melo Neto tornou-se amigo pessoal de importantes artistas catalães, tais como os pintores Juan Miró e Antoni Tapis e o escritor e poeta visual Joan Brossa, um grupo de intelectuais que se reunia em sua casa, na Calle Montanier, para trocar idéias sobre arte e política.
Ainda em Barcelona, adquire uma pequena tipografia artesanal, com a finalidade de publicar livros de poetas brasileiros e espanhóis. Nessa prensa manual imprime Psicologia da composição. Nos dois anos seguintes ganha dois filhos: Inês e Luiz.
Removido para o Consulado Geral em Londres, em 1950, publica a excelente obra O cão sem plumas. Dois anos depois retorna ao Brasil para responder por inquérito no qual é acusado de subversão. Escreve o livro O rio, em 1953, com o qual recebe o Prêmio José de Anchieta do IV Centenário de São Paulo (em 1954). É colocado em disponibilidade pelo Itamaraty, sem rendimentos, enquanto responde ao inquérito, período em que trabalha como secretário de redação do Jornal A Vanguarda, dirigido por Joel Silveira. O processo, porém é arquivado e o poeta retorna à carreira diplomática. Em 1954, publica seus Poemas Reunidos.
Em 1955, recebe dois prêmios: o nascimento de sua filha Isabel e o recebimento do Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. Em 1956, Duas águas, volume que reúne seus livros anteriores e os inéditos: Morte e vida severina, Paisagens com figuras e Uma faca só lâmina são publicados.
Em 1961, publica Terceira feira, livro que reúne Quaderna, Dois parlamentos, ainda inéditos no Brasil, e um novo livro: Serial. Em 1966, O Teatro da Universidade Católica de São Paulo produz o auto Morte e Vida Severina, com música de Chico Buarque de Holanda. Nesse mesmo ano, publica o inigualável A educação pela pedra, que recebe os prêmios Jabuti, da União de Escritores de São Paulo.
Em 1968, é publicada a primeira edição de Poesias completas. É eleito, em 15 de agosto de 1968, para a Academia Brasileira de Letras na vaga de Assis Chateaubriand.
Em 1981, publica a antologia Poesia crítica; nos anos de 1982, 1987 e 1990 publica as obras Auto do Frade, Crime na Calle Relator e Sevilha andando, respectivamente. Cabe ressaltar que em 1986 falece sua esposa Stella Maria, vindo o poeta a casar-se com a poeta Marly de Oliveira.
João Cabral de Melo Neto vem a falecer em 09 de Outubro de 1999, após longo período de intenso sofrimento: possuía uma doença degenerativa que o fez perder a visão aos poucos.
Com certeza, João Cabral de Melo Neto foi o poeta que mais perto chegou ao Prêmio Nobel de Literatura, devido à grandeza de toda a sua profícua produção literária. Mesmo tendo uma ampla visão de mundo, nunca se esqueceu do agreste nordestino, região em que foi criado, e sempre procurou elevar ainda mais o nome do Brasil no exterior através de suas obras. Por tudo isso, merece ser considerado um dos maiores poetas de nossa história, sem sombra de dúvida.

 

Morte e Vida Severina

"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."