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                       Florbela Espanca           



O sofrimento, a solidão e o desencanto, aliados à imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito, constituem a temática veiculada pela veemência passional da linguagem de Florbela Espanca.

Com a sua personalidade de uma riqueza interior excepcional, escreveu os seus versos com uma perturbação ardente, revelando um erotismo feminino transcendido, pondo a nu a intimidade da mulher, dando novos rumos à consciência literária nascida de vivências femininas.

A vida de Florbela Espanca sempre foi marcada pelo inesperado, pelo dramático, pelo incomum, mesmo antes do seu nascimento. Seu pai, João Maria Espanca era casado com Maria Toscano que não podia lhe dar filhos. João Maria, então, se valeu de uma antiga regra medieval, que diz que quando de um casamento não houver filhos, o marido tem o direito de ter os mesmos com outra mulher de sua escolha. Assim, no dia 8 de dezembro de 1894 nasce Flor Bela Lobo, filha de Antônia da Conceição Lobo. João Maria ainda teve mais um filho com Antônia, Apeles. Mais tarde, Antônia abandona João Maria e os filhos passam a conviver com o pai e sua esposa, que os adotam.

É em Vila Viçosa que passa a sua infância e em Outubro de 1899, Florbela começa a freqüentar o ensino pré-primário, passando a assinar Flor d'Alma da Conceição Espanca (algumas vezes, opta por Flor, e outras, por Bela).

Em Novembro de 1903, aos sete anos de idade, Florbela escreve a sua primeira poesia A Vida e a Morte, mostrando uma admirável precocidade e anunciando, desde já, a opção por temas que, mais tarde, virá a abordar de forma mais complexa. Ainda no mesmo ano, Florbela começa a escrever uma poesia sem título, o seu primeiro soneto.

Conclui a instrução primária em Junho de 1906 e no ano seguinte aponta os primeiros sinais da sua doença, a neurastenia; além disso, escreve o seu primeiro conto, Mamã!
Em 1908, Antônia da Conceição Lobo, a mãe de Florbela, morre vítima de neurose,
Florbela então ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, fazendo com que a família se desloque para essa cidade. Foi uma das primeiras mulheres a ingressar no curso secundário, fato que não era visto com bons olhos pela sociedade e pelos professores do Liceu. Colaborou no Notícias de Évora e foi, com Irene Lisboa, precursora do movimento de emancipação da mulher.

No ano seguinte casa-se no dia de seus 19 anos com Alberto Moutinho, colega de estudos.

O casal mora em Redondo até 1915, quando regressa a Évora devido a dificuldades financeiras. Eles passam a morar na casa de João Maria Espanca. Sob o olhar complacente de Florbela ele convive abertamente com uma empregada, divorciando-se da esposa em 1921 para casar-se com Henriqueta de Almeida, a então empregada.

Voltando a Redondo em 1916, Florbela reúne uma seleção de sua produção poética de 1915 e inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e três contos.

Em 1916, a revista Modas e Bordados publica o soneto Crisântemos, cheio de alterações ao original. Alguns meses depois, torna-se colaboradora do jornal Notícias de Évora, e desiste de um projeto intitulado Alma de Portugal, um livro de acentuada carga patriótica, e que conteria as partes Na Paz e Na Guerra.

Regressando a Évora em 1917 a poetisa completa o 11º ano do Curso Complementar de Letras, e logo após ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Após um aborto involuntário, se muda para Quelfes, onde apresenta os primeiros sinais sérios de neurose.

Florbela decide ir para Lisboa prosseguir o curso, separando-se do marido, e passando a conhecer a rejeição da sociedade. Em Junho de 1919, depois de alguma correspondência trocada com Raul Proença, lança o Livro de Mágoas; posteriormente, completa o terceiro ano de Direito.

No ano seguinte Florbela passa a viver com Antônio Guimarães, com quem se casa em 1921 e passa a trabalhar em um novo projeto que a princípio se chamaria Livro do Nosso Amor ou Claustro de Quimeras. Por fim, torna-se o Livro de Soror Saudade, publicado em janeiro de 1923.

Após mais um aborto separa-se pela segunda vez, o que faz com que sua família deixe de falar com ela. Essa situação a abalou muito.

Em 1925 Florbela casa-se com Mário Lage no civil e no religioso e passa a morar com ele, inicialmente em Esmoriz e depois na casa dos pais de Lage em Matosinhos, no Porto.

Passa a colaborar no D. Nuno em Vila Viçosa, no ano de 1927, com os poemas que comporão o Charneca em Flor.

No mesmo ano Apeles, seu irmão, falece em um trágico acidente, fato esse que abalou demais a poetisa. Ela se empenha na produção de As Máscaras do Destino, dedicado ao irmão.

A partir de então Florbela nunca mais será a mesma, sua doença se agrava bastante após o ocorrido.

É neste período que, possivelmente, se apaixona pelo pianista Luís Maria Cabral, a quem dedica Chopin e Tarde de Música; talvez por isso, tenta suicidar-se. Começa a escrever seu Diário de Último Ano em 1930 e passa a colaborar nas revistas Portugal Feminino e Civilização. Trava também conhecimento com Guido Batelli, que se oferece para publicar Charneca em Flor. Florbela então revê em Matosinhos as provas do livro, depois de tentar o suicídio, período em que a neurose se agrava e é diagnosticado um edema pulmonar.

Em dois de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas.”

Às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário – Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal.

Só depois da sua morte é que a poeta viria a ser conhecida do grande público, tendo contribuído para isso, inicialmente, a publicação de Charneca em Flor (1930) pelo professor italiano Guido Batelli.

Na Enciclopédia Larousse, esta poetisa é definida como “parnasiana, de intenso acento erótico feminino, sem precedentes na Literatura Portuguesa. A sua obra lírica, iniciada em 1919, com o Livro das Mágoas, antecipa em seu meio a emancipação literária da mulher”.

Ser poeta


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!






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