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                               Ferreira Gullar           



 

Ferreira Gullar é o primeiro poeta homenageado em vida por este site.
O nome Ferreira Gullar foi criado pelo próprio a partir de uma combinação do sobrenome do seu pai, Newton Ferreira, com o da mãe, Alzira Ribeiro Goulart, modificado. Seu nome de batismo era comum de muitos maranhenses: José Ribamar, a troca do nome ocorreu devido a um poema de péssima qualidade que saíra publicado num jornal local, que havia sido escrito por um homônimo, nesta época ele tinha dezenove anos e com recursos próprios e o apoio do Centro Cultural Gonçalves Dias, publicou seu primeiro livro de poesias: "Um pouco acima do chão".
Gullar nasceu no dia 10 de setembro de 1930, em São Luís, Maranhão. Aos quinze anos achou ter descoberto sua vocação, porém não recebeu nota máxima numa redação onde sua professora encontrou dois erros de português, a partir de então ele decidiu se dedicar ao português para se tornar escritor e durante dois anos, só leu gramáticas.
No ano de 1951, mudou-se para o Rio de Janeiro, tornou-se amigo do crítico Mário Pedrosa e dos jovens pintores da época. Começou a pintar e escrever sobre arte. Trabalhava como revisor de textos na revista "O Cruzeiro".
Em 1954, casou-se com a atriz Thereza Aragão, com quem teve três filhos. Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari manifestam-lhe, por carta, o desejo de conhecê-lo, após a leitura de "A luta corporal". No fim desse ano, passou a trabalhar como revisor na revista "Manchete".
Foi nomeado, em 1961, com a posse de Jânio Quadros, diretor da Fundação Cultural de Brasília. Elaborou o projeto do Museu de Arte Popular e iniciou sua construção. Reviu sua postura poética, começou a ver com outros olhos o experimentalismo que até então marcava sua obra. Começou a construir o Museu de Arte Popular e abandonou a vanguarda. Em outubro do mesmo ano saiu da Fundação.
No ano seguinte, ao ingressar no Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), Gullar assumiu um trabalho mais engajado politicamente, publicou, iclusive, cordéis. Trabalhava como redator na sucursal carioca de "O Estado de São Paulo", jornal ao qual estaria ligado por quase 30 anos. Em 1963 foi eleito presidente do CPC.
Filiou-se no dia do golpe militar, 1º de abril de 1964, ao Partido Comunista, e a primeira edição de seu ensaio "Cultura posta em questão", publicada no ano anterior, foi queimada por militares dentro da sede da UNE. Fundou o Grupo Opinião ao lado de Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes, Armando Costa, Thereza Aragão, João das Neves, Denoy de Oliveira e Pichin Pla.
Em 1966, em parceria com Oduvaldo Vianna Filho, escreveu a peça "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" encenada no Rio pelo Grupo Opinião, que ganhou o Molière, o Saci e outros prêmios. O Grupo encenou, em 1967, a peça "A saída? Onde fica a saída?", texto de Gullar, em parceria com Antônio Carlos Fontoura e Armando Costa.
Sua peça "Dr. Getúlio, sua vida e sua glória", escrita com Dias Gomes, foi montada pelo Opinião no Rio, em 1968. Em dezembro deste mesmo ano foi assinado o Ato Institucional nº 5 e Gullar foi preso em companhia de Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Após um longo período vivendo na clandestinidade, em 1971, Gullar partiu para o exílio, primeiro em Moscou e depois em Santiago, Lima e Buenos Aires. Enquanto morou fora do país, colaborou para "O Pasquim", "Opinião" e outros jornais usando o pseudônimo de Frederico Marques.
Em 1974, por unanimidade, foi absolvido no Supremo Tribunal Federal, da acusação. Entre maio e outubro do ano seguinte, Gullar escreveu o “Poema Sujo”, em novembro, leu o novo trabalho na casa de Augusto Boal, em Buenos Aires, para um grupo de amigos. Vinicius de Moraes, que organizou a sessão de leitura, pediu uma cópia do poema para trazer ao Rio. Por precaução, o poema foi gravado em fita cassete. No Rio, Vinicius promoveu diversas sessões para que intelectuais e jornalistas ouvissem o "Poema sujo". Ênnio Silveira, editor, pediu uma cópia do texto para publicá-lo em livro. Enquanto isso não aconteceu, diversas cópias da gravação circulavam pela cidade em sessões fechadas de audição.
No dia 10 de março de 1977, Gullar voltou ao Brasil e preso no dia seguinte pelo Departamento de Polícia Política e Social (ex-Dops), onde foi interrogado durante 72 horas e ouviu a ameaças de que seu filho Paulo (então em tratamento psiquiátrico) poderia ser seqüestrado. Graças ao esforço de amigos, conseguiu ser libertado e, aos poucos, retomou o trabalho no país.
Seu disco "Antologia poética de Ferreira Gullar" foi gravado no ano de 1979, pela Som Livre. Mesmo ano em que estreou "Um rubi no umbigo", primeira peça escrita individualmente por ele, e começou a trabalhar no núcleo de teledramaturgia da Rede Globo. Ganhou o prêmio Personalidade Literária do Ano, da Câmara Brasileira do Livro.
O livro "Na vertigem do dia" e "Toda poesia", reunião de sua obra poética, foram publicados em 1980, em comemoração aos seus 50 anos. Outro marco, foi a estréia da versão teatral do "Poema sujo", com a interpretação de Esther Góes e Rubens Corrêa, sob a direção de Hugo Xavier, na Sala Sidney Miller, no Rio de Janeiro.
"Ferreira Gullar 70 anos" foi o nome dado à exposição aberta em setembro de 2000, no Museu de Arte Moderna do Rio, para marcar o aniversário do poeta. Ocorreu o lançamento da nona edição de "Toda poesia", reunião atualizada de todos os poemas de Gullar. O poeta recebeu o prêmio Multicultural 2000, do jornal "O Estado de São Paulo". No final daquele ano, publicou "Um gato chamado Gatinho", 17 poemas sobre seu felino escritos para crianças.
No ano de 2002, nove professores titulares de universidades de Brasil, Portugal e Estados Unidos indicaram Ferreira Gullar ao Prêmio Nobel de Literatura. Foram relançados num só livro, os ensaios dos anos 60 “Cultura posta em questão” e “Vanguarda e subdesenvolvimento”. Em dezembro o poeta recebeu o Prêmio Príncipe Claus, da Holanda, dado a artistas, escritores e instituições culturais de fora da Europa que tenham contribuído para mudar a sociedade, a arte ou a visão cultural de seu país.
Mais dois importantes prêmios foram dados a Gullar no ano de 2005: o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Ciência e Cultura, na categoria Literatura, e o Prêmio Machado de Assis, a maior honraria da Academia Brasileira de Letras, ambos pelo conjunto de sua obra.


Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


 

 


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