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Euclides da Cunha


Euclides Rodrigues da Cunha passou por alguns percalços, já na infância. Aos três anos perdeu a mãe, Eudóxia Moreira da Cunha. Seu pai, Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha, levou o menino e sua única irmã, para morar em Teresópolis (RJ), com a tia Rosinda de Gouveia, que morreu dois anos depois. As crianças foram levadas, mais uma vez, para a companhia de outra tia, Laura Moreira Garcês, numa fazenda, em Conceição da Ponte (RJ).

O menino começou os estudos com um professor particular, depois foi para o internato do Colégio Sólon, naquela cidade. Em seguida, foi para o Rio de Janeiro, e frequentou vários colégios: Anglo-Americano, Meneses Vieira, Vitório Costa e Aquino. Em 1886 foi estudar engenharia na Escola Militar da Praia Vermelha, onde colaborou em prosa e verso, na revista "A Família Acadêmica".

Concluiu o curso de Engenharia Militar, na Escola Superior de Guerra, em 1892, depois de muitas atribulações, devidas à sua atitude republicana e positivista, aprendida na Escola Militar. Trabalhou na construção da Estrada de Ferro Central do Brasil. Seis anos depois, já reformado, foi trabalhar em São Carlos do Pinhal (SP), como engenheiro-assistente, na Superintendência de Obras, e colaborava com artigos para o jornal "O Estado de São Paulo". A convite de Júlio Mesquita, embarcou para Canudos (BA), como correspondente do jornal, onde ficou de agosto a outubro de 1897, e presenciou o massacre a Antônio Conselheiro e seus seguidores.

Com tantos fatos bárbaros testemunhados e materiais recolhidos, Euclides da Cunha foi, em princípio, para a fazenda do pai, em Descalvado, e depois, para São José do Rio Pardo (SP), e nas horas vagas, da reconstrução de uma ponte, missão que lhe foi destinada na cidade, escreveu "Os Sertões", publicado em 1902, com grande repercussão nacional, levando-o a Academia Brasileira de Letras, em 1903.

"Os Sertões" é um sério depoimento dos fatos ocorridos no interior da Bahia. Também revela um escritor talentoso e preocupado em, não apenas reportar o que viu, mas também analisar a realidade bruta daquela comunidade, numa terra árida e sem recursos. Com uma linguagem que ultrapassa os fatos, buscou mostrar, de forma determinista, as causas do fanatismo e do abandono daquele povo, tratado como inimigo, quando na verdade, era vítima.

Continuou seu trabalho de investigação dos problemas brasileiros, que resultou no livro "Contrastes e Confrontos" (1907). O engenheiro viajou, em 1905, para o Amazonas, onde ficou um ano na chefia da Comissão de Reconhecimento do Alto Purus, cujo relatório sobre o assunto foi publicado em 1906. Voltou para o Rio de Janeiro e fez concurso no Colégio Pedro 2o, para a cadeira de Lógica. Assumiu as aulas, mas ficou pouco tempo, pois foi assassinado, aos 43 anos, num duelo com o amante de sua esposa.

Outras obras suas foram publicadas postumamente, como "À Margem da História", que ele chegou a rever as provas tipográficas, mas não viu publicada; além de cartas aos amigos e um diário da viagem a Canudos.

 

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. (...)

É o homem permanentemente fatigado.

Trecho de "Os sertões"

 

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