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Clarice Lispector
Falar de Clarice Lispector é falar de uma escritora
muito especial, ímpar na literatura brasileira...
Em sua maneira especial de escrever – e na temática
de suas obras – Clarice realmente impressiona
a todos aqueles que apreciam uma leitura agradável
e cheia de significado.
A história da maior escritora da língua
portuguesa começa na cidade de Tchelchenik, na
Ucrânia, em 1920 – local e data de seu nascimento.
Chega ao Brasil com os pais e as duas irmãs,
com apenas dois meses de idade, instalando-se em Recife.
Sua infância é coberta por graves dificuldades
financeiras e, além disso, sua mãe vem
a falecer quando Clarice Lispector estava com 9 anos
de idade. A família, então, se transfere
para o Rio de Janeiro, onde Clarice começa a
trabalhar como professora particular de português.
Aos 23 anos de idade (1943), Clarice se casa com Maury
Gurgel Valente, futuro diplomata. Fruto dessa união,
nascem dois filhos: Pedro e Paulo. Porém, a dificuldade
é muito grande em acompanhar o diplomata e Clarice
começa a se ver dividida entre a vida de esposa
de diplomata e a deixar para trás família
e amigos. Certa vez, chega a dizer : “Eu conhecia
melhor um árabe com véu no rosto quando
estava no Rio. Todo esse mês de viagem nada tenho
feito, nem lido, nem nada. Sou inteiramente Clarice
Gurgel Valente”, reafirmando que sua vida se resumia
à de apenas acompanhar o marido. Esse é
o principal motivo de sua separação, em
1959 – Clarice decide, então morar no Rio
de Janeiro, onde enfrenta um período de solidão
e restrições financeiras.
Falemos, agora, sobre sua profícua produção
textual... Clarice Lispector sempre procurou, ao longo
da vida, produzir bastante, sobre temas dos mais diversos...
a certa altura de sua vida, passou a escrever para sobreviver
– assim que se separa do marido ela não
consegue se manter apenas com os recursos arrecadados
com direitos autorais e retorna ao jornalismo. Escreve
contos para a revista Senhor, torna-se colunista do
Correio da Manhã, em 59, e, no ano seguinte,
começa a assinar a coluna Só para Mulheres
no Diário da Noite. Essa atividade jornalística
perdura até 1975, tendo, inclusive, nesse ínterim,
intensivado sua atividade como tradutora (o Retrato
de Dorian Gray, de Oscar Wilde, adaptado para o público
juvenil, é um exemplo).
O primeiro romance de Clarice Lispector é Perto
do Coração Selvagem, que desnorteia a
crítica literária, com alguns afirmando
que a autora era influenciada por célebres escritores,
como Wirginia Wolf e James Joyce (e Clarice nem os havia
sequer lido...); a referida obra já manifestava
a maneira única de escrever de Clarice, abordando
os aspectos da solidão e da incomunicabilidade
humana, numa prosa fustigante. Em 1945 é publicado
o livro o Lustre e, em 1949, a Cidade Sitiada –
puro retrato da solidão vivida em Berna, na Suíça.
Em 1951, publica Maçã no Escuro (prêmio
Carmen Dolores Barbosa, como melhor obra do ano) e o
livro de contos Laços de Família (que
recebeu o prêmio Jabuti, pela Câmara Brasileira).
Em 1964, é a vez de publicar o romance de grande
sucesso A Paixão Segundo G.H. e o também
romance Legião Estrangeira.
O embrionário de um de seus grandes romances
começou a ser esboçado em 1970, sob o
título provisório de Atrás do pensamento:
monólogo com a vida. Mais adiante, é reintitulado:
Objeto gritante. E, por fim, foi lançado com
o título definitivo de Água viva (publicado
somente em 1973). Nessa obra, Clarice se utiliza muito
do artifício do Stream of Conciousness (fluxo
de consciência), o que dá uma característica
especial à obra: passado, presente e futuro se
misturam com o pensamento do narrador, deixando o leitor
em uma constante busca pelo “tempo real”
da trama.
Em 1977, publica A Hora da Estrela e, a 9 de Dezembro
do mesmo ano, vem a falecer, vítima de uma súbita
obstrução intestinal. Alguns livros póstumos
são publicados, tais como o romance Um sopro
de vida — Pulsações; o de crônicas
Para não esquecer, e o infantil, Quase de verdade;
Para não esquecer é composto de crônicas
que haviam sido publicadas na segunda parte do livro
A legião estrangeira, em 1964, que compunham
a seção "Fundo de Gaveta" do
citado livro. A hora da estrela é agraciada com
o prêmio Jabuti de "Melhor Romance".
A paixão sendo G. H. é publicada na França,
com tradução de Claude Farny.
Abaixo, segue um trecho da entrevista de José
Castello – biógrafo e escritor, nessa época
trabalhando no jornal "O Globo" – a
Clarice Lispector, em 1976:
J.C.: - Por que você escreve?
C.L.: - Vou lhe responder com outra pergunta: porque
você bebe água?
J.C.: - Por que bebo água? Porque tenho sede!
C.L.: - Quer dizer que você bebe água para
não morrer. Pois eu também: escrevo para
me manter viva."
Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase
novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque, que insiste em pregar
peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que, na realidade,
está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente , que nunca desiste de acreditar
nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha
que Tim Maia estava certo quando escreveu...não
quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso
que eu espero...
Um idealista...um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece e mantém sempre viva
a esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas
e paixões.
Sai do sério e, às vezes, revê suas
posições arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos
tão largos que quase dá pra engolir as
orelhas, mas que também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado, ou mesmo
utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado, indicado apenas para
quem quer viver intensamente, contra indicado para os
que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem
armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que, quando parar de bater,
ouvirá o seu usuário dizer para São
Pedro, na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir.
Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este
louco coração de criança que insiste
em não endurecer e se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se
por outro, que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser
que o abriga.
Um coração que não seja tão
inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais, por não
querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça,
sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio
ultrapassado.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e a ter a petulância
de se aventurar como poeta.”
(Clarice Lispector)
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