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                     Castro Alves - O poeta dos escravos



Um dos grandes nomes da Literatura Brasileira, Antônio Frederico de Castro Alves foi ferrenho defensor da abolição da escravatura que reinava na época, tendo sido nosso último poeta do romantismo. Muitos o consideram, até mesmo, um elemento de transição entre o Romantismo e o Realismo, devido às fortes características dos dois movimentos em suas obras.

Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847 na cidade de Curralinho, na Bahia, local onde permaneceu até os 15 anos de idade, transferindo-se, então, para o Recife com o intuito de estudar Direito. Lá, além de iniciar o seu romance com a atriz portuguesa Eugênia Câmara, começa a sentir os primeiros sintomas do grande mal da época: a temida tuberculose.

Em 1864, ingressa na faculdade de Direito, onde, na verdade, sua veia poética fala mais alto e ele começa a compor poesias diversas. É nesse período que conhece Tobias Barreto, pessoa a quem tinha grande apreço e que admirava pelas convicções liberais que possuía.

Em 1865, na abertura do ano letivo de sua faculdade, declama o poema “O Século”  e começa a elaborar os poemas de “Os Escravos". Em 1867, abandona definitivamente o Recife e vai para Salvador, onde é encenada a peça "Gonzaga" ou "Revolução de Minas" de sua autoria. No ano seguinte, com Rui Barbosa e outros colegas, funda uma sociedade abolicionista. Nessa época, declama o poema “Pedro Ivo”, no Teatro Santa Isabel, de grande sucesso e vem a conhecer a atriz Eugênia Câmara – e se entusiasma pela vida teatral.

Em 1868, vai para São Paulo acompanhado de Eugênia Câmara e do amigo Rui Barbosa, com quem fundou uma sociedade abolicionista, e matricula-se no terceiro ano da Faculdade de Direito do largo São Francisco, onde declama pela primeira vez o poema "Navio Negreiro". Ainda nesse ano é abandonado por Eugênia e, durante uma caçada, fere acidentalmente o pé esquerdo com uma arma de fogo. Tal acidente provoca a amputação de seu pé tendo como conseqüência o agravamento de sua tuberculose. O poeta decide ir para a Bahia, onde falece em 6 de julho de 1871.

A obra de Castro Alves, o poeta dos escravos, foi fortemente influenciada por Victor Hugo a quem chamava "mestre do mundo, sol da eternidade". Poeta social, lírico, patriótico, foi um dos primeiros abolicionistas e, ao poetar sobre a escravidão, inflamava-se eloqüentemente, chegando a elevar-se pelo arrojo das metáforas, pelo atrevimento das apóstrofes, pelas idéias do infinito, amplidão, pelo vôo da imaginação, o que motivou o título dado por Capistrano de Abreu de "condoreiro", que comparou sua poesia ao vôo de um condor.

O poeta cultivou o egocentrismo, porém, diferentemente dos românticos tradicionais, interessou-se também pelo mundo que o cercava e defendeu a república, a liberdade e a igualdade de classes sociais. Castro Alves, segundo Jorge Amado, teve muitos amores, porém, o maior de todos eles foi a Liberdade.

Se por um lado a temática social adotada por Castro Alves já o aproxima do Realismo, por outro a sua linguagem, repleta de figuras de estilo (metáforas, comparações, personificações, invocações, hipérboles, típicas do condoreirismo), o enquadra perfeitamente no movimento Romântico. Além disso, o poeta não deixou de lado a poesia de caráter lírico-amoroso, cultivada por todos os escritores de sua época. Mas, diferentemente de seus contemporâneos, raramente idealiza a figura feminina; ele nos apresenta uma mulher mais concreta, mais próxima de um ser de "carne e osso”.


Navio Negreiro

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...

Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais!...
Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!


(Castro Alves)

 

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