A nossa língua
tem, realmente, muitos valores individuais. O
que dizer de uma pessoa que já estudou
mais de 110 idiomas? Ela existe! O maior poliglota
vivo do Brasil chama-se Carlos do Amaral Freire,
conta com 74 anos e mora num sítio discreto
na entrada do Morro das Pedras, em Florianópolis.
Seus vizinhos não imaginam o potencial
deste discretíssimo brasileiro.
É provável que, hoje em dia, ele
já tenha superado o recorde mundial atribuído
ao cardeal italiano Giuseppe Mezzofanti (1774-1849),
que comprovadamente conseguia traduzir 114 línguas.
Como Freire estuda duas línguas por ano
"de cabo a rabo" (como diz o povo),
ele já deve ter terminado de estudar seu
115º idioma em 2007. Sua discrição
às vezes, não nos permite saber
mais sobre sua vida. Porém, quem não
o esqueceu foi a universidade britânica
de Cambridge quando fez a lista dos dois mil maiores
intelectuais do século 20.
A honraria lhe foi entregue em 2001. A prestigiada
universidade enviou ao professor, via correio,
o diploma "2000 outstanding Scholars of the
21st Century in honor and outstanding in the Field
of Linguistis and Education" (Dois mil notáveis
intelectuais do século 21 em honra e notabilidade
no campo da Lingüística e Educação).
Sobre essa honraria, ninguém sabe, nem
foi manchete do jornal Nacional.
Freire é muito humilde. Nunca conta vantagem
de sua inteligência prodigiosa, nem para
corrigir a versão da imprensa de que um
comerciante nascido na Libéria, país
africano, mas de origem libanesa, Ziad Youssef
Fazah, 50, é considerado o maior poliglota
vivo no mundo.
Fazah, que é casado com uma brasileira
e mora no Rio de Janeiro, fala 58 línguas.
"Eu já emprestei muitos livros de
línguas para ele. Quando ele viu minha
biblioteca pela primeira vez, ficou fascinado.
Ziad tem uma memória fantástica!",
conta Freire.
Mas vamos contar mais um pouco sobre como tudo
isso começou.
Carlos Amaral Freire nasceu em 27 de outubro de
1931, em Dom Pedrito, cidade gaúcha na
fronteira com o Uruguai. Freire despertou-se para
as línguas muito cedo. Tinha um tio espanhol
muito culto, que possuía uma vasta biblioteca,
na qual havia muita literatura hispânica
e italiana. "Eu me interessei em aprender
italiano", conta Carlos, que cedo aprendeu
espanhol por viver numa região de fronteira
e escutar o "portuñol", um idioma
híbrido de português e espanhol misturado
com pitadas de gramática própria.
Em 1961, aos 30 anos de idade, formou-se na faculdade
de Letras Neolatinas da Pontifícia Universidade
Católica (PUC), do Rio Grande do Sul. Naquela
mesma universidade, formou-se em 1966 em Letras
Anglo-Germânicas.
Seu "Curriculum Vitae", tal como suas
mais de 110 línguas, é vasto. Resumindo-o,
Carlos trabalhou como professor primário,
secundário e universitário. Começou
como professor de Português, Espanhol, Inglês
e Francês. Na medida que foi aprendendo
idiomas, Freire recebia convites para lecionar
em Universidades e trabalhar como intérprete.
Trabalhou no governo do Estado do Rio Grande do
Sul e Petrobrás, entre outros lugares.
Tornou-se tradutor juramentado de 12 idiomas e
conheceu o mundo devido às infinidades
de bolsas de estudo que ganhou para fazer cursos
em Universidades de vários países
do mundo.
Na Universidade do Texas (EUA), estudou Lingüística;
na Espanha fez Pós-graduação
em Filologia românica. Aproveitou sua estadia
na Espanha e fez um curso diferente do que estava
habituado a fazer: "Relações
internacionais" na famosa Escola Diplomática
de Madri.
Na Itália, ganhou uma bolsa para aprofundar-se
no estudo da língua Egípcia. Adorador
do escritor russo Dostoievski, Freire estudou
com afinco o idioma russo para lê-lo no
original.
Por saber Russo e Chinês, Carlos acabou
demitido da refinaria Alberto Pasqualini, situada
em Canoas, perto de Porto Alegre (RS), onde ele
trabalhava como intérprete.
Motivo: foi considerado "subversivo".
Eram os anos 1970 e a ditadura militar no Brasil
estava no auge. Vivia-se a rivalidade da "Guerra
Fria" e o Russo e o Chinês eram consideradas
as línguas dos "comunistas".
Carlos saiu do Brasil e rodou o mundo fazendo
cursos e participando de Congressos lingüísticos.
Entre 1980 e 1990, morou na Bolívia. Era
o adido cultural da Embaixada do Brasil naquele
país. Foi convidado a ser "Leitor".
Esta palavra, muito usada no meio acadêmico,
designa um professor estrangeiro que se transfere
para uma universidade do exterior com o objetivo
de lecionar curso de sua língua materna.
Freire foi ensinar Português na Bolívia
e lá aproveitou para pesquisar duas exóticas
línguas indígenas daquele país:
o Quetchua e o Aimara.
Carlos deixou sua marca na biblioteca de lingüística
mundial. Descobriu a semelhança fonológica
das duas citadas línguas indígenas
bolivianas com o georgiano, idioma falado na Geórgia,
país que integrava a antiga União
Soviética (1917-1991).
"A gramática do Quetchua e Aimara
é próxima a da língua turca,
do grupo ural-altaico", explica Freire.
Seu estudo "Quetchua e Aimara: Dos estúdios
contrastivos" (1984) foi publicado pela Universidade
de Sucre (Bolívia) em parceria com a embaixada
do Brasil naquele país.
Isso quer dizer que os índios da Bolívia
são certamente descendentes do mesmo povo
que séculos mais tarde deu origem aos turcos
e aos georgianos, isto é, na antiguidade
houve alguma migração de gente da
Ásia que chegou à América.
E um rastro disso Carlos descobriu comparando
as línguas dos índios bolivianos
com o georgiano e o turco.
Carlos publicou poucos livros ao longo de sua
vida: apenas seis. O último dos quais uma
coletânea de poemas traduzidos de 60 línguas,
chamado "Babel de Poemas". "Não
é fácil conseguir publicar algo
no Brasil", resume Freire.
Entre suas monografias, escritas em Português
ou em Espanhol, está "La intraducibilidad
de la poesia china" (1991), um estudo inédito
sobre o tema.
Em 1998, Carlos Freire foi convidado a implantar
o curso de Português na universidade de
Belgrado, capital da Iugoslávia. Lá,
saiu da rotina de leituras, estudos e trabalho
mental silencioso da escrivaninha. Logo estouraria
a guerra do Kosovo ("Kosôvo",
explica Freire, não "Kôsovo",
como pronuncia o brasileiro). "Os alunos
que estavam fazendo o curso de Português
não foram mais à aula por causa
dos bombardeios", conta Freire.
Da sacada de casa, via as luzes dos bombardeios
e da artilharia que, em vão, tentava acertar
os aviões. "Os americanos bombardearam
um prédio de 40 andares. O míssil
atingiu o 25º andar, onde ficava a rádio
da filha de Milosevitch. A bomba só destruiu
aquela sala. Nunca vi tamanha precisão",
conta Carlos.
Durante o período em que permaneceu na
Iugoslávia, o professor Freire estudou
o Macedônio. "O Macedônio é
uma língua eslava, parente do russo e do
polonês", explica Carlos.
Freire foi entrevistado por um jornalista da Macedônia,
província da Iugoslávia. O repórter
perguntou se a entrevista poderia ser em macedônio.
O professor respondeu que ainda não porque
havia começado a estudar essa língua
havia poucos dias.
Um mês depois, o mesmo jornalista solicitou
uma nova entrevista com o professor Freire.
- Agora o senhor pode me entrevistar em macedônio,
disse Carlos em perfeito macedônio ao repórter,
que ficou espantado com a rapidez com que Freire
aprendeu aquela língua.
Entre as 110 línguas que Carlos Freire
aprendeu, encontra-se o "Esperanto",
idioma inventado por um médico de origem
judaico-polonesa chamado Lazar Ludwig Zamenhof
(1859-1917). "É uma língua
brilhante. Só não se tornou hoje
a língua internacional por causa de interesses
políticos dos Estados Unidos e outros países
do 1º mundo", explica.
Quando lecionou certa vez para uma turma de 4ª
série primária, Freire experimentou
ensinar Esperanto para ver no que dava. "A
experiência foi frustrante porque as crianças
não sabiam o que é substantivo,
o que é adjetivo, advérbio",
comenta.
Entre as línguas que mais chamaram sua
atenção, Freire destaca o chinês.
" É muito simples, no sentido lingüístico
do termo. É uma língua simples em
contraste com as indo-européias, por exemplo,
que são línguas complexas. O chinês
é extremamente conciso, não tem
gêneros nem números gramaticais e
o verbo não se conjuga. Simples não
é sinônimo de fácil e, no
caso do chinês, é antônimo.
As estruturas simples tornam-se difíceis,
confusas pois não sabemos como compará-las
com as nossas."
Atualmente, o professor Freire está estudando
os idiomas Lapão e Tamasheq. O Lapão
é a língua da Lapônia, região
ao norte da Finlândia. " É a
última língua européia que
ainda não estudei. Com esta, terei completado
todas as línguas da Europa", observa.
Já o tamasheq é o idioma do povo
berbere, que vive no deserto do Saara, norte da
África.
É ou não é um estímulo
para todos nós?