De quando em vez se
acende um debate - que aliás está bastante
obsoleto - sobre a suposta "opressão"
que o ensino da gramática geraria nos falantes
de uma determinada língua. Evanildo Bechara tem
obra lapidar a esse respeito, num opúsculo que
é uma joia rara: "Ensino da Gramática:
Opressão? Liberdade?"
Ora, em muitas premissas erram os que fazem a apologia
do ilusório e falacioso "cerceamento"
que a Gramática impingiria aos "falantes
nativos" (aliás um termo também extremamente
discutível esse de "natividade linguística").
O primeiro erro crasso é confundir-se a língua
FALADA, que não pertence, por natureza inicial,
ao domínio da Gramática Normativa (uma
vez que a FALA apresenta diversidade não passível
de ser sistematizada), com a língua ESCRITA,
que é o elemento unificador de qualquer idioma.
A língua, nas palavras célebres de Fernando
Tarallo e Eugenio Coseriu, constitui-se da diversidade
dentro da unidade. Quando linguistas (pseudo) alardeiam
que não se deve "usar" a Gramática
para "julgar" como "certas" ou "erradas"
as maneiras de FALAR de um povo, talvez não tenham
sido avisados de que, de fato, não é este
o papel da Gramática, que jamais se preocuparia
em dizer, por exemplo, que a fala de um baile funk é
"errada" ou "pior" que a fala de
um usuário da língua numa soirée
de gala no Teatro Municipal ou numa conferência
na Academia Brasileira de Letras. Devo lembrar o velho
ditado latino: "Verba volant, scripta manent: Palavras
faladas voam, palavras escritas permanecem".
De há muito, os conceitos de "certo"
e "errado", na pseudolinguística, só
são usados, realmente, pelos próprios
supostos defensores da "democracia linguística
irrestrita", que, esses sim, acabam deflagrando
um preconceito violento, uma vez que não sabem
lidar com os conceitos de maneira científica
e razoável, promovendo, por serem equivocados
até quanto às terminologias, equívocos
crescentes e altamente falaciosos e sofísticos.
Nenhum gramático VERDADEIRO diria: "Você
está certo ou errado" - mas no máximo,
"Isso está em desacordo com a Gramática".
A Gramática não passa de UMA forma de
expressão dentro de uma língua, mas está
longe de ser a única ou, em muitos casos, mesmo
a melhor. Levados por formas ultrapassadas da antiga
ciência linguística, muitos autores inclusive
interpretam erradissimamente autores como Marcos Bagno,
Mário Perinni e outros, deturpando suas palavras
a uma abominável semente de segregação
social verdadeira, que levaria as pessoas que não
tiveram acesso à Gramática a continuar
nesse estado, enquanto a classe dos que puderam acedê-la
se diferenciariam exatamente por esse acesso.
Não há nenhum autor sério do campo
das Letras ou Antropologia ou Sociologia que possa apregoar
essa aberração. É claro que os
estudos em questão levam em consideração
a perspectiva êmica, e não apenas ética
(isto é, a visão a partir do povo estudado,
e não levando como referencial único a
ética dos estratos mais favorecidos socioeconomicamente),
mas, numa cidade, não se considerar a Gramática
ou desejar que moradores da mesma cidade grande não
tenham acesso a ela é praticamente uma atitude
nazi-fascista de "eugenia linguística":
algo como "deixem a língua culta com as
elites; deem aos plebeus a sua língua que só
sabe expressar-se de uma forma, onde quer que estejam".
Aliás, devo dizer que o Brasil é o único
país do mundo que vocifera com tanta ferocidade
(e falta de fundamentos) contra a Gramática Normativa
de sua língua. Nenhum outro país considera
a sua Gramática um conglomerado de arbitrariedades
e algemas, porque sabem que todas as Gramáticas
são escritas mediante pesquisa de séculos
de literatura naquela língua em questão.
Ademais, a Gramática, sendo filosófica
e reflexiva, como é, alarga o pensamento daqueles
que a procuram conhecer e estudar, pois "a linguagem
é a casa do ser", como disse Heiddeger,
e Pessoa dizia que "vemos o mundo com os olhos
da nossa língua", e, dessa forma, uma pessoa
que possua poucos ou parcimoniosos recursos expressivos
e comunicativos dentro de sua língua há
de ter um pensamento igualmente parcimonioso.
Tudo no mundo tem suas Gramáticas: a linguagem
computacional tem sintaxe, morfologia, léxico,
semântica; as relações interpessoais
idem. A Gramática Normativa, se não é
o fator exclusivo de ensino de leitura da Gramática
do mundo (e realmente não o é), ao menos
é um elemento extremamemente útil para
esse fim. Creio que seja por essa razão que os
demais países do mundo - à exceção
do Brasil - RESPEITEM as suas Gramáticas, em
vez de apedrejá-las, e, pior ainda, com argumentos
falsos e conceitos para lá de ultrapassados,
praticamente jurássicos... e deturpados, mal
lidos, simplificados a um sem-número de abjetas
formas de preconceito disfarçadas sob a "pele
de cordeiro" da falaciosa "democracia".
Demagogia e segregação seriam palavras
mais exatas.
O que um verdadeiro homem de letras pode analisar em
relação à língua FALADA,
em perspectivas funcionalistas e mesmo formalistas,
muito além de colocar a Gramática Normativa
como se fosse uma Bíblia, um Corão, um
Gita, um I Ching ou qualquer outro livro religioso dogmático,
é ater-se aos conceitos - agora corretos - de
ADEQUAÇÃO e INADEQUAÇÃO.
Repare-se que qualquer ser humano, a partir de uma idade
já bem tenra, é capaz, inclusive, de discernir,
por exemplo, que não pode falar um palavrão
escabroso numa igreja, sinagoga, mesquita, templo etc.
Mas ele pode fazê-lo entre amigos, num ambiente
de registro distenso. Ora ora, isso é a prova
viva de que há, SIM, noções de
"adequado" e "inadequado" em relação
a uma língua, e isso antes mesmo de a criança
em questão ter tido contato com a letra escrita.
Ela discerne isso por contato com seus pares e responsáveis.
Interessante que uma noção tão
básica, adquirida em idade pueril, perca-se ou
deteriore-se, em algumas pessoas, com o passar do tempo.
Trata-se de uma regressão no tempo e na mente
dessas pessoas, assim parece, que já haviam adquirido
uma noção e uma lição utilíssimas
para a convivência humana, e, de uma hora para
a outra, perdem-na...
Não que a discussão sobre o tema "validade
e fronteiras da Gramática", em si mesma,
seja ruim ou deletéria, pois ideias fluem através
da discussão. O que trato aqui é que a
discussão se baseia em conceitos e epistemologias
erradíssimas, que os gramáticos jamais
usaram ou disseram, o que torna a tertúlia morta
já na sua mais rotunda gênese.
Um gramático não diz "certo"
ou "errado". Talvez o fizessem no século
XIII, sei lá, com a Gramática de Port
Royal ou congêneres. Mas hoje, aliás há
muitos séculos, não!
Utilizando a metáfora de Bechara, uma sunga não
é "certa" nem "errada" por
si só. Mas será ADEQUADA numa praia, e
INADEQUADA numa festa de embaixada. Quem não
souber isso (e o fato grita até ao mais perfunctório
senso comum), este sim será, por si só,
INADEQUADO. Não ERRADO (ou será que é?),
mas INADEQUADO. Agora imaginem um sujeito usando um
traje de gala completo em plena praia, num domingo de
sol, ao meio-dia... Quão adequado estará
sendo... Será uma roupa CERTA?
Reflitamos e, com nosso raciocínio, que aliás
a Gramática ajuda muito a desenvolver, cheguemos
a uma conclusão, digamos, lúcida.
Bem, se a pessoa em questão quer fugir de toda
e qualquer convenção social, poderá
candidatar-se a ir morar no alto do Kilimanjaro, onde
não será afetada pela convivência
com nenhum outro ser humano, e poderá usar as
roupas e os registros linguísticos que lhe aprouver
na hora em que se lhe deparar a vontade INSTINTIVA.
Poderá até inventar um idioma só
dele, um idioleto, que, aliás, é um dos
sintomas de uma série de patologias neurofisiológicas
relativas ao ser humano - não saber comunicar-se
adequadamente.
Discernir os usos linguísticos é o que
importa, realmente, numa língua. Língua,
como elemento de cultura que é, não pode
se restringir a instinto. Língua é fenômeno
social e tem milhares de matizes para ser posta em funcionamento
ADEQUADAMENTE. Temos de ser poliglotas dentro do nosso
próprio idioma - parafraseio mais uma vez meu
antigo orientador, Evanildo Bechara. A Gramática
não tem o papel de ditar dogmatismos, mas apenas
tem o papel de colher o que os grandes ESCRITORES (língua
ESCRITA) têm feito ao longo do tempo, e, com esse
compêndio, tentar formular cientificamente uma
língua padrão, que, aí sim, se
desenrola tanto na ESCRITA quanto na própria
FALA.
Gostaria de propor um desafio a autores defensores do
"vale tudo" linguístico: por que eles
não escrevem seus artigos e livros estritamente
num registro linguístico bem relaxado, como se
estivessem batendo um papinho no bar com seus melhores
amigos? Por que eles têm tanta preocupação
em criticar a Gramática mas a usam escorreitamente,
ponto por ponto, na hora de ESCREVER um artigo acadêmico
e mesmo na hora de FALAR a plateias mais cultas? Será
que, no fundo, não são eles que querem
implementar e alargar o fosso entre eles, cultos, e
os que devem ser deixados ao deus-dará, incultos?
Será que por trás desse discurso de "democracia"
não há de fato uma DEMAGOGIA que, aos
poucos, vai salientando, como se fosse algo benéfico,
a diferença entre "párias" e
"dálits"? Será que não
estariam ajudando a criar e manter um sistema de castas
linguísticas em que se "abona" a falta
de acesso à Gramática para uns enquanto
eles próprios, seus filhos e parentes a acedem
com grande fluidez e - hipocrisia? Não seria
esse o subtexto do discurso de que a "Gramática
oprime a expressão do povo"? Bertrand Russel,
professor de Ludwig Wittgenstein, dizia: "O texto
é aquilo que esconde as entrelinhas". Será
que nas entrelinhas do texto "deixe todos falarem
e escreverem sem interferência nenhuma, instintivamente"
não está recôndita a entrelinha
"assim eles permanecerão lá, e nós,
de elevada casta, aqui, bem longe e distantes"?
Causas para reflexão séria...
Por que os apologéticos do "a Gramática
oprime" sabem usar a Gramática tão
bem e USAM-NA quando discernem ser este o registro ADEQUADO
para determinada situação?
Por uma razão muito simples: eles SABEM que a
língua é composta de vários registros,
e que seria INADEQUADO usar um registro distenso ou
relaxado quando se dirigem, ORALMENTE ou POR ESCRITO,
a determinado público.
Se não houvesse a unidade linguística
padrão, a língua portuguesa já
teria se fragmentado em várias línguas
há muito tempo, cada uma correspondente a um
uso específico. Teríamos o nordestês,
o sulês, o carioquês, o paulistês,
o funkês, o cientifiquês, o literatês...
E de cada um desses novos idiomas, certamente, vários
outros, nascidos pelas diferenças que surgem
na língua falada com uma velocidade certamente
diária. Teríamos mil línguas oriundas
da portuguesa, incomunicáveis uma com a outra.
Provavelmente desde o século XVI, com João
de Barros e Camões confrontados com as influências
negras e indígenas da América, ou, na
pior das hipóteses, do início do século
XX para cá, com a colonização e
descolonização da África e Ásia
lusófonas.
Mas não, em vez disso, a língua portuguesa,
dentro de sua unidade GRAMATICAL NORMATIVA, assimilou
e abonou todas as influências - negra, indígena,
árabe, asiática, inglesa, francesa, espanhola
- e só cresceu, mesmo na sua Gramática
Normativa. Porque a Gramática é uma força
tenaz que norteia, não cerceia, e aceita, com
muita flexibilidade, as mudanças no tempo e mesmo
no espaço. Só não sabe isso quem
não conhece, realmente, o que é Gramática
e qual o seu papel real.
E sair por aí dizendo falsas premissas sobre
algo que se conhece pouco é, no mínimo,
indefensável. Não fosse a Gramática
com sua tenacidade, teríamos incontáveis
línguas formadas a partir do português,
que, no entanto, não mais seria o português,
mas línguas derivadas, como foi dito. E o que
temos são falares e expressões locais
ricas e saborosíssimas, que em nada "ameaçam"
a unidade do idioma, porque a Gramática estará
sempre lá, com seus séculos de compilação
da evolução do idioma.
Um homem que não sabe História certamente
repetirá erros já cometidos. Um homem
que não sabe o que é Gramática
dirá muitas bobagens a partir de conceitos que
já foram usados mas que não são
mais fidedignos. A Gramática unifica, sem retirar
os traços locais da língua - o que, aliás,
seria sumariamente impossível.
Quanta bobagem já derramou rios de tinta de quem
não enxerga isso!
Sim, isso pode acontecer, e, como eu disse, nem é
essa unificação a preocupação
primacial da Gramática. Seu verdadeiro escopo
é formalizar um tipo - UM ÚNICO TIPO DENTRE
OS INFINITOS TIPOS - de comunicação oral,
mas principalmente escrita, dentro da nossa vastíssima
e riquíssima língua portuguesa.
A unidade gramatical não sufoca a diversidade,
mas, pelo contrário, evidencia e lapida o seu
inesgotável brilho. Ou será que fui inexpressivo
neste artigo só porque achei ADEQUADO comunicar-me,
aqui, pelas vias tão fecundas da Gramática
Normativa? Será que errei ao optar por este caminho
neste momento? Será que eu realmente SÓ
sei me expressar dessa maneira, e me expressaria igualmente
no contato com amigos íntimos, com familiares,
com crianças, com pessoas pouco eruditas, ao
namorar...? Será que o fato de eu saber Gramática
Normativa escrita e oral implica (quanta falácia!)
que eu SÓ DEVO SABER GRAMÁTICA NORMATIVA
e não dispor de nenhum outro meio de comunicação
mais expressivo ao momento?
Quem inventou essa "Lei"?
"Nunca deixarei de acreditar em Deus, visto que
ainda acredito na Gramática" - diz Nietzsche.
Não, a Gramática e Deus não são
a mesma realidade sociocultural. Mas provam que o homem
precisa, por sua própria natureza, ater-se a
algo fixo dentro da transitoriedade e variabilidade
das circunstâncias que o circundam. O homem sempre
precisará de pontos de referência plurais
(éticos e êmicos), e negar a ele o conhecimento
dessas perspectivas é cruel e separatista. Se
ele, uma vez tendo conhecido, não quiser lançar
mão, é sua escolha, mas não lhe
dar acesso, não lhe mostrar - isso é desumano
e profundamente avesso à gregariedade e solidariedade
orgânica de uma sociedade complexa que conviva
sob uma mesma cultura, um mesmo solo, um conjunto de
valores compartilhados e reinterpretados continuamente.
"O indispensável é o absoluto"
- disse Kierkegaard. E absoluta é a união
das partes, vistas sem preconceito, e, portanto, sem
omitir-se de uns aquilo que se oferece a outros.
Marcelo Moraes
Caetano é carioca, pianista clássico,
com prêmios no Brasil e no exterior, tradutor
de inglês, francês e alemão, e escritor
com vários livros publicados, no Brasil, Estados
Unidos, Suécia, França e Inglaterra. É
especialista em Educação e Tecnologia
pela Universidade Federal Fluminense, Mestre em Estudos
da Linguagem pela PUC-RIO e pesquisador com dedicação
exclusiva pelo CNPq.
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