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Por um idioma libertário.

Por: Álvaro Vasconcelos Studart


Confesso: vez por outra ainda sou pego acessando minha novíssima antiqüíssima gramática do Cegalla. Não que não precisasse, talvez por algum tipo de empáfia presunçosa e auto-suficiente, mas é que a tal da escola tradicional e hoje aparentemente démodé acabou por me deixar a pecha asfixiante dos rigores normativos.
Até hoje, se me perguntam a simples necessidade da colocação de uma vírgula, instintivamente inicio a análise do caso como se decupasse uma intrincada imagem renascentista: período composto por mais de uma oração; oração iniciada por “que” como pronome relativo; oração subordinada adjetiva; marcação com vírgulas nas explicativas em detrimento da pontuação nas restritivas. Sim, há a vírgula... Ao mínimo sinal da dúvida, temo o ressurgimento dos tremores, que apenas diminuem ao se folhear as amareladas páginas daquele compêndio.
Não que critique minha formação. Dizem as sagradas escrituras: “para tudo há momento, e tempo para cada coisa sob o céu”. Isto posto, ela deve ter sido coerente a seu tempo. Hoje, no entanto, fala-se cada vez mais em liberdades criativas, não-formalidades e construtivismos – embora só consiga vislumbrar nisso tudo um retorno às academias platônicas e à boa e velha maiêutica socrática, de onde talvez nunca devêssemos ter saído.
Parece que se passou a perceber que, em certa medida, o rigor formal limita a recriação do próprio homem através da arte ou da literatura. O interessante é que houve quem se proclamasse farto desse lirismo comedido e funcionário público já no início do século XX, em meio a cartilhas e a palmatórias. Talvez tenha sido uma leve pane no mecanismo de distribuição das pessoas em suas épocas corretas, ou talvez seja isso mesmo, precisemos vez em quando de alguma espécie de profeta a nos apontar o caminho do futuro. Ou do presente.
Mas acredito que estamos evoluindo, deixando de ser demasiadamente puristas. Franqueia-se mais a palavra e dá-se mais importância ao que realmente interessa: o texto, que é o verbo imanente de nossas culturas. Ainda há discussões inócuas e exageradas, é fato, preocupações com verbetes estrangeiros ou politicamente corretos, mas não passam de caraminholas políticas empurradas goela a baixo, só não pelos lingüistas.
Professo um idioma livre mesmo – libertário – mas desses libertários de tons pastéis que viveram durante o século XX e ainda subsistem sob boinas e bottons: revolucionários assaz adaptados a seus carros e apartamentos de luxo e às tantas facilidades da vida moderna. Isto é, a liberdade para se produzir sem tabus fundamentalistas decretando obrigatoriamente o que é certo ou errado. No entanto, gravitando sobre um core mínimo de normas necessárias à unidade da língua como reconhecimento de seu povo.
Mas, enquanto o cânon vernáculo não envia às favas todo e qualquer engessamento normativo, desculpem-me becharas e cegallas, sigo tentando dar vazão ao texto na sua expressão mais espontânea e pura. Possivelmente, subverto uma regra ou outra, mas o faço sem expiações, com os olhos fixos na palavra, mais do que na estrutura que a cerca. Marcho entre os abstêmios e os gramaticólatras anônimos, findando por promulgar orgulhoso minha alforria: escrevi mais um texto sem consultá-la, ó formalíssima gramática.

 


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