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Confesso: vez por outra ainda sou pego acessando minha
novíssima antiqüíssima gramática
do Cegalla. Não que não precisasse, talvez
por algum tipo de empáfia presunçosa e
auto-suficiente, mas é que a tal da escola tradicional
e hoje aparentemente démodé acabou
por me deixar a pecha asfixiante dos rigores normativos.
Até hoje, se me perguntam a simples necessidade
da colocação de uma vírgula, instintivamente
inicio a análise do caso como se decupasse uma
intrincada imagem renascentista: período composto
por mais de uma oração; oração
iniciada por “que” como pronome relativo;
oração subordinada adjetiva; marcação
com vírgulas nas explicativas em detrimento da
pontuação nas restritivas. Sim, há
a vírgula... Ao mínimo sinal da dúvida,
temo o ressurgimento dos tremores, que apenas diminuem
ao se folhear as amareladas páginas daquele compêndio.
Não que critique minha formação.
Dizem as sagradas escrituras: “para tudo há
momento, e tempo para cada coisa sob o céu”.
Isto posto, ela deve ter sido coerente a seu tempo.
Hoje, no entanto, fala-se cada vez mais em liberdades
criativas, não-formalidades e construtivismos
– embora só consiga vislumbrar nisso tudo
um retorno às academias platônicas e à
boa e velha maiêutica socrática, de onde
talvez nunca devêssemos ter saído.
Parece que se passou a perceber que, em certa medida,
o rigor formal limita a recriação do próprio
homem através da arte ou da literatura. O interessante
é que houve quem se proclamasse farto desse lirismo
comedido e funcionário público já
no início do século XX, em meio a cartilhas
e a palmatórias. Talvez tenha sido uma leve pane
no mecanismo de distribuição das pessoas
em suas épocas corretas, ou talvez seja isso
mesmo, precisemos vez em quando de alguma espécie
de profeta a nos apontar o caminho do futuro. Ou do
presente.
Mas acredito que estamos evoluindo, deixando de ser
demasiadamente puristas. Franqueia-se mais a palavra
e dá-se mais importância ao que realmente
interessa: o texto, que é o verbo imanente de
nossas culturas. Ainda há discussões inócuas
e exageradas, é fato, preocupações
com verbetes estrangeiros ou politicamente corretos,
mas não passam de caraminholas políticas
empurradas goela a baixo, só não pelos
lingüistas.
Professo um idioma livre mesmo – libertário
– mas desses libertários de tons pastéis
que viveram durante o século XX e ainda subsistem
sob boinas e bottons: revolucionários
assaz adaptados a seus carros e apartamentos de luxo
e às tantas facilidades da vida moderna. Isto
é, a liberdade para se produzir sem tabus fundamentalistas
decretando obrigatoriamente o que é certo ou
errado. No entanto, gravitando sobre um core mínimo
de normas necessárias à unidade da língua
como reconhecimento de seu povo.
Mas, enquanto o cânon vernáculo não
envia às favas todo e qualquer engessamento normativo,
desculpem-me becharas e cegallas, sigo tentando dar
vazão ao texto na sua expressão mais espontânea
e pura. Possivelmente, subverto uma regra ou outra,
mas o faço sem expiações, com os
olhos fixos na palavra, mais do que na estrutura que
a cerca. Marcho entre os abstêmios e os gramaticólatras
anônimos, findando por promulgar orgulhoso minha
alforria: escrevi mais um texto sem consultá-la,
ó formalíssima gramática.
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