Muito já se falou
sobre o Novo Acordo Ortográfico. A frouxidão
de argumentos que embasaram a sua implantação,
como a suposta necessidade de unificar a grafia da língua
portuguesa nos países em que é o idioma
oficial, em favor do estímulo ao intercâmbio
cultural entre as nações lusófonas
e da simplificação de documentos oficiais,
já foi suficientemente denunciada.
É certo que o intercâmbio cultural entre
os países da chamada "lusofonia" é
algo positivo, mas o que pode fomentá-lo são
antes políticas de incentivo que a supressão
de hifens ou de acentos, cujo resultado prático
é apenas anular diferenças sutis que nunca
impediram a compreensão dos textos escritos do
lado de cá ou do lado de lá do Atlântico.
Se o uso do vocabulário e das estruturas sintáticas,
os diferentes significados que alguns termos assumem
em cada país, o leque de referências culturais
que dão à língua sua feição
local, para não falar na concorrência de
outros idiomas (no caso das nações africanas
e do Timor Leste), são obstáculos relativamente
pequenos ao
intercâmbio cultural, que dizer de pormenores
como hifens e acentos?
A ideia de unificação, que produziu um
discurso politicamente positivo em torno do assunto,
além de não ter utilidade prática,
gera vultoso gasto de energia e de recursos, que bem
poderiam ser empregados no estimulo à educação
e à cultura.
Não bastasse a inconsequência do projeto
em si, o texto que o tornou oficial é tão
lacunar e ambíguo que desafiou os estudiosos
do idioma tanto no Brasil como em Portugal, fato que
levou à produção de dicionários
com grandes discrepâncias entre si. Faltava uma
obra de referência, que estabelecesse a grafia
das palavras, regularizando os pontos obscuros do texto
oficial.
Esperava-se que essa obra fosse concebida em conjunto
pelos países signatários do Acordo, como
fruto de um debate no âmbito do propalado projeto
de unificação. No lugar disso, a ABL (Academia
Brasileira de Letras) tomou a dianteira do empreendimento
e confeccionou o "Volp" ("Vocabulário
Ortográfico da Língua Portuguesa").
Em lugar da solução dos pontos ambíguos
do texto, o que se viu foi um misto de inobservância
de princípios claramente propostos no documento
oficial com hesitação entre o novo e o
antigo, redundando, em muitos dos casos, em escolhas
aparentemente aleatórias.
Se a ABL entendeu que poderia suprimir o hífen
de formas como "co-herdar" e
"co-herdeiro", em desacordo com o texto oficial,
talvez em nome da simplificação, por que
esse princípio não presidiu as demais
escolhas?
Para ficar num exemplo gritante, por que transformar
o verbo "sotopor" em "soto-pôr"?
Está no texto oficial, mas isso não parece
ser razão suficiente para a ABL. Pior que desmontar
uma aglutinação, acrescendo-a de hífen
e acento diferencial, talvez seja o fato de que as formas
conjugadas do verbo não seguem a grafia do infinitivo
(o "Volp" registra "sotoposto").
Ainda pior que isso é a hesitação:
criaram-se grafias duplas ("sub-humano" e
"subumano"; "ab-rupto" e "abrupto"
e até "prerrequisito" e "pré-requisito",
entre muitas outras) sem um critério seguro que
as afiançasse. A interpretação
do sexto artigo da
Base XV do Acordo transformou substantivos compostos
em locuções por obra da supressão
sistemática dos hifens. As exceções,
agrupadas sob a rubrica "consagradas pelo uso",
são apenas sete no documento oficial, o que,
por si só, já dá a medida do absurdo.
O conceito é por demais vago, tanto que não
garantiu a manutenção pura e simples da
grafia "abrupto", esta sim consagrada pelo
uso.
A supressão do hífen que separava a forma
prefixal "não-" de substantivos e adjetivos
não é um recurso facilitador. Diante dos
substantivos, não havia dúvida quanto
ao seu emprego ("não-índio",
"não-agressão" etc.). A distinção
entre "dia a dia" (locução
adverbial) e "dia-a-dia" (substantivo composto)
era útil, afinal, o sistema de distinções
favorece a compreensão da gramática da
língua.
Melhor trabalho teria sido a regularização
do hífen com "bem" e "mal",
nem sempre percebidos como prefixos. Louvável
ainda teria sido o registro dos principais estrangeirismos
em uso na língua, respeitando grafias consagradas
em seu idioma de origem, dado que hoje não há
tendência ao aportuguesamento.
Sem um objetivo claro e com severas implicações
financeiras, a reforma ortográfica apoia-se num
documento lacunar e numa obra de referência marcada
pela hesitação e pela inconstância
nos critérios de regularização.
Fica a incômoda impressão de que os custos
serão bem maiores que os supostos benefícios.
Thaís
Nicoleti de Camargo ,
professora de português formada pela USP, é
consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL
e autora dos livros "Redação Linha
a Linha" (Publifolha) e "Uso da Vírgula"
(Manole).
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