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Carnavalização no conto Entre santos, de Machado de Assis


Por: Ana Maria Abrahão dos S. Oliveira


A LITERATURA CARNAVALIZADA

O conto Entre santos (1996), de Machado de Assis, é uma aventura vivida por um padre já idoso que se surpreende ao presenciar santos sentados em seus altares, conversando abertamente sobre as promessas e a vida particular de seus devotos, o que, a nosso ver, constitui um exemplo de sátira menipéia, gênero que integra o campo sério-cômico e que é denominada por Bakhtin, literatura carnavalizada.

Este tipo de literatura é, segundo o teórico russo, aquela que, direta ou indiretamente, através de diversos elos mediadores, tem profunda relação com as diferentes modalidades do folclore carnavalesco (antigo ou medieval).

O carnaval opera uma inversão do mundo sério e oficial numa atmosfera de grande vitalidade e de transformação. Não é um fenômeno literário, mas sim uma forma sincrética de espetáculo ritualístico cuja linguagem de formas concreto-sensoriais simbólicas exprime uma cosmovisão carnavalesca una e complexa. Essa linguagem pode não ser adequada à linguagem verbal, entretanto, é possível fazer uma transferência de conceitos através de imagens sensoriais, a carnavalização da literatura.

Podemos dizer que a literatura carnavalizada é o destronamento do conceito platônico de cultura (cultura como sinônimo de obtenção do saber), criando assim, a concepção popular.

As festas de primavera dos agricultores e vinicultores gregos que celebravam a colheita com enormes comilanças e bebedeiras, séqüitos barulhentos e mostras de símbolos fálicos, motivando assim a inversão total dos atos do cotidiano são associados ao aparecimento das manifestações carnavalescas. As festas eram a segunda vida dos homens, que adentravam, por algum tempo, no reino da utopia da universalidade, da igualdade e da abundância.

Na Antigüidade clássica e também no Helenismo, surgiram e se desenvolveram vários gêneros literários cuja denominação foi dada pelos antigos como campo do sério-cômico, que se opunha aos gêneros sérios (elevados) como a epopéia, a tragédia, a retórica clássica e outras modalidades, em que havia profunda relação com o folclore carnavalesco. O diálogo socrático, os simpósios, a poesia bucólica e a sátira menipéia pertenciam ao gênero sério-cômico.

Todos esses gêneros estão imbuídos de uma cosmovisão carnavalesca, fazendo assim com que a imagem e a palavra mantenham uma relação diferente com a realidade. O clima de relatividade na cosmovisão carnavalesca é um forte elemento retórico, no entanto, este se modifica, gerando debilidade de sua seriedade retórica unilateral, de racionalidade, da univocidade e do dogmatismo.

Em todos os gêneros do gênero sério-cômico, o objeto é o ponto de partida da interpretação e da formalização da realidade. Não há mais a distância épica ou trágica, em que o objeto de representação (séria e também cômica) é elevado, tendo grande familiaridade com os contemporâneos e não no passado absoluto e distante como na epopéia e na tragédia. Os gêneros do sério-cômico não se baseiam nas lendas e nos mitos, como o épico e o trágico, mas sim na experiência consciente e na livre fantasia, onde há um tratamento cínico e até mesmo desmascarador do objeto. Há uma pluralidade de estilos e uma multiplicidade de vozes, onde ocorre uma renúncia à unidade de estilo da retórica elevada e da lírica, pois existe uma pluritonalidade na narração. Conjugam-se o sublime e o vulgar, o alto e o baixo, o sério e o cômico.

A literatura carnavalizada é um resgate da trajetória do gênero narrativo desde os seus primórdios, referindo-se aos gêneros menores (diálogo socrático e sátira menipéia), como antecedentes da prosa.

Não obstante a epopéia e a tragédia serem gêneros elevados, neste último, com Eurípedes, foram introduzidos personagens como o parricida, o ladrão e a prostituta. Essa invasão das figuras do universo popular no trágico abre espaço para que surjam outros gêneros. Eurípedes desmonta o universo fechado da tragédia.
Para que a prosa surgisse, fez-se necessária uma “correção” no gênero elevado. Com a desintegração desse sistema inicia-se a representação do homem do povo.

Ao se fazer uma ponte entre Ilíada e Odisséia, passando pela comédia, percebe-se que o cotidiano aparece cada vez mais nas obras. Em Ilíada, a narrativa girava em torno de um compromisso com a coletividade. Já na Odisséia, o interesse não é o mesmo, a narrativa desenvolve-se com o interesse de uma só pessoa. O mundo do narrador já se faz presente, os heróis tornam-se figuras palpáveis. Quando Ulisses (disfarçado de mendigo) briga com Iros, que também está na mesma condição social que ele, transforma-se numa figura cômica, torna-se objeto de riso daqueles que presenciam a cena. Ao travestir-se de pedinte, mostra a incapacidade do gênero (épico) para resolver conflitos. Com esse disfarce Ulisses representa alguém que já existia historicamente em Ítaca – o pedinte, o que seria uma paródia do herói e revela uma nova categoria de narrativa que começa a vigorar.

Gradativamente há uma aproximação de pólos distantes, uma dicotomia entre duas formas de cultura: a oficial (sistêmica), séria; e a popular do riso (assistêmica), anárquica. A segunda tem um papel fundamental porque aproxima as pessoas, permite que se toquem e conseqüentemente que se tornem objeto de riso.

A teoria da carnavalização partiu da seriedade trágico-séria para a trágico-cômica. É uma proposta de leitura da História e, como tal, leitura da própria literatura. É um contraponto à visão de Platão. Para o filósofo, o antigo clã que personifica a grande família grega, inserido no universo da polis, cristaliza todas as grandes qualidades, como a bravura e a honradez. Na concepção platônica, quem tem berço, neste caso a aristocracia, é que possui a sabedoria. A teoria da carnavalização é o destronamento desse conceito de cultura, passando a criar a concepção de cultura popular.

AS CATEGORIAS E AS AÇÕES CARNAVALESCAS

As categorias carnavalescas são idéias concreto-sensoriais vivenciáveis e representáveis. A primeira é o livre contato entre os homens, onde acontece a participação ativa de todos, a vida é desviada do cotidiano. Não há divisão entre atores e espectadores. É o mundo às avessas. A excentricidade permite que o lado oculto da natureza humana se revele de forma concreto-sensorial. O homem pode expor em seu discurso o que não podia antes.

A familiarização (mésalliances carnavalescas) é uma categoria em que os valores, as idéias, os fenômenos e as coisas combinam-se pela livre relação familiar.
A quarta e última categoria é a profanação, onde há sacrilégios gerados por um sistema de descidas e aterrissagens, paródias carnavalescas dos textos sagrados e bíblicos.

São ações carnavalescas: a coroação bufa e o destronamento do rei do carnaval; a imagem ambivalente do fogo, que assim como o tempo, destrói, constrói e renova incessantemente; o riso carnavalesco, primordial, que vem do riso ritual que reage às crises (ridicularização do supremo, paródia sacra). No conto machadiano, os santos são representados como pessoas “indiscretas”, que comentam a vida dos outros e riem das súplicas de seus devotos.

O riso carnavalesco está relacionado às formas antigas do riso ritual. Na Antigüidade, ridiculariza-se o Sol, que era uma divindade. A divindade era ridicularizada para que pudesse renascer.

Todos esses rituais carnavalescos foram transpostos para a literatura. As idéias concreto-sensoriais exerceram grande influência na formação dos gêneros literários.

A MENIPÉIA NA NARRATIVA MACHADIANA: ENTRE SANTOS

O conto Entre santos é um exemplo de sátira menipéia devido às características próprias desse tipo de gênero.

A sátira menipéia deve seu nome a Menipo de Gádara (séc. II d.C), filósofo cínico que quis destronar os deuses da mitologia, da epopéia e da tragédia. Colocou todos em pé de igualdade, afetando aqueles que tinham valor elevado, tirou do panteão indivíduos que eram importantes. Luciano de Samosáta transformou-o em personagem em seu livro Diálogo dos mortos (1996), em que Menipo aparece como aquele que tem o poder de rir de todos. Todas as principais figuras do mundo grego são rebaixadas. Após a morte, toda a glória, todo o poder que possuíam em vida, cai por terra.
Essa obra polêmica de Luciano ainda exerceu grande influência na escritura de autores em diferentes épocas e nacionalidades, como Dostoiévski (século XIX), na Rússia, e chegando até Machado de Assis – não só em Entre santos, mas também no romance Memórias póstumas de Brás Cubas (1880), _ onde o narrador diz de forma presunçosa, fazendo um paralelo de sua obra com as Escrituras: “Moisés, que também contou a sua morte, não o pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco” (p.13).

De acordo com a teoria bakhtiniana, a sátira menipéia apresenta algumas singularidades. A primeira peculiaridade é o aumento do peso específico do elemento cômico que pode variar para mais ou para menos, dependendo do autor. No conto machadiano, entendemos que a presença do elemento cômico é grande.

Outra característica é a excepcional liberdade filosófica e de invenção do enredo, sem compromisso algum com a verossimilhança. A fantasia torna-se mais audaciosa e desmedida. O fantástico assume caráter de aventura, muitas vezes simbólica ou místico-religiosa.

A invenção e o fantástico combinam-se através da capacidade de ver o mundo. A sátira menipéia é o gênero das últimas questões, das palavras derradeiras e dos atos do ser humano em sua totalidade. Há na sátira menipéia o que Bakhtin denomina experimentação moral e psicológica, a representação de insólitos estados psicológico-morais anormais do homem: loucura, devaneio, sonhos extraordinários e paixões no limite da loucura.

Ana Maria Abrahão dos S. Oliveira é Mestra em Literatura brasileira e Teorias da Literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro do Grupo de Estudos Nação-narração – UFF/CNPq.

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