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Análise crítica comparativa entre dois livros didáticos
do Ensino Fundamental


Por: José Eduardo Gouvêa


Esta análise com base em dois livros didáticos de língua portuguesa de 5ª série do Ensino Fundamental terá como objetivo analisar de forma coerente e séria alguns fatores de como e de que maneira o conteúdo é aplicado, e também como se dá a aplicação do foco estrutural da Sociolingüística, mais precisamente a Lingüística Aplicada.

O livro “Novo Diálogo: língua portuguesa”, de Eliana Santos Beltrão e Tereza Gordilho, é muito bem elaborado visualmente, o que estimula e faz com que a criança tenha certa noção do que irá encontrar nos textos pelas ilustrações que sempre estão ao lado dos mesmos, que na grande maioria das vezes aborda temas educativos e sugerindo possíveis leituras não só de livros, mas também de filmes. Por exemplo, no texto que tem como tema a preservação do meio ambiente, ao lado há um desenho de um garoto lavando o mundo com água e sabão:

Na parte gramatical do livro, muitos dos exemplos usados são ilustrados em forma de “tirinhas” de revistas em quadrinhos, como telas de computadores com temas visualmente atualizados ou fotos do assunto que o texto aborda, com curiosidades e explicações. Quando se trata de poemas, sempre há ilustrações do que indica o texto, para que a abstração tenha uma forma materializada:


Já no livro “Palavras: texto, gramática, redação”, de Hermínio Sargentim, só há o conteúdo sem o menor atrativo para a criança. Ao longo das unidades que contém partes dos assuntos a serem tratados, quase não tem nenhuma imagem para que a leitura seja estimulada, e nas vezes que esses desenhos se fazem presentes, são sempre em preto e branco, de modo que a criança não se sinta a vontade com um livro que deveria trazer abordagens infantis, com temas específicos para tais idades.

Em sua grande maioria, os textos sugeridos para interpretações são totalmente inapropriados e maçantes para crianças de 5ª série, que por vezes, podem chegar até a causar traumas, fazendo com que elas percam o estímulo pela leitura.

Tomo como exemplo a unidade 2 que traz o texto “MINSK”, de Graciliano Ramos, para interpretação. Não que o texto seja ruim, mas o que pede a interpretação é altamente inapropriado, e a meu ver, nada cognitivo para aquela idade porque pede somente para destacar palavras cujo significado a criança desconheça.

CONCEITOS OU PRECONCEITOS

Em ambos os livros só vemos métodos tradicionalistas, onde só há a clara e simples denominação de conceito e de certo e errado, o que de certa forma bloqueia um possível conhecimento das variações lingüísticas. Nunca mencioná-las gera um preconceito, porque se as crianças aprendessem desde cedo nas escolas e nos livros didáticos as variantes do nosso português falado, nunca diminuiriam ninguém e nem classificariam tal pessoa como burra, o que é uma inverdade.

Portanto, ao não abordarem esses conceitos de variantes lingüísticas, ou até mesmo novas discussões das gramáticas tradicionais, estão tendo uma abordagem puramente restritiva ao conceito de certo e errado. Ao considerar as demais maneiras de se expressar erradas, não só esses dois livros, mas também todos os outros que se enquadram nesses parâmetros, tornam-se preconceituosas essas metodologias de ensino.

MUTILAÇÃO DOS TEXTOS

No segundo livro, apesar de algumas interpretações serem relativamente desnecessárias para crianças de 5ª série, todos os textos estão inteiros, ao contrário do primeiro, que por serem longos demais, são cortados em seu desenvolvimento, para que caibam. Neste caso, talvez uma escolha de textos mais compactos fosse a solução, para que os alunos possam ter acesso ao assunto por inteiro.

INTERPRETAÇÃO TEXTUAL OU CÓPIA?

Não só nesses dois, mas nos livros didáticos em geral, a interpretação de texto vem sendo algo que sempre apresenta uma forma presa e única, sem considerar outras possíveis análises por parte do aluno. Os livros didáticos não ensinam aos alunos conceitos de leituras e interpretações que não sejam necessariamente textos, que em muitas vezes causam traumas por serem inapropriados e enfadonhos.

Sendo assim, é quase impossível o aluno desenvolver uma visão crítica de determinados assuntos. Ao adotarmos esta forma fechada de interpretação, estamos pedindo ao aluno que ele apenas trabalhe em cima do que está escrito, praticando não uma verdadeira interpretação, mas sim uma ótima capacidade de cópia e procura de palavras no texto.

E A SOCIOLINGÜÍSTICA?

Falar de linguagem diferente dentro de uma mesma sociedade que não aceita e, por muitas vezes, despreza o falante “burro”, é extremamente delicado. O que é considerado “burro” para um país tão miscigenado como o nosso, cheio de tantas cores, raças, “tribos” e culturas? Como tentar mudar uma raiz tão profunda de preconceito e discriminação?

A sociolingüística tem como objetivo de estudo a língua falada, observada, descrita e analisada no contexto social em que tal falante está inserido, com o objetivo de entender como se aplica o uso das variações lingüísticas na comunicação. Mudar essa ideologia imposta do que é “certo e errado” é um trabalho árduo, em longo prazo, mas faz-se necessário.

O PAPEL DA LINGUAGEM

A linguagem tem um papel fundamental nas ideologias culturais. A ideologia da deficiência cultural tem sua origem em seu mais importante argumento no conceito de “déficit lingüístico”, que se chegou mesmo a sugerir a existência de uma “teoria de deficiência lingüística”, na qual explica o fracasso escolar das camadas populares. Já a ideologia das diferenças culturais, tem seu principal suporte nos estudos Sociolingüísticos sobre a linguagem das camadas populares, que a pesquisa mostra diferenças da forma-padrão prestigiada, mas não inferior nem deficiente. São esses estudos que constituem o principal fundamento da contestação das ideologias da deficiência cultural e da lingüística.

O uso somente da língua padrão nas escolas e nos livros didáticos de maneira geral, evidencia mais claramente as diferenças entre grupos sociais, gerando a discriminação e fracasso dos jovens. O uso das variantes lingüísticas pelos alunos provenientes das camadas populares, provoca preconceitos lingüísticos e leva à dificuldades de aprendizagem, já que as escolas e os livros usam e querem ver usada a variante-padrão, que é socialmente prestigiada.

ISSO É GRAVE NA EDUCAÇÃO?

A não conscientização das variantes lingüísticas nas escolas, faz com que essas mesmas crianças se sintam discriminadas por não saberem falar, e são rotuladas como “deficientes” lingüísticas, o que nunca será correto, elas apenas falam uma língua diferente daquela que é mais prestigiada, a qual é ensinada na escola. Esse conceito acerca do jovem que não fala a língua-padrão é extremamente preconceituoso pelo fato de tratá-lo como um falante “rude”, “pobre” e “tosco”, sendo assim, causando um gigantesco trauma, fazendo com que se sintam incapazes de aprender qualquer coisa, ridicularizados e inferiorizados perante não só aos professores, mas também diante da sociedade. “Daí resulta que o aluno fica desestimulado a aprender, e o professor, desestimulado a ensinar”.

CONCLUSÃO

Ao analisarmos os livros didáticos e a educação nacional, que usa, na maioria das vezes, somente a variante prestigiada nas escolas, inclusive onde os alunos são de uma classe social inferiorizada, vemos que estão priorizando indiretamente ou até mesmo diretamente o preconceito lingüístico.

Portanto, o que deveria ser instrumento de agregação em pleno século XXI, onde o impressionante crescimento tecnológico em quase todas as áreas é claramente visível, ainda hoje é um aparelho repressor que causa torturas incalculáveis para a educação nacional, mais diretamente aos rotulados ignorantes: as classes desprestigiadas.

 

BIBLIOGRAFIA

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico o que é, como se faz. 31ª ed., São Paulo: : Edições Loyola.

____.A língua de Eulália. Novela sociolingüística. São Paulo, Contexto, 1997.

BELTRÃO, Eliana Santos; GORDILHO, Tereza. Novo Diálogo: língua portuguesa (5ª série). São Paulo: FTD, 2004.

SARGENTIM, Hermínio. Palavras: texto, gramática, redação (5ª série). São Paulo: IBEP.

VANOYE, Francis. Usos da linguagem: problemas e técnicas na produção oral e escrita; [tradução e adaptação de Clarice Madureira Sabóia... [et al.]. – São Paulo: Martins Fontes, 1996 (Ensino Superior).


 

 

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