Esta análise
com base em dois livros didáticos de língua
portuguesa de 5ª série do Ensino Fundamental
terá como objetivo analisar de forma coerente
e séria alguns fatores de como e de que maneira
o conteúdo é aplicado, e também
como se dá a aplicação do foco
estrutural da Sociolingüística, mais precisamente
a Lingüística Aplicada.
O livro “Novo
Diálogo: língua portuguesa”, de
Eliana Santos Beltrão e Tereza Gordilho, é
muito bem elaborado visualmente, o que estimula e faz
com que a criança tenha certa noção
do que irá encontrar nos textos pelas ilustrações
que sempre estão ao lado dos mesmos, que na grande
maioria das vezes aborda temas educativos e sugerindo
possíveis leituras não só de livros,
mas também de filmes. Por exemplo, no texto que
tem como tema a preservação do meio ambiente,
ao lado há um desenho de um garoto lavando o
mundo com água e sabão:

Na parte gramatical
do livro, muitos dos exemplos usados são ilustrados
em forma de “tirinhas” de revistas em quadrinhos,
como telas de computadores com temas visualmente atualizados
ou fotos do assunto que o texto aborda, com curiosidades
e explicações. Quando se trata de poemas,
sempre há ilustrações do que indica
o texto, para que a abstração tenha uma
forma materializada:

Já no livro “Palavras:
texto, gramática, redação”,
de Hermínio Sargentim, só há o
conteúdo sem o menor atrativo para a criança.
Ao longo das unidades que contém partes dos assuntos
a serem tratados, quase não tem nenhuma imagem
para que a leitura seja estimulada, e nas vezes que
esses desenhos se fazem presentes, são sempre
em preto e branco, de modo que a criança não
se sinta a vontade com um livro que deveria trazer abordagens
infantis, com temas específicos para tais idades.
Em sua grande maioria, os textos sugeridos para interpretações
são totalmente inapropriados e maçantes
para crianças de 5ª série, que por
vezes, podem chegar até a causar traumas, fazendo
com que elas percam o estímulo pela leitura.
Tomo como exemplo a unidade 2 que traz o texto “MINSK”,
de Graciliano Ramos, para interpretação.
Não que o texto seja ruim, mas o que pede a interpretação
é altamente inapropriado, e a meu ver, nada cognitivo
para aquela idade porque pede somente para destacar
palavras cujo significado a criança desconheça.
CONCEITOS OU PRECONCEITOS
Em ambos os livros só vemos métodos tradicionalistas,
onde só há a clara e simples denominação
de conceito e de certo e errado, o que de certa forma
bloqueia um possível conhecimento das variações
lingüísticas. Nunca mencioná-las
gera um preconceito, porque se as crianças aprendessem
desde cedo nas escolas e nos livros didáticos
as variantes do nosso português falado, nunca
diminuiriam ninguém e nem classificariam tal
pessoa como burra, o que é uma inverdade.
Portanto, ao não abordarem esses conceitos de
variantes lingüísticas, ou até mesmo
novas discussões das gramáticas tradicionais,
estão tendo uma abordagem puramente restritiva
ao conceito de certo e errado. Ao considerar as demais
maneiras de se expressar erradas, não só
esses dois livros, mas também todos os outros
que se enquadram nesses parâmetros, tornam-se
preconceituosas essas metodologias de ensino.
MUTILAÇÃO DOS TEXTOS
No segundo livro, apesar de algumas interpretações
serem relativamente desnecessárias para crianças
de 5ª série, todos os textos estão
inteiros, ao contrário do primeiro, que por serem
longos demais, são cortados em seu desenvolvimento,
para que caibam. Neste caso, talvez uma escolha de textos
mais compactos fosse a solução, para que
os alunos possam ter acesso ao assunto por inteiro.
INTERPRETAÇÃO TEXTUAL OU CÓPIA?
Não só nesses dois, mas nos livros didáticos
em geral, a interpretação de texto vem
sendo algo que sempre apresenta uma forma presa e única,
sem considerar outras possíveis análises
por parte do aluno. Os livros didáticos não
ensinam aos alunos conceitos de leituras e interpretações
que não sejam necessariamente textos, que em
muitas vezes causam traumas por serem inapropriados
e enfadonhos.
Sendo assim, é quase impossível o aluno
desenvolver uma visão crítica de determinados
assuntos. Ao adotarmos esta forma fechada de interpretação,
estamos pedindo ao aluno que ele apenas trabalhe em
cima do que está escrito, praticando não
uma verdadeira interpretação, mas sim
uma ótima capacidade de cópia e procura
de palavras no texto.
E A SOCIOLINGÜÍSTICA?
Falar de linguagem diferente
dentro de uma mesma sociedade que não aceita
e, por muitas vezes, despreza o falante “burro”,
é extremamente delicado. O que é considerado
“burro” para um país tão miscigenado
como o nosso, cheio de tantas cores, raças, “tribos”
e culturas? Como tentar mudar uma raiz tão profunda
de preconceito e discriminação?
A sociolingüística
tem como objetivo de estudo a língua falada,
observada, descrita e analisada no contexto social em
que tal falante está inserido, com o objetivo
de entender como se aplica o uso das variações
lingüísticas na comunicação.
Mudar essa ideologia imposta do que é “certo
e errado” é um trabalho árduo, em
longo prazo, mas faz-se necessário.
O PAPEL DA LINGUAGEM
A linguagem tem um papel fundamental nas ideologias
culturais. A ideologia da deficiência cultural
tem sua origem em seu mais importante argumento no conceito
de “déficit lingüístico”,
que se chegou mesmo a sugerir a existência de
uma “teoria de deficiência lingüística”,
na qual explica o fracasso escolar das camadas populares.
Já a ideologia das diferenças culturais,
tem seu principal suporte nos estudos Sociolingüísticos
sobre a linguagem das camadas populares, que a pesquisa
mostra diferenças da forma-padrão prestigiada,
mas não inferior nem deficiente. São esses
estudos que constituem o principal fundamento da contestação
das ideologias da deficiência cultural e da lingüística.
O uso somente da língua padrão nas escolas
e nos livros didáticos de maneira geral, evidencia
mais claramente as diferenças entre grupos sociais,
gerando a discriminação e fracasso dos
jovens. O uso das variantes lingüísticas
pelos alunos provenientes das camadas populares, provoca
preconceitos lingüísticos e leva à
dificuldades de aprendizagem, já que as escolas
e os livros usam e querem ver usada a variante-padrão,
que é socialmente prestigiada.
ISSO É GRAVE NA EDUCAÇÃO?
A não conscientização das variantes
lingüísticas nas escolas, faz com que essas
mesmas crianças se sintam discriminadas por não
saberem falar, e são rotuladas como “deficientes”
lingüísticas, o que nunca será correto,
elas apenas falam uma língua diferente daquela
que é mais prestigiada, a qual é ensinada
na escola. Esse conceito acerca do jovem que não
fala a língua-padrão é extremamente
preconceituoso pelo fato de tratá-lo como um
falante “rude”, “pobre” e “tosco”,
sendo assim, causando um gigantesco trauma, fazendo
com que se sintam incapazes de aprender qualquer coisa,
ridicularizados e inferiorizados perante não
só aos professores, mas também diante
da sociedade. “Daí resulta que o aluno
fica desestimulado a aprender, e o professor, desestimulado
a ensinar”.
CONCLUSÃO
Ao analisarmos os livros
didáticos e a educação nacional,
que usa, na maioria das vezes, somente a variante prestigiada
nas escolas, inclusive onde os alunos são de
uma classe social inferiorizada, vemos que estão
priorizando indiretamente ou até mesmo diretamente
o preconceito lingüístico.
Portanto, o que deveria ser instrumento de agregação
em pleno século XXI, onde o impressionante crescimento
tecnológico em quase todas as áreas é
claramente visível, ainda hoje é um aparelho
repressor que causa torturas incalculáveis para
a educação nacional, mais diretamente
aos rotulados ignorantes: as classes desprestigiadas.
BIBLIOGRAFIA
BAGNO, Marcos. Preconceito
lingüístico o que é, como se faz.
31ª ed., São Paulo: : Edições
Loyola.
____.A língua de Eulália.
Novela sociolingüística. São
Paulo, Contexto, 1997.
BELTRÃO, Eliana Santos; GORDILHO,
Tereza. Novo Diálogo: língua portuguesa
(5ª série). São Paulo: FTD,
2004.
SARGENTIM, Hermínio. Palavras:
texto, gramática, redação (5ª
série). São Paulo: IBEP.
VANOYE, Francis. Usos da linguagem:
problemas e técnicas na produção
oral e escrita; [tradução e adaptação
de Clarice Madureira Sabóia... [et al.]. –
São Paulo: Martins Fontes, 1996 (Ensino Superior).
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