Quando aprendi a ler
e escrever, farmácia já não era
com ph, mas o alfabeto tinha 26 letras e em saudade,
para os nostálgicos, havia duas lágrimas
sobre o ü, embora não houvesse.
Naquele tempo, tínhamos
aula de leitura pelo menos uma vez por semana, o que
fazíamos em livros intitulados "Páginas
floridas", "Páginas seletas",
"Antologia nacional", "Antologia F.T.D."
e numa tal "Crestomatia", que a professora
nunca disse o que significava. Anos mais tarde, já
ensaiando os primeiros passos do jornalismo, desvendei
o significado da palavra cabalística. Decepção.
"Crestomatia" nada mais era do que um sinônimo
pernóstico de antologia...
Esse preâmbulo
vem a propósito da reforma ortográfica
pela qual tanto se bateu o nosso múltiplo e multiplicador
José Aparecido de Oliveira, de saudosíssima
memória para quantos o conheceram. É claro,
não nego que me falta autoridade para discutir
o assunto. Sou leigo. Ou melhor: sou um simples usuário,
com a única vantagem de ter passado, ao longo
da vida, por pelo menos quatro reformas ortográficas.
Vi saudade enxugar as falsas lágrimas, o alfabeto
perder três letras, chícara virar xícara,
o acento grave ficar circunscrito ao "à"
dito craseado, e o "c" que havia em cará(c)ter
ser abolido da escrita brasileira, como abolido foi
o próprio em certos cenários nacionais
nossos conhecidos.
Não sou anti-reformista,
ou antirreformista, como será correto escrever-se
a partir de 2010. Considero-me um cidadão integrado
à modernidade, e o cidadão moderno deve
ser afeiçoado a reformas, mesmo as que lhe pareçam
extemporâneas. Mas, para ser sincero, não
encontro a decantada precisão nessa "mexida"
na ortografia da língua portuguesa. Não
nego que haja no seu bojo algumas boas medidas, como
as que concernem ao emprego do hífen, hoje uma
pedra no caminho (com licença de Drummond) de
quem tem na escrita seu meio de subsistência.
Outras, porém, diria mesmo que a maioria, me
parecem, do meu ponto de vista de usuário, sem
o menor propósito, confusas, inclusive, em razão
das exceções que admitem, ou das dúvidas
prosódicas que irão suscitar. Por que
apagar o acento agudo de idéia, ou de jibóia,
ou de prosopopéia? Será que a unificação
da língua portuguesa passa por aí? E a
prosódia? Acham os senhores reformadores que
a eliminação de acentos vai alterar o
acento dos povos que falam a língua portuguesa?
Será que é apenas pela escrita, ou exclusivamente
pela escrita, que a unidade de uma língua se
estabelece? E a fala, com o timbre peculiar de cada
um, onde fica? E a construção da frase?
Na minha ignorância de simples usuário,
acho que a unidade de uma língua não se
alcança por uma única via.
Quanto a nós,
brasileiros, em matéria de reforma seria mais
proveitoso se ensinássemos aos que querem aprender,
inclusive, e principalmente, aos telenoticiaristas e
aos locutores de rádio, que a pronúncia
correta, em português, é re(cór)de,
não (ré)corde; (dó)lo, não
(dô)lo; maquinar(í)a, não maqui(ná)ria.
Que o certo é dizer-se o(bé)so, não
o(bê)so, i(lé)so, não i(lê)so,
e que o timbre do nome da letra "e" é
aberto (v. o "Aurélio" ou o "Houaiss",
os dicionários), não fechado (ê),
como o pessoal do rádio e da TV - começou
com fu(tê)bol - costuma dizer, copiando o que
São Paulo tem de ruim, que é a prosódia,
digamos, caipira.
Sou favorável
a reformas, incluindo as políticas, mas confesso
que as temo, principalmente as políticas. Às
vezes, como diz o ditado, a emenda é pior do
que o soneto. No caso da reforma ortográfica,
meu temor é que a última flor do Lácio
continue inculta, como achava o poeta, mas perca a beleza...
Matéria
extraída do Jornal O Globo, de 6 de
junho de 2008.
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