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Última flor do Lácio


Por: Augusto Marzagão


Quando aprendi a ler e escrever, farmácia já não era com ph, mas o alfabeto tinha 26 letras e em saudade, para os nostálgicos, havia duas lágrimas sobre o ü, embora não houvesse.

Naquele tempo, tínhamos aula de leitura pelo menos uma vez por semana, o que fazíamos em livros intitulados "Páginas floridas", "Páginas seletas", "Antologia nacional", "Antologia F.T.D." e numa tal "Crestomatia", que a professora nunca disse o que significava. Anos mais tarde, já ensaiando os primeiros passos do jornalismo, desvendei o significado da palavra cabalística. Decepção. "Crestomatia" nada mais era do que um sinônimo pernóstico de antologia...

Esse preâmbulo vem a propósito da reforma ortográfica pela qual tanto se bateu o nosso múltiplo e multiplicador José Aparecido de Oliveira, de saudosíssima memória para quantos o conheceram. É claro, não nego que me falta autoridade para discutir o assunto. Sou leigo. Ou melhor: sou um simples usuário, com a única vantagem de ter passado, ao longo da vida, por pelo menos quatro reformas ortográficas. Vi saudade enxugar as falsas lágrimas, o alfabeto perder três letras, chícara virar xícara, o acento grave ficar circunscrito ao "à" dito craseado, e o "c" que havia em cará(c)ter ser abolido da escrita brasileira, como abolido foi o próprio em certos cenários nacionais nossos conhecidos.

Não sou anti-reformista, ou antirreformista, como será correto escrever-se a partir de 2010. Considero-me um cidadão integrado à modernidade, e o cidadão moderno deve ser afeiçoado a reformas, mesmo as que lhe pareçam extemporâneas. Mas, para ser sincero, não encontro a decantada precisão nessa "mexida" na ortografia da língua portuguesa. Não nego que haja no seu bojo algumas boas medidas, como as que concernem ao emprego do hífen, hoje uma pedra no caminho (com licença de Drummond) de quem tem na escrita seu meio de subsistência. Outras, porém, diria mesmo que a maioria, me parecem, do meu ponto de vista de usuário, sem o menor propósito, confusas, inclusive, em razão das exceções que admitem, ou das dúvidas prosódicas que irão suscitar. Por que apagar o acento agudo de idéia, ou de jibóia, ou de prosopopéia? Será que a unificação da língua portuguesa passa por aí? E a prosódia? Acham os senhores reformadores que a eliminação de acentos vai alterar o acento dos povos que falam a língua portuguesa? Será que é apenas pela escrita, ou exclusivamente pela escrita, que a unidade de uma língua se estabelece? E a fala, com o timbre peculiar de cada um, onde fica? E a construção da frase? Na minha ignorância de simples usuário, acho que a unidade de uma língua não se alcança por uma única via.

Quanto a nós, brasileiros, em matéria de reforma seria mais proveitoso se ensinássemos aos que querem aprender, inclusive, e principalmente, aos telenoticiaristas e aos locutores de rádio, que a pronúncia correta, em português, é re(cór)de, não (ré)corde; (dó)lo, não (dô)lo; maquinar(í)a, não maqui(ná)ria. Que o certo é dizer-se o(bé)so, não o(bê)so, i(lé)so, não i(lê)so, e que o timbre do nome da letra "e" é aberto (v. o "Aurélio" ou o "Houaiss", os dicionários), não fechado (ê), como o pessoal do rádio e da TV - começou com fu(tê)bol - costuma dizer, copiando o que São Paulo tem de ruim, que é a prosódia, digamos, caipira.

Sou favorável a reformas, incluindo as políticas, mas confesso que as temo, principalmente as políticas. Às vezes, como diz o ditado, a emenda é pior do que o soneto. No caso da reforma ortográfica, meu temor é que a última flor do Lácio continue inculta, como achava o poeta, mas perca a beleza...

 

Matéria extraída do Jornal O Globo, de 6 de junho de 2008.


 

 

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