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Mulheres, quais são os nossos direitos?


Por: Zulma Maria Firmes Peixoto


A conquista de direitos pelas mulheres constituiu-se num longo processo de marchas e contramarchas, do qual inúmeras foram aquelas que participaram, na maioria, anônimas. Depois de muitas lutas contra a discriminação que sempre existiu nas áreas que até bem pouco tempo eram consideradas como privilégios apenas dos homens, um dos movimentos, porém, desenvolvido numa conjuntura favorável, entre 1919 e os anos 1930, sob a liderança de Bertha Lutz, conseguiu assegurar às mulheres o reconhecimento de muitas das suas reivindicações.

Nesse sentido, pretendo trazer à tona a atuação dessas mulheres que, em meio a preconceitos nos mais diversos âmbitos, transgredindo inúmeras regras, mas também persistindo, encaminharam a sua luta a fim de obter o acesso à cidadania, permitindo-lhes alcançar sua plena condição humana por meio da ação política, da qual eram violentamente excluídas. “Da cultura do próprio tempo e da própria classe não se sai a não ser para entrar no delírio e na ausência de comunicação”.

Seguimos caminhando na nossa luta mesmo com os entraves do dia-a-dia e hoje somos 33 milhões de mulheres participando do mercado de trabalho (entre 1990 e 2004). Um recente estudo da OIT (Organização Internacional do Trabalho) sobre os progressos da participação das mulheres na força do trabalho mostram resultados ambíguos em termos de acesso a empregos de qualidade, remuneração e proteção social. Mas o estudo também destaca algumas tendências positivas no mercado de trabalho latino-americano. As mulheres agora representam cerca de 40% da população economicamente ativa nas áreas urbanas da América Latina. A taxa de participação feminina cresceu 39% em 1990 para 44,7% em 2002, enquanto a taxa masculina se manteve mais ou menos estável, em cerca de 74%. Por outro lado, as taxas de participação feminina na América Latina continuam muito baixas em comparação aos países da Comunidade Européia onde, em 2001, variavam entre 62,1% na França e, 72,5% nos Estados Unidos. Essas taxas variam enormemente de um país para outro na América Latina; entre 42% no Chile e 58% na Guatemala. O estudo atribuiu a boa participação feminina no mercado de trabalho à melhor escolaridade, ao crescimento urbano, ao declínio nas taxas de fertilidade e aos novos padrões culturais que favorecem a autonomia das mulheres. Um aumento substancial no número de mulheres chefe de família, que varia de 19 a 31%, dependendo do país, também influíram.

A privatização de serviços públicos e os novos padrões de consumo criaram uma necessidade de maior renda e um aumento no número de contribuidores, para cada domicílio. As repetidas crises econômicas têm acentuado a tendência para balancear o crescimento do desemprego masculino e a queda no rendimento real (Ginzburg, Carlo. 1994). Porém, como bem acrescenta Michel de Certeau, há que se considerar a flexibilidade da “jaula”, representada pela cultura, possibilitando aos agentes sociais o exercício de uma relativa liberdade, conforme a articulação que estabeleçam dos elementos historicamente à sua disposição. Nessa perspectiva, vislumbra-se uma margem de autonomia para que os sujeitos busquem modificar a história segundo seus desejos, para analisar o movimento liderado por Bertha Lutz entre 1919 e 1937, que assegurou às mulheres o reconhecimento de inúmeros direitos.

Apesar das novas oportunidades de trabalho em zonas de exportação e na economia informal, a maior parte de crescimento feminino deriva do rápido aumento nos empregos em áreas onde a maioria delas já trabalha especialmente no setor de serviços. Por outro lado, as mulheres de menor renda familiar ainda têm um longo caminho a seguir, antes que possam ser consideradas completamente integradas ao mercado de trabalho. Uma das razões por que tantas mulheres estão empregadas no serviço doméstico é precisamente pelo fato de que as mulheres de classe média e de alta renda familiar terem entrado no mercado de trabalho. Em outras palavras, muitas mulheres pobres só encontram trabalho remunerado trabalhando para as que ganham mais, conclui o estudo da OIT.

Cerca de metade das mulheres empregadas na América Latina em 2003 estavam no setor informal. A desigualdade de gênero, juntamente com a discriminação étnica, é comum: grande número de mulheres de origem negra enfrenta ainda até hoje, desvantagens e várias formas de exclusão no mercado de trabalho. Na verdade, Bertha e suas companheiras deram prosseguimento a reivindicações que vinham se manifestando com mais força, desde 1930, a partir do protesto de Nísia Floresta, da qual inúmeras foram aquelas que participaram na maioria anônimas clamavam muitas mulheres por uma educação equilibrada, comum aos dois sexos, permitindo o amplo acesso às atividades profissionais; direito de voto e de elegibilidade e igualdade civil. Não faltaram aquelas que, corajosamente, questionaram a questão da desigualdade que enfrentavam no mercado de trabalho. As diferenças de rendimento entre homens e mulheres são particularmente evidentes no setor informal, onde as mulheres recebem pouca coisa mais do que a metade da renda dos homens. O estudo afirma que, mesmo o setor formal da economia, a renda mensal de mulheres chega a somente a 75% da masculina. As diferenças de renda entre os sexos na América Latina são maiores do que em outras regiões do mundo, isso sem contar o preconceito masculino em relação às profissões em que os mesmos acreditam ser um espaço somente deles, como destaca FERRERO (1896).

As lutas foram muitas, afinal, os médicos com seu domínio do conhecimento científico afirmavam que a mulher foi formada para sentir como o homem foi criado para pensar e “aquelas que têm apresentado uma inteligência superior, tem sido à custa de suas qualidades femininas”. Doenças, comportamento inadequado, esterilidade, degeneração racial eram alguns dos perigos decorrentes da inversão deste principio, inclusive porque do desenvolvimento do cérebro feminino resultava a atrofia do útero.

Autoridades, políticos em geral, juristas, negam-se a considerar positivamente as pretensões da autonomia feminina. Respaldam-se na ciência da época, sinônimo, naquele momento, de verdade absoluta. Apelando para tais convicções e para os prejuízos acarretados à família, já que esta era vista como o seu espaço prioritário, buscando delimitar as ações das mulheres, naturalizando determinações históricas e socialmente estabelecidas. Também, através de peças teatrais, de crônicas, caricaturas, e por diversas matérias na imprensa, observam-se a oposição ao seu atendimento, inclusive, por meio da ridicularização das militantes.

A igualdade entre as mulheres e os homens corresponde à ausência de assimetrias entre umas e outros e em todos os indicadores relativos à organização social, ao exercício de direitos e de responsabilidades, à autonomia individual e ao bem-estar. É inerente ao gênero humano o fato de homens e mulheres constituírem as duas metades da humanidade. Pressupõe o reconhecimento do igual valor social das mulheres e dos homens e do respectivo estatuto na sociedade. Implicando na participação equilibrada de homens e mulheres em todas as esferas da vida, incluindo a participação econômica, política, social e na vida familiar, sem interditos nem barreiras em razão do sexo.

Este conceito sublinha a liberdade que todos os seres humanos têm de desenvolver as suas capacidades e de fazer as suas escolhas sem as limitações impostas pelos papeis sociais de gênero e considera, valoriza e trata os comportamentos, aspirações e necessidades das mulheres e dos homens de igual forma. Direitos, estatutos e dignidade hierarquizados entre homens e mulheres, seja no nível das leis, seja no nível dos fatos, resulta em assimetria nos indicadores sociais entre a situação das mulheres e dos homens, tanto na esfera pública como na esfera privada.

Zulma Maria Firmes Peixoto é pedagoga e faz curso de Pesquisas Científicas no Núcleo de Investigação de Pesquisas Avançadas - NIAC.

Para acessar o trabalho completo que deu origem a este artigo, clique aqui

 

 

 

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