1. INTRODUÇÃO
Dos conceitos e questões mais relevantes para
a constituição das idéias lingüísticas
e filosóficas de Noam Chomsky, a idéia
do aspecto criativo da linguagem está entre as
mais importantes para a defesa epistemológica
da proposta de Gramática Universal, uma das bases
fundamentais de sua teoria da linguagem.
Neste trabalho, pretendo avaliar o conceito de aspecto
criador da linguagem em Chomsky (especialmente, em Chomsky
(1972) – Tradução de Cartesian Linguistics,
daqui em diante apenas CL, Chomsky (1965) – Aspects
of the theory of syntax, daqui em diante apenas Aspects),
e nos textos de autores citados por Chomsky (especialmente
em CL) para fundamentar sua breve história dos
conceitos fundamentais de uma chamada Lingüística
Cartesiana, quanto de autores não citados diretamente
por Chomsky, mas que constituem parte importante da
discussão acerca dos conceitos de criatividade
na linguagem do ponto de vista sistêmico (como,
por exemplo, a discussão feita por Carlos Franchi).
2. CHOMSKY E A CRIATIVIDADE
LINGÜÍSTICA
A própria idéia de gerativismo, implícita
na maneira como a gramática de uma língua
proposta inicialmente por Chomsky como fundamentada
em um sistema de regras recursivas capazes de gerar
sentenças nunca antes proferidas, baseia-se,
indiretamente, na noção de aspecto criativo
da linguagem. No entanto, para a teoria gerativa desde
suas primeiras formulações (cf. Chomsky,
1957 e 1965, por exemplo), a idéia de poder gerativo
baseia-se em definições formais de funções
recursivas que
permitem que certas regras sintagmáticas livres-de-contexto,
por exemplo, associem
categorias e itens lexicais de modo a construir outras
categorias. Uma gramática de estrutura sintagmática
elementar, como as de Syntactic Structures (1957), por
exemplo, poderia ser escrita mais ou menos como se segue:
a. S -> SN SV
b. SN -> DET N
c. SN -> N
d. SV -> V SN
e. SN -> SN SP
f. SP -> PREP SN
g. N -> menino, menina, bolo
h. V -> vê, ama, come
i. PREP -> do, da
j. DET -> o, a
Embora a gramática de estrutura sintagmática
exemplificada acima seja trivial e muito diferente do
que propõem as versões mais recentes das
teorias gerativas (cf., por exemplo, as teorias de Regência
e Ligação / Princípios e Parâmetros
(Chomsky, 1981) e o Programa Minimalista (Chomsky, 1995),
ela já serve para nos mostrar algumas características
das tentativas de formalização de regras
internalizadas de que os falantes disporiam para interpretar
e produzir sentenças de acordo com a gramática
de sua língua, que seria, por sua vez, o estágio
final do desenvolvimento da Gramática Universal,
geneticamente inscrita em todos os seres humanos normais.
Isso se percebe, por exemplo, a partir da constatação
de que o conjunto de regras sintagmáticas como
as acima poderia ser aumentado bastante, para dar conta
das muitas possibilidades de estruturas sintáticas
disponíveis em português, e de que o conjunto
de itens lexicais que compõem as regras de reescritura
de (g) a (j) poderiam incluir todos os itens possíveis
do léxico da língua. No entanto, mesmo
com uma gramática de um fragmento quase ínfimo
da língua como a esboçada acima, já
é possível perceber que, a partir de recursos
finitos (seis regras de estrutura sintagmática
e quatro regras de elementos terminais que incluem um
número limitado de itens lexicais), o número
de possíveis sentenças (embora semanticamente
pouco criativas e até mesmo implausíveis)
é bastante grande, como percebemos nos exemplos
de sentenças geráveis abaixo:
(1) O menino ama a menina.
(2) O menino ama a menina do bolo.
(3) O menino come o bolo da menina.
(4) O menino da menina come o bolo da menina do menino.
Desconsiderando as restrições que impeçam
a geração de sentenças como “O
menina come a bolo da menino” (o que não
proponho que seja a posição das teorias
chomskianas), temos a clara percepção
de que certas regras são responsáveis
pela possibilidade de recursividade, o que permite que,
caso seja necessário, uma língua possa
gerar categorias que apresentam a mesma categoria dentro
de si, e assim por diante. Veríamos um exemplo
simples disso, em uma sentença como “O
menino ama a menina do bolo do menino”, em que
o SN objeto contém outros SNs (via regra (e),
que permite a recursividade, ainda que de modo bastante
primitivo), de forma que, seguindo as regras disponíveis,
é possível ampliar o tamanho do SN supostamente
indefinidamente.
Deixando de lado as questões técnicas
envolvidas na postulação de regras desse
tipo como parte do componente-base de uma gramática
gerativa efetiva, o interesse desse trabalho é,
ao contrário, apresentar algumas posições
de Chomsky, principalmente em CL, que mostram um interesse
em basear parte de suas afirmações teóricas
na questão relevante de que o que constitui uma
diferença fundamental entre homens e animais
e/ou autômatos é esse tipo de capacidade
criativa. O interesse de Chomsky, como poderemos ver
por algumas das análises que faz da tradição
prévia concernente a questões ligadas
a essa discussão, é, em grande parte,
combater a visão behaviorista/empirista fortemente
arraigada nas linhas de pensamento sobre a linguagem
predominantes desde o nascimento da lingüística
como ciência, na virada do séc. XVII para
o XIX (cf. Robins, 1983, Lyons, 1967 e Chomsky, 1972,
entre outros).
Para as correntes lingüísticas de bases
mais fortemente empiristas como, por exemplo, o estruturalismo
norte-americano, a língua poderia ser entendida
como resultante de uma série de estímulos
condicionantes, de forma que o comportamento lingüístico
fosse redutível a uma visão quase que
ligada a treinamento lingüístico. Para Bloomfield
(apud Chomsky, 1972: 23), por exemplo, a capacidade
criativa não passa de capacidade para produzir
novas formas a partir do mecanismo de analogia. Skinner
argumentou que a capacidade da linguagem era inteiramente
explicável através de sua teoria baseada
em comportamentos condicionados através de estímulos,
e Chomsky (1959), resenhando seu trabalho, mostrou que
não há como entender a linguagem humana
dessa forma. A posição chomskiana sobre
a impossibilidade de explicar a linguagem humana a partir
de moldes puramente empiristas e behavioristas deriva
de um dos postulados mais importantes de sua teoria:
a Gramática Universal é parcialmente inata
e específica da espécie humana, e o que
nos permite sustentar essa hipótese é,
em grande parte, a incapacidade que teríamos
de explicar como todos os falantes normais das línguas
naturais atingem o estágio maduro de suas línguas
durante um pequeno período de exposição
a dados fragmentários, incompletos e inconsistentes.
No entanto, é exatamente esse argumento, chamado
argumento da pobreza de estímulo, que
corrobora a hipótese de que só uma teoria
de bases inatas, como a da gramática gerativa,
poderia dar conta adequadamente dos procedimentos de
aquisição de linguagem.
Dessa forma, Chomsky e os gerativistas vêm rebatendo
todos os argumentos em favor de hipóteses não-inatistas
de aquisição de linguagem (cf. os debates
entre Scholtz & Pullum, 2002, Pullum & Scholtz,
2002, Crain & Pietroski, 2002, Lasnik & Uriagereka,
2002, e o debate entre Chomsky, Piaget e outros, transcrito
em Piatelli- Palmarini (1983), por exemplo), mostrando
que uma vez formada a gramática em seu
estágio final/maduro, através de exposição
inconsistente a dados inconsistentes, o falante é
capaz de compreender e produzir quaisquer e somente
as sentenças de sua língua, jamais violando
princípios gerais, universalmente estabelecidos,
que regulam as gramáticas das línguas
naturais.
Defender o inatismo significa adotar concomitantemente
algumas posições teóricas, entre
elas: as explicações meramente comportamentalistas
ou sociais para a aquisição da linguagem
são descartadas ou tornadas implausíveis
e surge a necessidade de se teorizar a respeito das
características universais das gramáticas
internalizadas dos falantes de todas as línguas.
Dessa forma, a gramática gerativa propõe
o estudo científico da competência lingüística
dos falantes, e se afasta, por isso, das teorias positivistas
empiristas como as dos behavioristas ou as estruturalistas.
É por isso que uma tentativa de resgatar a história
do conceito de criatividade lingüística
é tão importante para Chomsky: ele se
encaixa numa vertente racionalista do pensamento sobre
a linguagem, e o aspecto criativo se relaciona com a
busca pela cientificidade formal/matemática que
nega a possibilidade de pesquisa baseada apenas nas
generalizações indutivas, como faziam
lingüistas importantes do período em que
Chomsky começa a desenvolver suas teorias, como
Bloomfield.
Se o projeto cartesiano/racionalista defende a posição
de que há universais inatos na espécie
humana, nada mais natural que procurar explicar aquele
que nos parece mais óbvio: falamos línguas
diferentes na superfície, mas que se organizam
fundamentalmente da mesma forma. Podemos encontrar na
tradição ocidental do pensamento sobre
a linguagem, em diversos momentos, gramáticos
e filósofos defendendo a postura de que todas
as línguas compartilham características
comuns,
como defenderam os Gramáticos Especulativos medievais,
os gramáticos de Port-Royal, e alguns pensadores
pós-renascentistas, como Herder e Humboldt. As
tradições empiristas e positivistas emergentes
no século XIX afastaram o interesse dos cientistas
da linguagem de questões como o universalismo,
mas a teoria gerativa traz de volta a questão
agora numa posição fundamental para uma
teoria séria e que se proponha a dar conta satisfatoriamente
das questões da linguagem, e não apenas
a descrever o funcionamento superficial e, em termos
chomskianos, epifenomenal das línguas particulares.
3. A CRIATIVIDADE LINGÜÍSTICA
NA HISTÓRIA DE CHOMSKY (1972)
Passemos a uma investigação
da leitura que Chomsky faz das questões do aspecto
criativo da linguagem. CL inicia-se com um capítulo
sobre essa questão, no qual Chomsky cita Descartes
em poucos momentos de sua obra nos quais fala sobre
questões da linguagem. Segundo Descartes (apud
Chomsky, 1972: 14):
é um fato muito notável que não
há homens tão embotados e estúpidos,
sem mesmo excluir os dementes, que não sejam
capazes de arrumar várias palavras juntas, formando
com elas uma proposição pela qual dão
a entender seus pensamentos; enquanto, por outro lado,
não há outro animal, por mais perfeito
e afortunadamente construído que seja, que faça
a mesma coisa.
Esse trecho citado de Descartes resume a argumentação
encontrada na literatura a respeito do que constitui
o que chamamos de língua/linguagem humana e que
nos separa radicalmente dos animais ou das possíveis
máquinas que produzem instâncias de linguagem
ou traduzem de uma língua para outra. Os animais
que “falam”, segundo pesquisas psicológicas
em que chimpanzés são ensinados a falar
ou que demonstram que certos tipos de animais possuem
algum grau de capacidade de comunicação,
não são capazes de organizar sua fala
de modo a estruturar o pensamento ou “criar”
como fazem os humanos. Assim, para Chomsky,
o homem tem uma faculdade, peculiar à espécie,
um tipo único de organização intelectual,
que não pode ser atribuído a órgãos
periféricos ou relacionados à inteligência
geral e se manifesta naquilo que podemos designar como
“aspecto criador” do uso ordinário
da língua, tendo a propriedade de ser ao mesmo
tempo ilimitada em extensão e livre de estímulos.
(Chomsky, ibidem)
Para Chomky, identificar em Descartes parte da origem
da noção de aspecto criativo faz parte
de uma argumentação filosófica
intrincada que busca fundamentação epistemológica
e histórica para parte de seu conjunto de postulados
básicos para uma teoria da linguagem que, durante
os anos 50 e 60, em que as primeiras versões
da teoria formaram-se (e a primeira edição
de CL data de 1966), tentava se estabelecer em meio
a teorias estruturalistas amplamente disseminadas e,
como vimos, de cunho basicamente positivista. (cf. Joseph,
Love & Taylor, 2001 para uma breve história
da lingüística no século XX)
Chomsky diferencia-se radicalmente de Descartes em suas
posições quanto à natureza da linguagem,
e defende que, ao se considerar a Gramática Universal
como
parte da dotação genética do homem,
a linguagem seja, portanto, eminentemente de natureza
biológica. Descartes fala do aspecto criativo
da linguagem, em linhas gerais, para refutar uma visão
mecanicista radical e para propor a existência
do espírito como entidade responsável
pelas capacidades racionais humanas. Ou seja, Chomsky
está longe de propor uma teoria epistemológica
racionalista clássica, e a busca apenas na medida
em que suas teorias sobre linguagem e mente precisam
pressupor um afastamento radical das posições
mecanicistas/behavioristas que não dão
conta de explicar, através de atividades repetitivas
e experiências abundantes, como preenchemos nossa
suposta tabula rasa com tanta informação
a partir de estímulo tão escasso.
O próximo cartesiano que Chomsky cita é
o filósofo Géraud de Cordemoy (1626-1684),
que, em seu trabalho Discours physique de la parole
(1668), antecipa grande parte da filosofia da linguagem
contemporânea com idéias como a seguinte:
(...) toda a razão que temos para acreditar
que há espíritos unidos aos corpos dos
homens que nos falam é que nos dão muitas
vezes pensamentos novos, que não tínhamos,
ou nos obrigam a modificar os que tínhamos (...)
(Chomsky, idem, p. 19)
Além de apresentar-se defensor do aspecto criativo
da linguagem, Cordemoy, com esse trecho, lembra-nos
de grande parte das discussões contemporâneas
sobre a questão da intersubjetividade e da língua
como atividade constitutiva (cf., por exemplo, Franchi,
2002 e Tyler, 1978).
Em seguida, Chomsky menciona o premiado Ensaio sobre
a Origem da Linguagem (1772), de Johann Gottfried
Herder, que, durante a efervescência do debate
sobre a origem da língua no séc. XVIII,
teria sido uma posição tão bem-acabada
da proposta que teria sido vista ao longo dos séculos
posteriores como uma espécie de “última
palavra” sobre o assunto (cf. Robins, 1983). A
utilização de Herder e Wilhelm Von Humboldt
nessa espécie de “arqueologia” da
gramática racionalista/cartesiana de Chomsky
mereceriam todo um trabalho à parte, uma vez
que, aparentemente, os trabalhos dos românticos
alemães não são tão claramente
identificáveis como fonte de um universalismo
racionalista, e, muitas vezes, beiram o relativismo
antropologizante do olhar para o particular como expressão
do local, do nacional, do subjetivo (cf. Harris &
Taylor, 1994 e Gonçalves, 2006).
Então, Chomsky lê Herder da seguinte maneira
(idem, p. 25):
Sendo livre para refletir e contemplar, o homem
é capaz de observar, comparar, distinguir propriedades
essenciais, identificar e dar nomes. É nesse
sentido que a linguagem (e a descoberta da linguagem)
é natural no homem, que “o homem foi criado
como ser falante”. De um lado, Herder observa
que o homem não tem linguagem inata, o homem
não fala por natureza. De outro lado, a linguagem,
no seu modo de ver, é tão especificamente
um produto da organização intelectual
particular do homem, que é capaz de afirmar:
“pudesse eu reunir todos os fios e mostrar o conjunto
do tecido que se chama natureza humana, infalivelmente
seria um tecido criado para a linguagem”.
Para Chomsky, a explicação de razão
de Herder difere da de Descartes basicamente no que
diz respeito ao fato de que, para o alemão, esta
relaciona-se com estar-se livre do controle de estímulos,
de forma a enfraquecer o instinto humano.
Para Schlegel, também arrolado por Chomsky em
sua listagem de ancestrais intelectuais, a linguagem
é “a mais maravilhosa criação
da faculdade poética humana” (idem, p.
27). Assim, como afirmávamos acima, Chomsky utiliza-se,
em sua resenha, de autores que claramente misturam a
noção tradicional de criatividade com
a que ele identifica como aspecto criativo da linguagem.
A discussão de Schlegel diz respeito muito mais
ao fazer poético que constitui parte da capacidade
criativa dos seres humanos que interessava aos românticos
do que propriamente a uma história das noções
que possam ajudar a corroborar as hipóteses inatistas/gerativistas.
Finalmente, a discussão de Chomsky sobre o aspecto
criativo da linguagem chega na figura do filósofo,
lingüista e humanista Wilhelm von Humboldt, que,
em sua Introdução ao Kawi (obra na qual
delineia os princípios epistemológicos
e teóricos de suas análises descritivas
de várias línguas de várias regiões
– nesse caso a língua Kawi, da Ilha de
Java), estabelece uma série de conceitos fundamentais
para a discussão sobre língua e aspecto
criativo. Humboldt lança mão de conceitos
como energeia (atividade/processo) em oposição
a ergon (produto, ato), defendendo que a linguagem
é energeia, e não apenas produto estático
resultante de trabalho anterior. Estabelece a idéia
de que a língua não é algo dado,
pronto, da qual os homens fazem uso para se comunicarem.
Antes disso, a língua é algo que está
em processo, ela é, pois “o trabalho do
espírito, que se repete constantemente para tornar
possível que o som articulado expresse o pensamento”.
(Humboldt, apud Chomsky, idem, p.
30).
O aspecto criativo da linguagem como definido por Humboldt
é formulado em termos que lembram muito os utilizados
por Chomsky em suas obras, e é transcrito por
Chomsky da seguinte forma: “[A língua]
deve portanto fazer com meios finitos um uso
infinito, e só consegue isso porque a força
criadora das idéias e da linguagem é a
mesma.”
Embora Chomsky liste Humboldt como influência
importantíssima no desenvolvimento de suas idéias,
há uma aparente contradição entre
uma visão da língua como a que se apresenta
acima por Humboldt e a visão chomskiana de aspecto
criativo como um dos pontos de partida para as hipóteses
gerativas/universalistas. Isso porque, segundo Chomsky
(idem, p. 32):
[Para Humboldt], de modo mais geral, uma língua
humana, como totalidade orgânica, interpõe-se
entre o homem e “a natureza interna e externa
que atua sobre ele”. Embora as línguas
tenham propriedades universais, atribuíveis à
mentalidade humana enquanto tal, cada língua
oferece um “mundo de pensamento” e um ponto
de vista de tipo único. Ao atribuir este papel
na determinação dos processos mentais
às línguas individuais, Humboldt separase
radicalmente do quadro da lingüística cartesiana,
evidentemente, e adota um ponto de vista que é
mais tipicamente romântico.
Chomsky refere-se, aqui, ao que se costuma afirmar sobre
Humboldt: que ele defende um tipo de relativismo lingüístico,
ou seja, a posição que diz que as línguas
são inerentemente diferentes e que, de certa
maneira, essa diferença é responsável
por diferenças na nossa maneira de lidar com
a realidade e com as nossas experiências (cf.,
por exemplo, Gumperz & Levinson, 1996 e Gonçalves,
2006). No entanto, Chomsky defende que a visão
de Humboldt é “cartesiana” no sentido
em que seus conceitos de língua como processo
e não como produto e língua primordialmente
como meio de expressão do pensamento, ao invés
de mero sistema funcional que possibilitaria a comunicação,
permitem que ele seja categorizado como tal. Na verdade,
o pensamento de Humboldt apresenta-se muitas vezes de
forma aparentemente paradoxal, de modo que talvez seja
possível afirmar sobre ele que ele procura uma
curiosa posição intermediária entre
o universalismo cartesiano e o empirismo particularista
característico de uma posição romântica.
A posição resultante é bastante
moderna:
O ser humano convive com os objetos principalmente,
ou melhor, exclusivamente assim como a língua
lhos introduz, devido ao fato de que o sentir e o agir
nele dependem de suas idéias. Pelo mesmo ato
pelo qual ele tece a língua para fora de si,
ele se enreda e isola no tecido da mesma e cada língua
desenha um círculo ao redor do povo ao qual pertence,
do qual ele consegue sair apenas na medida em que se
passa simultaneamente para o círculo de uma outra
língua. O aprendizado de uma língua estrangeira,
por isso, deveria ser a conquista de um novo ponto de
vista na maneira anterior de ver o mundo, e de fato
o é até certo grau, pois cada língua
contém toda a teia de conceitos e o ideário
de uma parte da humanidade. Este resultado apenas não
é sentido de maneira pura e completa porque a
própria visão do mundo e da língua
é sempre transferida para a língua estrangeira,
em maior ou menor grau. (Humboldt, Natureza e Constituição
da Língua em Geral, in Heidermann, 2006, grifo
meu)
A posição
relativista é marcante nesse trecho, uma vez
que fica clara a relação que a língua
específica tem com a maneira que nossa realidade
se constitui. A transferência de visão
de mundo que a passagem de uma língua para outra
apresenta tem implicações muito sérias
para as questões ligadas à lingüística,
teoria da tradução e até mesmo
teoria literária, mas o que realmente interessa
é a visão do conjunto de ideário
e conceitos que podemos, segundo Humboldt, vislumbrar
em uma língua específica, o que nos daria,
dada a soma das línguas, a soma dos conceitos
e idéias possíveis. Na passagem abaixo,
levamos essa questão ao extremo da relação
entre essas óticas parciais que as “lentes”
de nossas línguas nos propiciam e o aspecto criativo.
A linguagem é, portanto, se não como
um todo, pelo menos sensivelmente o meio, através
do qual o homem constrói a si mesmo e ao mundo,
ou melhor, através do qual se torna consciente,
compreendendo-se como consciência apartada do
mundo. (Humboldt, Carta a Schiller, in Heidermann, 2006).
A capacidade criativa da língua é, portanto,
levada às últimas conseqüências,
e esclarece o que Chomsky quer dizer quando inscreve
Humboldt em sua tradição cartesiana: a
linguagem é, de certa forma, não só
veículo do pensamento, mas também algo
que possibilita o pensamento, de forma circular,
ou, ainda, quase paradoxal. Assim, o relativismo aparentemente
radical o suficiente para apartar Humboldt da tradição
universalista contrasta com uma visão profundamente
aguda da natureza da linguagem, como a que vemos abaixo:
Através da dependência recíproca
do pensamento e da palavra uma em relação
com a outra fica evidente que as línguas na verdade
não são meios para a representação
da verdade conhecida, mas sim muito mais para a descoberta
do anteriormente desconhecido. A sua diferença
não reside nas ressonâncias e sinais, mas
na diferença de concepção de mundo
mesma. Aqui se encerra o motivo e o último objetivo
de toda pesquisa lingüística. A soma do
que é cognoscível fica, como um campo
a ser trabalhado pelo espírito humano, num ponto
médio entre todas as línguas, e independente
delas. (Humboldt, Sobre o estudo comparado das línguas
em relação com as diferentes épocas
do desenvolvimento lingüístico, in Heidermann,
2006)
4. DESENVOLVIMENTOS POSTERIORES
Ao deixarmos de lado o fio condutor da resenha chomskiana
e olharmos para desenvolvimentos posteriores de sua
maneira de cavar na tradição ocidental
antecessores intelectuais para suas teorias, deparamos
com o trabalho de Carlos Franchi, que procura separar
a noção de criatividade lingüística
no que ele chama de “sentido mais amplo”
com relação àquela criatividade
chomskiana, puramente formal, de funções
recursivas, como aquela que ilustrávamos no início
do trabalho. Retomando Humboldt e Chomsky, Franchi (2002)
sintetiza a questão de linguagem como atividade
criativa/constitutivada seguinte maneira:
A linguagem não é somente o instrumento
da inserção justa do homem entre os outros;
é também o instrumento da intervenção
e da dialética entre cada um de nós e
o mundo. Dizer isso nos lembra Chomsky (pelo menos em
parte): a linguagem não é
esse sistema de caráter aberto, público,
universal, porque se adapta à multiplicidade
das situações comunicativas; ela é
um sistema aberto e criativo e, por isso, disponível
ao atendimento das necessidades e intenções
das mais variadas condições de comunicação.
A visão de Franchi extrapola de certa forma os
limites da busca pelo conceito de aspecto criativo da
linguagem em Chomsky, uma vez que, para este, tal conceito
serve para mostrar, no fim das contas, que a capacidade
lingüística humana está livre da
influência de estímulos externos e que
não está restrita a usos comunicativos
específicos, de forma a nos dotar de capacidade
de linguagem única entre as espécies,
diferente de qualquer outra possível linguagem
entre seres vivos e máquinas. Enquanto Humboldt
e Franchi, assim como outros lingüistas e filósofos,
avançaram para os domínios de criatividade
enquanto atividade constitutiva não só
da nossa natureza humana, mas também da própria
linguagem, Chomsky utiliza-se da história da
discussão sobre o aspecto criativo da linguagem
como importante instrumento teórico para fundamentar
sua gramática gerativa de base inatista, racionalista
e universalista.
BIBLIOGRAFIA
Rodrigo T. Gonçalves é Professor de Língua
e Literatura Latina da UFPR e doutorando em História
e Filosofia da Lingüística pela mesma instituição.
GONÇALVES, Rodrigo
T. Chomsky e o aspecto criativo da linguagem. Revista
Virtual de Estudos da Linguagem – ReVEL. V. 5,
n. 8, março de 2007. ISSN 1678-8931 [www.revel.inf.br].
Disponível em: <http://www.revel.inf.br/site2007/_pdf/8/artigos/revel
_8_chomsky_e_o%20aspecto%20criativo%20da%20linguagem.pdf>
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