É
sobre a leitura e a compreensão do texto digital
(hipertexto) que se trata este artigo, que é
resultado de uma pesquisa de dissertação
de mestrado. O objetivo foi verificar se há diferença
na compreensão de um mesmo texto em suportes
diferentes - impresso e eletrônico. Teve-se a
intenção de descobrir, por meio de questões
de interpretação, se a compreensão
de um mesmo texto é maior no suporte impresso
ou no suporte digital.
Como se vive em um momento privilegiado, entre o velho
(momento sem computador) e o novo (momento com computador),
os processos cognitivos e o modo de ler também
estão em um momento de transição.
O enfoque da pesquisa justifica-se na medida em que
se tem necessidade de refletir sobre essa transição,
sobre a leitura de hipertextos, sobre os processos mentais
de recepção e compreensão e sobre
a existência e a produtividade da leitura desse
novo suporte de texto. Há uma necessidade crescente
de se conhecer as características e peculiaridades
do hipertexto e do novo modo de ler que ele possibilita,
para, assim, apropriar-se de suas possíveis vantagens.
METODOLOGIA
Para avaliar o processo de recepção e
de compreensão de textos e hipertextos utilizou-se
a metodologia formulada por Tapia e López (2000).
A pesquisa é um estudo de caso exploratório
com características experimentais. Através
da leitura de um mesmo texto em dois suportes diferentes,
impresso e eletrônico, foi feita uma comparação
de compreensão. Foram feitas duas análises
dos resultados: quantitativa e qualitativa. Por se tratar
de uma pesquisa quali-quantitativa, não cabe
um cálculo estatístico. Tratou-se de um
estudo de caso exploratório comparativo, pois
consiste na comparação entre dois enfoques
específicos: avaliação da leitura
e compreensão de um mesmo texto em dois suportes
diferentes - impresso e eletrônico.
Ao avaliar a recepção de textos, segundo
Tapia e López (2000), deve-se procurar saber
se o leitor consegue:
a) Pressupor o tema da leitura e, eventualmente, as
razões que fazem com que o autor use alguns recursos
específicos para expressar-se. Fazer inferências
a partir dos aspectos sintáticos e semânticos
do hipertexto, em especial, perceber se o leitor:
- Representa, adequadamente, a referência temática
do texto.
- Identifica ou não a referência dos pronomes
e das expressões anafóricas.
- Representa, adequadamente, a temporalidade.
- Representa, adequadamente, a modalidade certa, possível
ou provável dos
enunciados.
- Representa, adequadamente, as implicações
dos conectivos ou partículas.
- Identifica o contexto documental.
b) Percebe a estrutura (argumentativa, poética,
narrativa, etc.) que o sujeito
reconhece no texto.
c) Usa estratégias para identificar a informação
importante.
d) Identifica, corretamente, a intenção
comunicativa do autor.
e) Ativa os conhecimentos prévios.
Este trabalho não busca, a partir da análise
quantitativa, fazer generalizações dentro
de um universo mais amplo. O pequeno número de
voluntários que responderam à bateria
CL-4 utilizada não permite expandir o resultado
encontrado.
SUJEITOS DA PESQUISA
A colaboração dos sujeitos foi voluntária.
Participaram da pesquisa trinta leitores voluntários,
alunos do primeiro ano do curso de Letras/Português
e Letras/Português -Espanhol de uma universidade
paranaense. Quinze alunos estão cursando Letras/Português
e os outros quinze alunos estão cursando Letras/Português-
Espanhol.
PROCEDIMENTOS
Os testes foram realizados na própria universidade,
durante uma hora-aula, em 19 de março de 2007.
Os trinta alunos voluntários foram divididos
em dois grupos. Metade dos alunos fez a leitura do texto
em suporte impresso e a outra metade fez a leitura do
mesmo texto, em suporte digital. As questões
de interpretação de texto são padronizadas
e do tipo objetiva. A divisão da sala, o fato
de cada aluno realizar a leitura em um suporte apenas,
impresso ou eletrônico, e o fato de ser o mesmo
texto em dois suportes diferentes baseia-se em pesquisas
similares, como a de Carla Viana Costarelli (2005) na
Universidade Federal de Minas Gerais.
Os testes foram realizados em laboratório, com
o grupo que fez a leitura em suporte eletrônico,
e na sala de aula, com o grupo que fez a leitura em
suporte impresso. Cada participante respondeu às
questões de interpretação e realizou
a atividade em uma carteira ou em um computador individualmente.
Os trinta voluntários levaram, em média,
uma hora-aula, ou seja, quarenta e cinco minutos para
realizar o teste.
Esta pesquisa foi devidamente aprovada pelo Conselho
da universidade paranaen-se e os participantes assinaram
termo de consentimento livre e esclarecido.
INSTRUMENTO DE PESQUISA
O texto de Tapia e López (2000) com oito questões
de interpretação da bateria CL- 4 utilizado
neste trabalho é um texto artificial, visto que
foi criado para uma bateria de testes do Ministério
da Educação da Espanha. Embora se possa
questionar o fato de o teste ter sido elaborado originalmente
para alunos da Espanha, optou-se por adotá-lo
no Brasil em versão portuguesa, por ter sido
elaborado e já testado por equipe de especialistas
em avaliação de leitura, coordenada por
Tapia.
O teste de compreensão de leitura se limitava
ao texto em suporte impresso. Para fins deste estudo,
elaborou-se uma versão do texto em estrutura
hipertextual. Desta forma, o hipertexto constitui-se
numa adaptação do texto de Tapia e López
para utilização em suporte eletrônico,
cujo acesso está disponível em: http://ferpaula.sites.uol.com.br/tatiani/
A recepção e compreensão do texto
que segue foi medida através de questões
objetivas de interpretação. As questões
foram as mesmas para os dois suportes de texto. Segue
o texto e as questões objetivas de interpretação:
"Nós,
os espanhóis, felizmente, não somos racistas.
Temos outros defeitos, mas é sabido de todos
que o racismo não nos afeta em nada, nem um pouquinho.
Por exemplo, um mercado público de Madrid acaba
de contratar guardas particulares para que impeçam
os ciganos de andar pedindo esmola entre as bancas.
Esses homens empenham-se tanto em sua tarefa que não
se limitam a expulsar aqueles garotos pegos em flagrante,
com a mão estendida e a boca aberta, mas, às
vezes, cortam o mal pela raiz, não deixando que
entre no mercado nenhuma pessoa com o tom de pele escura.
Há dias as portas do prédio público
estão abarrotas de mulheres de cor cobre que
assaltam as mulheres de cor branca com um modesto pedido:
por favor, compre-me um frango, senhorita, porque não
me deixam passar para comprá-lo. Mas isto não
tem nada a ver com o racismo: a culpa é dos ciganos,
que, como se sabe, são inoportunos. Tão
inoportunos, tão obcecados e tão cheios
de si que se empenham em desdenhar a sociedade que não
seja a sua, em seguir vivendo mal em cabanas e em manter
uma taxa de analfabetismo de 85%, ao invés de
estudar para serem arquitetos ou de residir em prédios
de luxo. São muito brutos".
Questões de interpretação
As questões objetivas de interpretação
comuns para os dois suportes de leitura são as
seguintes:
1. Qual das afirmações seguintes expressa
melhor a idéia mais importante que o autor quis
transmitir?
a) Nós, os espanhóis, não somos
racistas, somente temos algumas pequenas dife-renças
com os ciganos.
b) Nós, os espanhóis, freqüentemente,
agimos de modo racista em relação àquilo
que damos pouca importância.
c) Nós, os espanhóis, somos racistas,
mas os ciganos o são mais por não quererem
integrar-se, nem estudar.
2. A intenção
principal do autor, neste texto, é:
a) Criticar os espanhóis por seu comportamento,
que é, com freqüência, racista.
b) Chamar a atenção das autoridades para
que vigiem melhor as zonas públicas.
c) Criticar a atitude dos ciganos que se opõem
à integração na sociedade.
3. Em que textos como
este, em que o autor parece sustentar coisas que se
contradizem, a melhor forma de saber o que é
mais importante que o autor nos quer comunicar consiste
em:
a) Fixar-nos na primeira afirmação, na
qual o sentido fica bem claro.
b) Aceitar, como idéia principal, o oposto ao
que se parece defender.
c) Fixarmo-nos nas idéias que estão resumidas
no último parágrafo.
4. A frase: "Temos
outros defeitos, mas é sabido de todos que o
racismo não nos afeta em nada, nem um pouquinho"
significa:
a) Que, no futuro, vamos ter outros defeitos, mas não
esse.
b) Que, efetivamente, temos outros defeitos, mas não
esse.
c) Que, provavelmente, tenhamos outros defeitos, mas
não esse.
5. O texto diz: "por
favor, compre-me um frango, senhorita, porque não
me deixaram passar para comprá-lo". Isto
é dito por:
a) O autor que se envolve no texto.
b) Por uma pessoa de raça cigana.
c) Por qualquer mulher de raça branca.
6. A frase: "esses
homens empenham-se tanto em sua tarefa que não
se limitam a expulsar aqueles pegos em flagrante"
significa:
a) Que expulsavam, cumprindo com seu dever, os que eram
pegos em flagrante.
b) Que não só expulsavam os que eram pegos
em flagrante: além disso...
c) Que tinham muito empenho e expulsavam os que encontravam
roubando.
7. O mais provável
é que o texto proceda:
a) De um livro - texto sobre Ciências Sociais.
b) De um estudo sociológico sobre grupos sociais.
c) De algum artigo escrito em um jornal.
8. No texto, aparecem
as expressões "... não somos racistas",
"o racismo não nos afeta em nada...",
"... mas isto não tem nada a ver com o racismo".
Por que o autor utiliza, em um texto como este, o recurso
chamado reiteração?
a) Porque não é verdade, na opinião
do autor, que os espanhóis não sejam racistas.
b) Para dar mais força à idéia
de que não somos racistas, caso alguém
duvidasse disso.
c) Porque quer desmentir que qualquer coisa que se faça
aos ciganos seja racismo.
MENSURAÇÃO DO DESEMPENHO
Tabela 1- Porcentagem de acertos de compreensão
de leitura nos suportes impres-so e digital.
| Número
da questão |
Acertos no
suporte impresso |
Acertos no
suporte digital |
| 1 |
13,33% |
33,33% |
| 2 |
40% |
53,33% |
| 3 |
46,66% |
53,33% |
| 4 |
33,33% |
13,33% |
| 5 |
86,66% |
93,33% |
| 6 |
73,33% |
73,33% |
| 7 |
40% |
60% |
| 8 |
40% |
73,33% |
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados e a análise apresentados sugerem
algumas respostas, mas também suscitam outras
questões. A comparação das versões
no suporte impresso ou no hipertextual mostra que a
leitura no ambiente impresso é um pouco diferente
da leitura no ambiente digital, conforme já se
havia previsto.
Os resultados obtidos com o teste realizado na universidade
levam à confirmação de que os alunos
que realizaram a leitura no suporte digital, de uma
maneira geral, tiveram um melhor desempenho em relação
aos alunos que realizaram a leitura no suporte impresso.
Ao se comparar os resultados, pode-se constatar que
existem diferenças percentuais 46,66% de compreensão
na leitura do texto no suporte impresso e 56,66% de
compreensão na leitura do texto no suporte digital.
Os resultados encontrados neste trabalho são
corroborados pelos resultados encontrados em testes
realizados por Coscarelli (2005), que realizou experimentos
e percebeu uma vantagem porcentual da leitura no suporte
digital. Porém, entende-se que é muito
difícil provar a superioridade de um ou outro
suporte porque a diferença entre eles não
é tão grande. No caso desta pesquisa,
nos dois suportes, o leitor fez grande esforço
cognitivo e realizou construções de representação
mental dos textos.
A pesquisadora não tem como ter acesso direto
a este processo, dificultando, assim, afirmar que o
suporte influencia na compreensão do texto. O
que se tentou fazer foi avaliar amostras de indicadores
da leitura realizada. É difícil saber
quais elementos estão envolvidos e o grau de
importância deles no momento em que o teste foi
realizado. Seja qual for o instrumento de avaliação,
ele não será perfeito. Há vários
elementos envolvidos: a cognição, o conhecimento
de mundo e o conhecimento lingüístico e
não há como saber onde começa um
e termina o outro.
É complexo definir leitura e compreensão,
porque muitos elementos estão envolvidos, além
de fatores cognitivos individuais, também fatores
externos. O que se pode concluir é que o processo
de leitura e compreensão - no suporte impresso
e digital - envolve autor, texto e leitor e que a interação
leitor/texto é de fundamental importância.
O leitor, através de seu conhecimento lingüístico-textual
e de mundo é que constrói o significado
de um texto.
Mesmo que muitas vezes o modo como o texto é
organizado - no suporte digital ou impresso - influencie
no acesso a determinadas informações,
para Dee Lucas (1996) "não há
uma estrutura melhor para um conjunto de informações,
porque diferentes estruturas são apropriadas
para diferentes aprendizes e objetivos de aprendizagem".
A reflexão sobre o estudo comparativo de leitura
no suporte impresso e no suporte digital faz acreditar
que a leitura hipertextual não traz em si nenhuma
transformação ou característica
inovadora. O hipertexto é um novo formato de
texto, e como todo texto, ele exige o envolvimento,
o conhecimento de suas características, os objetivos
de leitura, a familiaridade com o gênero, o conhecimento
do suporte, o conhecimento do assunto e a motivação.
O que se pode concluir é que a leitura do hipertexto
apresenta potenciais e limitações. O hipertexto
e o espaço digital são ferramentas importantes
para a divulgação de informações
e para a formação de leitores. Com a Internet,
o acesso à pesquisa aumentou, as fontes de informação
se multiplicaram, os custos diminuíram, o armazenamento
de dados está garantido, o tempo e o espaço
também foram diminuídos, os fóruns
e as discussões a longa distância têm
crescido, enfim, o espaço digital favorece a
troca de informações, o debate e a facilidade
de acesso ao conhecimento.
Theodor Nelson (1981) acreditava que a leitura hipertextual
teria um melhor resultado que a leitura do texto impresso,
e no caso do grupo específico analisado aqui,
ele não deixa de ter razão, visto que
o teste realizado demonstrou uma sutil diferença
de porcentagem que favorece a leitura no suporte digital.
Ele pensou assim porque a leitura hipertextual é
capaz de criar conexões entre documentos e estimular
a criatividade. Isso poderia ter acontecido de maneira
potencializada, se os leitores que realizaram o teste
tivessem acesso livre às páginas da Internet,
se eles pudessem criar um ambiente de leitura em que
pudessem fazer anotações, se eles tivessem
a opção de interagir com as informações
lidas, fazendo perguntas, sugerindo informações.
Contudo, devido às limitações de
controle das variáveis, o teste realizado neste
trabalho não possibilitou esses recursos todos.
O controle das variáveis são atitudes
tomadas para que as condições de leitura
dos dois grupos fossem as mesmas e para que nenhum grupo
tivesse vantagem em relação ao outro,
isso tudo, para que o resultado final fosse o mais confiável
possível.
Mesmo com limitações impostas pela situação
de pesquisa experimental e com os controles de variáveis,
o resultado é útil e revelador para os
interessados em hiperleitura. Os resultados obtidos
neste trabalho poderão ser utilizados por educadores,
profissionais da informática e interessados em
leitura de uma maneira geral.
O resultado das questões de interpretação
de texto leva à conclusão de que, pelo
menos no caso específico do grupo analisado,
a estrutura complexa do hipertexto não representou
dificuldade. A necessidade de conhecimentos específicos
como a seqüência de páginas e a localização
de uma informação no texto, elementos
estes que se acreditava que dificultariam a compreensão,
para os leitores em questão não dificultou.
Outra questão que surpreendeu é o fato
de o texto no suporte digital não se tornar mais
cansativo que no suporte impresso. O texto da bateria
de Tapia e López (2000) em formato hipertextual
não alterou o número de páginas
de leitura, ou seja, não criou problemas de continuidade
e nem de cansaço no olho do leitor.
A eficácia do hipertexto depende do domínio
funcional (metacognitivo) que os usuários possuem
da tecnologia e da tarefa a ser desempenhada, além
de seus conhecimentos prévios, necessários
também na leitura impressa, sobre o assunto tratado
no texto (Dillon & Gabbard, 1998). Conclui-se que
o grupo que realizou a leitura no suporte digital tem
essas habilidades, visto que teve uma porcentagem um
pouco maior de acertos no questionário de compreensão
de texto em relação ao grupo que leu no
suporte impresso. Acreditou-se, desde o início
da pesquisa, que o domínio da tecnologia e o
desenvolvimento cognitivo dos leitores para a realização
da leitura no suporte digital seriam habilidades que
o grupo escolhido - jovens universitários - possui.
Isso ficou comprovado com o resultado e com a análise
das questões de interpretação de
texto.
Os alunos não se sentiram desorientados nem sobrecarregados
cognitivamente com a leitura do hipertexto, ou seja,
eles não passaram os olhos simplesmente pelo
texto; eles efetivamente o leram. No estudo de caso
em questão, o hipertexto
revelou-se eficaz para a compreensão.
Certamente, este trabalho tem mais valor pelas dúvidas
que suscita do que pelas conclusões propriamente
ditas.
O acesso à tecnologia e ao texto digital vem
crescendo a cada dia. A rapidez com que a tecnologia
da informação e comunicação
está crescendo tem despertado inúmeros
estudos, porém, são estudos que necessitam
serem aprofundados, dentre eles, os relativos a este
trabalho de comparação da leitura em dois
suportes: impresso e digital.
Pretende-se com este trabalho despertar estudos e pesquisas
nesta área, pois alguns aspectos necessitam ser
conhecidos e aprofundados, dentre eles, os que tenham
os seguintes objetivos:
a) Comparar a leitura nos dois suportes - impresso e
digital, porém, dando acesso ao leitor para que
ele navegue livremente na rede, visto que esse acesso
é uma característica importante do hipertexto.
b) Aplicar esse mesmo teste de leitura, dessa mesma
forma, mas com leitores
diferentes.
c) Fazer um teste comparando a leitura no suporte digital
e impresso, entretanto, usando um site conhecido, ao
invés de criar um com base em um texto impresso.
BIBLIOGRAFIA
Tatiani é
assessora pedagógica do Portal Dia-a-Dia Educação
da Secretaria de Educação do Estado do
Paraná e Mestre em Ciências da Linguagem
pela UNISUL. Possui artigos publicados em várias
revistas como a Querubim e Diálogo Educacional.
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