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Experimento de leitura realizado no suporte impresso e digital


Por: Tatiani Daiana de Novaes


É sobre a leitura e a compreensão do texto digital (hipertexto) que se trata este artigo, que é resultado de uma pesquisa de dissertação de mestrado. O objetivo foi verificar se há diferença na compreensão de um mesmo texto em suportes diferentes - impresso e eletrônico. Teve-se a intenção de descobrir, por meio de questões de interpretação, se a compreensão de um mesmo texto é maior no suporte impresso ou no suporte digital.
Como se vive em um momento privilegiado, entre o velho (momento sem computador) e o novo (momento com computador), os processos cognitivos e o modo de ler também estão em um momento de transição. O enfoque da pesquisa justifica-se na medida em que se tem necessidade de refletir sobre essa transição, sobre a leitura de hipertextos, sobre os processos mentais de recepção e compreensão e sobre a existência e a produtividade da leitura desse novo suporte de texto. Há uma necessidade crescente de se conhecer as características e peculiaridades do hipertexto e do novo modo de ler que ele possibilita, para, assim, apropriar-se de suas possíveis vantagens.

METODOLOGIA

Para avaliar o processo de recepção e de compreensão de textos e hipertextos utilizou-se a metodologia formulada por Tapia e López (2000).
A pesquisa é um estudo de caso exploratório com características experimentais. Através da leitura de um mesmo texto em dois suportes diferentes, impresso e eletrônico, foi feita uma comparação de compreensão. Foram feitas duas análises dos resultados: quantitativa e qualitativa. Por se tratar de uma pesquisa quali-quantitativa, não cabe um cálculo estatístico. Tratou-se de um estudo de caso exploratório comparativo, pois consiste na comparação entre dois enfoques específicos: avaliação da leitura e compreensão de um mesmo texto em dois suportes diferentes - impresso e eletrônico.

Ao avaliar a recepção de textos, segundo Tapia e López (2000), deve-se procurar saber se o leitor consegue:
a) Pressupor o tema da leitura e, eventualmente, as razões que fazem com que o autor use alguns recursos específicos para expressar-se. Fazer inferências a partir dos aspectos sintáticos e semânticos do hipertexto, em especial, perceber se o leitor:
- Representa, adequadamente, a referência temática do texto.
- Identifica ou não a referência dos pronomes e das expressões anafóricas.
- Representa, adequadamente, a temporalidade.
- Representa, adequadamente, a modalidade certa, possível ou provável dos
enunciados.
- Representa, adequadamente, as implicações dos conectivos ou partículas.
- Identifica o contexto documental.

b) Percebe a estrutura (argumentativa, poética, narrativa, etc.) que o sujeito
reconhece no texto.

c) Usa estratégias para identificar a informação importante.

d) Identifica, corretamente, a intenção comunicativa do autor.

e) Ativa os conhecimentos prévios.

Este trabalho não busca, a partir da análise quantitativa, fazer generalizações dentro de um universo mais amplo. O pequeno número de voluntários que responderam à bateria CL-4 utilizada não permite expandir o resultado encontrado.

SUJEITOS DA PESQUISA

A colaboração dos sujeitos foi voluntária. Participaram da pesquisa trinta leitores voluntários, alunos do primeiro ano do curso de Letras/Português e Letras/Português -Espanhol de uma universidade paranaense. Quinze alunos estão cursando Letras/Português e os outros quinze alunos estão cursando Letras/Português- Espanhol.

PROCEDIMENTOS

Os testes foram realizados na própria universidade, durante uma hora-aula, em 19 de março de 2007. Os trinta alunos voluntários foram divididos em dois grupos. Metade dos alunos fez a leitura do texto em suporte impresso e a outra metade fez a leitura do mesmo texto, em suporte digital. As questões de interpretação de texto são padronizadas e do tipo objetiva. A divisão da sala, o fato de cada aluno realizar a leitura em um suporte apenas, impresso ou eletrônico, e o fato de ser o mesmo texto em dois suportes diferentes baseia-se em pesquisas similares, como a de Carla Viana Costarelli (2005) na Universidade Federal de Minas Gerais.
Os testes foram realizados em laboratório, com o grupo que fez a leitura em suporte eletrônico, e na sala de aula, com o grupo que fez a leitura em suporte impresso. Cada participante respondeu às questões de interpretação e realizou a atividade em uma carteira ou em um computador individualmente. Os trinta voluntários levaram, em média, uma hora-aula, ou seja, quarenta e cinco minutos para realizar o teste.
Esta pesquisa foi devidamente aprovada pelo Conselho da universidade paranaen-se e os participantes assinaram termo de consentimento livre e esclarecido.

INSTRUMENTO DE PESQUISA

O texto de Tapia e López (2000) com oito questões de interpretação da bateria CL- 4 utilizado neste trabalho é um texto artificial, visto que foi criado para uma bateria de testes do Ministério da Educação da Espanha. Embora se possa questionar o fato de o teste ter sido elaborado originalmente para alunos da Espanha, optou-se por adotá-lo no Brasil em versão portuguesa, por ter sido elaborado e já testado por equipe de especialistas em avaliação de leitura, coordenada por Tapia.
O teste de compreensão de leitura se limitava ao texto em suporte impresso. Para fins deste estudo, elaborou-se uma versão do texto em estrutura hipertextual. Desta forma, o hipertexto constitui-se numa adaptação do texto de Tapia e López para utilização em suporte eletrônico, cujo acesso está disponível em: http://ferpaula.sites.uol.com.br/tatiani/
A recepção e compreensão do texto que segue foi medida através de questões
objetivas de interpretação. As questões foram as mesmas para os dois suportes de texto. Segue o texto e as questões objetivas de interpretação:

"Nós, os espanhóis, felizmente, não somos racistas. Temos outros defeitos, mas é sabido de todos que o racismo não nos afeta em nada, nem um pouquinho. Por exemplo, um mercado público de Madrid acaba de contratar guardas particulares para que impeçam os ciganos de andar pedindo esmola entre as bancas. Esses homens empenham-se tanto em sua tarefa que não se limitam a expulsar aqueles garotos pegos em flagrante, com a mão estendida e a boca aberta, mas, às vezes, cortam o mal pela raiz, não deixando que entre no mercado nenhuma pessoa com o tom de pele escura. Há dias as portas do prédio público estão abarrotas de mulheres de cor cobre que assaltam as mulheres de cor branca com um modesto pedido: por favor, compre-me um frango, senhorita, porque não me deixam passar para comprá-lo. Mas isto não tem nada a ver com o racismo: a culpa é dos ciganos, que, como se sabe, são inoportunos. Tão inoportunos, tão obcecados e tão cheios de si que se empenham em desdenhar a sociedade que não seja a sua, em seguir vivendo mal em cabanas e em manter uma taxa de analfabetismo de 85%, ao invés de estudar para serem arquitetos ou de residir em prédios de luxo. São muito brutos".

Questões de interpretação
As questões objetivas de interpretação comuns para os dois suportes de leitura são as seguintes:
1. Qual das afirmações seguintes expressa melhor a idéia mais importante que o autor quis transmitir?
a) Nós, os espanhóis, não somos racistas, somente temos algumas pequenas dife-renças com os ciganos.
b) Nós, os espanhóis, freqüentemente, agimos de modo racista em relação àquilo que damos pouca importância.
c) Nós, os espanhóis, somos racistas, mas os ciganos o são mais por não quererem integrar-se, nem estudar.

2. A intenção principal do autor, neste texto, é:
a) Criticar os espanhóis por seu comportamento, que é, com freqüência, racista.
b) Chamar a atenção das autoridades para que vigiem melhor as zonas públicas.
c) Criticar a atitude dos ciganos que se opõem à integração na sociedade.

3. Em que textos como este, em que o autor parece sustentar coisas que se
contradizem, a melhor forma de saber o que é mais importante que o autor nos quer comunicar consiste em:
a) Fixar-nos na primeira afirmação, na qual o sentido fica bem claro.
b) Aceitar, como idéia principal, o oposto ao que se parece defender.
c) Fixarmo-nos nas idéias que estão resumidas no último parágrafo.

4. A frase: "Temos outros defeitos, mas é sabido de todos que o racismo não nos afeta em nada, nem um pouquinho" significa:
a) Que, no futuro, vamos ter outros defeitos, mas não esse.
b) Que, efetivamente, temos outros defeitos, mas não esse.
c) Que, provavelmente, tenhamos outros defeitos, mas não esse.

5. O texto diz: "por favor, compre-me um frango, senhorita, porque não me deixaram passar para comprá-lo". Isto é dito por:
a) O autor que se envolve no texto.
b) Por uma pessoa de raça cigana.
c) Por qualquer mulher de raça branca.

6. A frase: "esses homens empenham-se tanto em sua tarefa que não se limitam a expulsar aqueles pegos em flagrante" significa:
a) Que expulsavam, cumprindo com seu dever, os que eram pegos em flagrante.
b) Que não só expulsavam os que eram pegos em flagrante: além disso...
c) Que tinham muito empenho e expulsavam os que encontravam roubando.

7. O mais provável é que o texto proceda:
a) De um livro - texto sobre Ciências Sociais.
b) De um estudo sociológico sobre grupos sociais.
c) De algum artigo escrito em um jornal.

8. No texto, aparecem as expressões "... não somos racistas", "o racismo não nos afeta em nada...", "... mas isto não tem nada a ver com o racismo". Por que o autor utiliza, em um texto como este, o recurso chamado reiteração?
a) Porque não é verdade, na opinião do autor, que os espanhóis não sejam racistas.
b) Para dar mais força à idéia de que não somos racistas, caso alguém duvidasse disso.
c) Porque quer desmentir que qualquer coisa que se faça aos ciganos seja racismo.

MENSURAÇÃO DO DESEMPENHO

Tabela 1- Porcentagem de acertos de compreensão de leitura nos suportes impres-so e digital.

Número da questão
Acertos no suporte impresso
Acertos no suporte digital
1
13,33%
33,33%
2
40%
53,33%
3
46,66%
53,33%
4
33,33%
13,33%
5
86,66%
93,33%
6
73,33%
73,33%
7
40%
60%
8
40%
73,33%


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados e a análise apresentados sugerem algumas respostas, mas também suscitam outras questões. A comparação das versões no suporte impresso ou no hipertextual mostra que a leitura no ambiente impresso é um pouco diferente da leitura no ambiente digital, conforme já se havia previsto.
Os resultados obtidos com o teste realizado na universidade levam à confirmação de que os alunos que realizaram a leitura no suporte digital, de uma maneira geral, tiveram um melhor desempenho em relação aos alunos que realizaram a leitura no suporte impresso. Ao se comparar os resultados, pode-se constatar que existem diferenças percentuais 46,66% de compreensão na leitura do texto no suporte impresso e 56,66% de compreensão na leitura do texto no suporte digital. Os resultados encontrados neste trabalho são corroborados pelos resultados encontrados em testes realizados por Coscarelli (2005), que realizou experimentos e percebeu uma vantagem porcentual da leitura no suporte digital. Porém, entende-se que é muito difícil provar a superioridade de um ou outro suporte porque a diferença entre eles não é tão grande. No caso desta pesquisa, nos dois suportes, o leitor fez grande esforço cognitivo e realizou construções de representação mental dos textos.
A pesquisadora não tem como ter acesso direto a este processo, dificultando, assim, afirmar que o suporte influencia na compreensão do texto. O que se tentou fazer foi avaliar amostras de indicadores da leitura realizada. É difícil saber quais elementos estão envolvidos e o grau de importância deles no momento em que o teste foi realizado. Seja qual for o instrumento de avaliação, ele não será perfeito. Há vários elementos envolvidos: a cognição, o conhecimento de mundo e o conhecimento lingüístico e não há como saber onde começa um e termina o outro.
É complexo definir leitura e compreensão, porque muitos elementos estão envolvidos, além de fatores cognitivos individuais, também fatores externos. O que se pode concluir é que o processo de leitura e compreensão - no suporte impresso e digital - envolve autor, texto e leitor e que a interação leitor/texto é de fundamental importância. O leitor, através de seu conhecimento lingüístico-textual e de mundo é que constrói o significado de um texto.
Mesmo que muitas vezes o modo como o texto é organizado - no suporte digital ou impresso - influencie no acesso a determinadas informações, para Dee Lucas (1996) "não há uma estrutura melhor para um conjunto de informações, porque diferentes estruturas são apropriadas para diferentes aprendizes e objetivos de aprendizagem".
A reflexão sobre o estudo comparativo de leitura no suporte impresso e no suporte digital faz acreditar que a leitura hipertextual não traz em si nenhuma transformação ou característica inovadora. O hipertexto é um novo formato de texto, e como todo texto, ele exige o envolvimento, o conhecimento de suas características, os objetivos de leitura, a familiaridade com o gênero, o conhecimento do suporte, o conhecimento do assunto e a motivação.
O que se pode concluir é que a leitura do hipertexto apresenta potenciais e limitações. O hipertexto e o espaço digital são ferramentas importantes para a divulgação de informações e para a formação de leitores. Com a Internet, o acesso à pesquisa aumentou, as fontes de informação se multiplicaram, os custos diminuíram, o armazenamento de dados está garantido, o tempo e o espaço também foram diminuídos, os fóruns e as discussões a longa distância têm crescido, enfim, o espaço digital favorece a troca de informações, o debate e a facilidade de acesso ao conhecimento.
Theodor Nelson (1981) acreditava que a leitura hipertextual teria um melhor resultado que a leitura do texto impresso, e no caso do grupo específico analisado aqui, ele não deixa de ter razão, visto que o teste realizado demonstrou uma sutil diferença de porcentagem que favorece a leitura no suporte digital. Ele pensou assim porque a leitura hipertextual é capaz de criar conexões entre documentos e estimular a criatividade. Isso poderia ter acontecido de maneira potencializada, se os leitores que realizaram o teste tivessem acesso livre às páginas da Internet, se eles pudessem criar um ambiente de leitura em que pudessem fazer anotações, se eles tivessem a opção de interagir com as informações lidas, fazendo perguntas, sugerindo informações. Contudo, devido às limitações de controle das variáveis, o teste realizado neste trabalho não possibilitou esses recursos todos.
O controle das variáveis são atitudes tomadas para que as condições de leitura dos dois grupos fossem as mesmas e para que nenhum grupo tivesse vantagem em relação ao outro, isso tudo, para que o resultado final fosse o mais confiável possível.
Mesmo com limitações impostas pela situação de pesquisa experimental e com os controles de variáveis, o resultado é útil e revelador para os interessados em hiperleitura. Os resultados obtidos neste trabalho poderão ser utilizados por educadores, profissionais da informática e interessados em leitura de uma maneira geral.
O resultado das questões de interpretação de texto leva à conclusão de que, pelo menos no caso específico do grupo analisado, a estrutura complexa do hipertexto não representou dificuldade. A necessidade de conhecimentos específicos como a seqüência de páginas e a localização de uma informação no texto, elementos estes que se acreditava que dificultariam a compreensão, para os leitores em questão não dificultou. Outra questão que surpreendeu é o fato de o texto no suporte digital não se tornar mais cansativo que no suporte impresso. O texto da bateria de Tapia e López (2000) em formato hipertextual não alterou o número de páginas de leitura, ou seja, não criou problemas de continuidade e nem de cansaço no olho do leitor.
A eficácia do hipertexto depende do domínio funcional (metacognitivo) que os usuários possuem da tecnologia e da tarefa a ser desempenhada, além de seus conhecimentos prévios, necessários também na leitura impressa, sobre o assunto tratado no texto (Dillon & Gabbard, 1998). Conclui-se que o grupo que realizou a leitura no suporte digital tem essas habilidades, visto que teve uma porcentagem um pouco maior de acertos no questionário de compreensão de texto em relação ao grupo que leu no suporte impresso. Acreditou-se, desde o início da pesquisa, que o domínio da tecnologia e o desenvolvimento cognitivo dos leitores para a realização da leitura no suporte digital seriam habilidades que o grupo escolhido - jovens universitários - possui. Isso ficou comprovado com o resultado e com a análise das questões de interpretação de texto.
Os alunos não se sentiram desorientados nem sobrecarregados cognitivamente com a leitura do hipertexto, ou seja, eles não passaram os olhos simplesmente pelo texto; eles efetivamente o leram. No estudo de caso em questão, o hipertexto
revelou-se eficaz para a compreensão.
Certamente, este trabalho tem mais valor pelas dúvidas que suscita do que pelas conclusões propriamente ditas.
O acesso à tecnologia e ao texto digital vem crescendo a cada dia. A rapidez com que a tecnologia da informação e comunicação está crescendo tem despertado inúmeros estudos, porém, são estudos que necessitam serem aprofundados, dentre eles, os relativos a este trabalho de comparação da leitura em dois suportes: impresso e digital.
Pretende-se com este trabalho despertar estudos e pesquisas nesta área, pois alguns aspectos necessitam ser conhecidos e aprofundados, dentre eles, os que tenham os seguintes objetivos:

a) Comparar a leitura nos dois suportes - impresso e digital, porém, dando acesso ao leitor para que ele navegue livremente na rede, visto que esse acesso é uma característica importante do hipertexto.
b) Aplicar esse mesmo teste de leitura, dessa mesma forma, mas com leitores
diferentes.
c) Fazer um teste comparando a leitura no suporte digital e impresso, entretanto, usando um site conhecido, ao invés de criar um com base em um texto impresso.

BIBLIOGRAFIA

Tatiani é assessora pedagógica do Portal Dia-a-Dia Educação da Secretaria de Educação do Estado do Paraná e Mestre em Ciências da Linguagem pela UNISUL. Possui artigos publicados em várias revistas como a Querubim e Diálogo Educacional.

 

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