I. GRAMÁTICA,
PRECONCEITO E MILITÂNCIA
É quase lugar comum, no tocante à língua,
o uso de termos avaliativos como “certo”
e
“errado”, mesmo em alguns setores acadêmicos
dos quais é de esperar certo cuidado. O perigo
inerente ao uso dessas categorias é a exclusão
que isso implica ou pode implicar: quem usa o dito “errado”
e não tem condições de sair dessa
situação por si acaba por assumir nesse
uso uma identidade de pessoa inferior. E quem usa o
dito “certo” pode arvorar-se o direito de
ditar o que pode e deve, e o que não pode e não
deve, ser dito — partindo de categorias estáticas
que são infiéis ao dinamismo da linguagem.
Um exemplo disso é a classificação
de certos usos como figuras de linguagem, quando vem
de escritores canônicos, e como vícios
de linguagem, quando vem de quem não ocupa postos
na hierarquia social.
E que dizer – para abordar “uma das outras”
faces da moeda – de quem despreza na
teoria o normativo, mas o emprega em sua argumentação,
em todos os seus textos? Não seria isso uma posição
indefensável, capaz mesmo de sugerir interesses
inconfessos/inconfessáveis? Ou resultado do afã
de enxertar motivações políticas
na
análise, necessariamente interessada, é
claro, das questões lingüísticas?
A meu ver, o pesquisador deve, por razões éticas,
declarar desde o começo qual a sua posição
política e qual seu interesse específico
na pesquisa que faz – ou calar-se para sempre!
E a coerência que lhe vai ser cobrada é
a compatível com essa sua, por assim dizer, “profissão
de fé”. Não proponho rejeitar essa
ou aquela posição política, ou
político partidária, mas tornar claras
todas as posições a fim de evitar que,
ao tentar apontar o pecado, acabemos por condenar o
pecador!
É por outro lado evidente que o uso de "variedades"
não exclui o fato de haver uma
variedade mais valorizada, claro que não só
por razões lingüísticas, incluindo
a questão de tentar impor o uso da língua
literária como padrão do escrito e até
do falado, entreoutras. Lembremo-nos de que até
recentemente se pensava que a língua falada não
era estruturada, quando hoje se sabe que ela dispõe
de uma estrutura complexa que mal se começa a
discernir. Do mesmo modo, e isso por vezes cai no esquecimento,
a norma, ou melhor, as normas, não excluem por
razões intrínsecas as variedades, devendo-se
essa exclusão, quando existe, a uma política
específica, confessada ou não.
A língua é uma correlação
permanente de forças centrífugas e centrípetas:
a unidade
versus a diversidade; a diversidade vem tanto dos experimentalismos
como das
variedades não-padrão. Logo, abandonar
a unidade destruiria a estrutura social e recusar a
diversidade empobreceria em muito a língua. Assim,
se enrijecer a norma é
empobrecer a expressão (e ao nosso ver é
isso que fazem os prescritivistas), desprezá-la
também é (e a nosso ver é isso
que fazem certos lingüistas – e não
lingüistas — que elegem os usos, acriticamente,
a valor supremo. Qual a solução? Propomos
um (difícil) equilíbrio: os "cientistas"
devem opinar, o mesmo ocorrendo com os usuários
especializados (tradutores, ativistas, etc.) e não
especializados; a gramática normativa deve continuar
a ser valorizada, sem prejuízo da descritiva
e da "intuitiva", e sem privilegiar a nomenclatura
em detrimento da estrutura; e os usuários das
outras variedades devem ser ajudados a conhecer a padrão,
mas não discriminados por não a conhecer
nem impedidos de usar outras variedades.
Este último ponto é que me faz desgostar
dos prescritivistas: eles discriminam, ao não
desvelar o motivo de tantos usuários não
terem acesso à norma: não é burrice
nem descaso, mas uma subcategoria da falta de acesso
a outras coisas essenciais. E dizer que falam errado
não ajuda em nada. Assim como dizer que não
devem conhecer a norma, ou que esta não importa
nem deveria existir também não. Além
disso, a norma também varia no tempo, como uma
simples observação pode demonstrar; querer
impor à norma padrões de outro estágio
histórico, passado ou projetado, também
constitui uma séria distorção à
qual o lingüista deve se opor com veemência.
II. O LINGÜÍSTICO E O NÃO-LINGÜÍSTICO
O problema, portanto, não é (só)
lingüístico; é da ordem da própria
estrutura social.
Creio que devemos nos opor a propostas espontaneístas
de todos os matizes:
normativizantes ou desestruturantes, voltadas só
para o código ou só para o uso, etc.
Mas não é possível ser contra devaneios,
sonhos e que tais em matéria de política
e de pesquisa lingüística.
A variedade lingüística “da rua”
tem seu lugar, porque a diversidade enriquece a cultura
e merece respeito ao seu valor intrínseco, além
de refletir a diversidade do próprio país.
Excluir a “língua da rua” ou a língua
dos corredores ou da tradução, da academia,
da comunicação oficial, etc. é
algo que repugna. A coexistência dessas modalidades
é importante. Empenhar-se em menosprezar ou abolir
uma ou outra dentre elas é igualmente inaceitável.
Ao nosso ver, a língua das ruas e os experimentalismoslingüísticos
dos escritores, e até certos exageros acadêmicos
e antiacadêmicos, contribuem para a diversidade
sem acabar com a unidade.
O Brasil é hoje uma sociedade complexa que envolve
a rua e muitos outros lugares, e
creio que se precisa dar acesso a esses outros lugares
lingüísticos, e da maneira mais universal
possível. Conhecer a variedade de prestígio,
sem discriminar as outras, pode ser um fator de melhoria
social. Respeitar a sarjeta é bom, mas também
o é tentar tirar dela o máximo possível
de pessoas (ou mesmo ir melhorando a sarjeta!). O que
nos faz repetir: o problema lingüístico
não é (só) lingüístico.
Por outro lado, tudo depende da conjuntura. Senão
vejamos:
1. Na Itália, em certa época, dada a diversidade
lingüística, e uma situação
política plena de desorganização,
a falta de unidade lingüística entre as
massas favorecia interesses escusos das classes dominantes.
Gramsci defendeu na época a unidade lingüística::
É "... racional colaborar pratica e
voluntariamente para dar uma boa acolhida a tudo que
possa servir para criar uma
língua nacional comum, cuja inexistência
cria atritos particularmente entre as massas
populares, em cujo seio os particularismos locais e
fenômenos de uma mentalidade
estreita e provinciana são mais tenazes do que
se crê". Ele não defendeu a supressão
das variedades, mas viu em sua disseminação
um prejuízo para todos exceto os mandatários,
que poderia ao seu ver ser minorada por uma língua
comum.
Nesse caso, a monoglossia tem de ser intransigentemente
defendida.
Atualmente, na mesma Itália, em que convivem
tantos e tão expressivos dialetos, há
propostas de tornar o italiano a única língua
oficial, o que significa na prática reprimir
manifestações culturais as mais diversas
e nivelar o país de maneira arbitrária.
Nesse caso, a heteroglossia tem de ser intransigentemente
defendida.
2. Os Estados Unidos, antes do Império Americano,
usaram a unificação lingüística
para se opor à política lingüística
imperial da Inglaterra e para firmar sua independência.
Nesse caso, a monoglossia tem de ser intransigentemente
defendida.
3. Nos idos do Império Britânico, houve
um certo momento em que o governo procurou
instituir, em termos repressivos e centralizadores,
uma "língua padrão" que levava
praticamente ao descarte das variedades lingüísticas,
e mesmo das outras línguas do
Império. Nesse caso, a "língua padrão"
assumiu um caráter negativo, atribuindo a tudo
o que dela discrepasse um caráter inferior, desconsiderando
por completo os contextos de cada variedade.Como disse
um garoto inglês a quem se queria impor a norma
em substituição à variedade de
uso doméstico: "There now. If you do
meake me talk so fine as that, they'll laef at me at
hwome zoo that I can't bide there." E houve
resistências justas e legítimas a essa
unificação descontextualizadora e discriminatória.
Nesse caso, a heteroglossia tem de ser intransigentemente
defendida.
4. James Joyce se opôs à supressão
da variedade irlandesa - que tinha de ser valorizada
por definir a própria identidade da Irlanda -
pretendida pelo Império Britânico, tendo
produzido obras exemplares de absoluta heteroglossia,
como todos sabem, chegando mesmo a retratar o próprio
processo de vir-a-ser da linguagem na própria
vida diária. Nesse caso, a heteroglossia tem
de ser intransigentemente defendida. O que temos a partir
desses dados? Provas de que as questões lingüísticas
também têm seu lado conjuntural, que seus
aspectos variam de acordo com a situação.
Pouco importa de onde vem a rigidez; deve-se ser pura
e simplesmente contra todas as suas modalidades. Achamos
que a academia e quejandos precisam conhecer e respeitar
a sarjeta e ser conhecida e respeitada por ela. Pode-se
falar "sarjetês" na sarjeta, "tradutês"
em meio a tradutores, "academês" na
academia; deve-se ser a favor do acesso universal a
todas as variedades. Menosprezar ou desejar suprimir
variedades, sejam elas populares ou cultas (impopulares?)
é, a par de desnecessariamente repressivo, empobrecedor
do ponto de vista da língua e da cultura, além
de revelar um profundo desconhecimento da realidade
da língua, da formação de gêneros
primários e secundários, etc.
III. USO, SISTEMA, LINGUAGEM
Há algumas afirmações feitas pelo
colega Vagner Muniz numa intervenção na
Comunidade Virtual da Linguagem que merecem comentário.
Referindo-se a uma afirmação segundo a
qual o uso deve ser o critério exclusivo da aceitabilidade
lingüística, pergunta o professor Muniz:
1. "Não há limites para essa
expansão?" Explico: do uso de formas de
expressão."
e
2. "...busca-se a validade na coerência
do sistema, mas, no fundo, justifica-se
pragmaticamente pelo uso."
A nosso ver, em princípio o limite existe, como
em tudo o mais, só que é bastante
amplo. Esse limite é o das possibilidades expressivas
da língua e depende tanto do
sistema como do uso, tanto dos falantes como de todas
as instâncias que incidem sobre o ser da língua.
Se o sistema e/ou o uso não aceitam uma dada
forma de expressão, ela muitas vezes nem vem
a existir ou desaparece. E muitas formas podem coexistir
- vide as variedades da língua que são
usadas simultaneamente no mesmo período de tempo.
Logo, não se pode falar de linguagem sem falar
ao mesmo tempo de sistema e de uso (e as gramáticas
do uso estão ficando comuns hoje). Com efeito,
sem uso, o sistema não é sistema, mas
mero código; e, sem o sistema, não há
uso. O significado como potência está no
sistema; o(s) sentido(s) vêm a ser no uso. Propomos
pensar o sistema da linguagem como um sistema complexo
(Morin) constituído por um sistema lingüístico,
vinculado com os significados fixados, e um sistema
de uso da língua, vinculado com os sentidos que
vêm a ser em situação. Isso a nosso
ver contribui para evitar as distorções
decorrentes de falsas oposições entre
sistema e uso, código e fala, etc.
Concordamos que "buscar a coerência no sistema"
e ao mesmo tempo "justificar
pragmaticamente pelo uso" é uma incoerência.
Assim como o é buscar a lógica do uso
e justificar formalmente pelo sistema. Logo, deve-se
examinar o fato lingüístico tanto em termos
do sistema como do uso, tanto vendo o uso a partir do
sistema (se o sistema, em seu estado atual, comporta
um dado uso ou não) como mostrando que também
o sistema se altera a partir do uso (alguém ainda
usa o mais-que-perfeito, exceto em casos bem raros,
em certas sutis distinções filosóficas,
por exemplo?) e, por fim, analisando as relações
complexas que aí se estabelecem entre os falantes
em seus diversos contextos interativos, sociais, históricos,
etc.
Certo é que louvar o novo como valor intrínseco
ou reagir com "repúdio" a ele, comotem
ocorrido nas discussões hoje correntes do “gerundismo”
(vou estar ligando) não nos parecem atitudes
científicas. O cientista não tem de aceitar
nem rejeitar, mas de entender e explicar, recorrendo
ao que for necessário. Não se pode esquecer
o sistema, mas é preciso repensá-lo à
luz do uso, ou melhor, dos usos. Do mesmo modo, insistimos,
o uso não pode deixar de ser considerado em termos
do sistema, normativo, descritivo, intuitivo, falado
e escrito, formal e informal, urbano e não-urbano.
IV. INTERAÇÃO, CONTEXTO: A VIDA DA LÍNGUA
NÃO ESTÁ NAS GRAMÁTICAS
Contudo, é preciso estar atento para o fato de
que, como disse Heidegger numa palestra sobre Nietzsche:
"A vida da linguagem real consiste na multiplicidade
do sentido. Relegar a palavra animada e vigorosa à
imobilidade de uma seqüência de signos unívoca,
mecanicamente programada, seria a morte da linguagem
e a petrificação e devastação
do Ser."
Isso vem ao encontro da concepção de linguagem
do círculo de Bakhtin. Pode-se ao
nosso ver afirmar que, ao falar da interação
como o locus do vir-a-ser da linguagem,
Bakhtin se refere a quatro níveis, dotados de
diferentes e crescentes graus de amplitude, todos eles
necessariamente constitutivos:
- O nível da interação verbal concreta,
do aqui e agora da presença dos interlocutores
na enunciação (claro que em sua projeção
no enunciado). Esse nível é o mais “restrito”,
mas constitui, naturalmente, a base de todos os outros;
- O nível do contexto imediato em que se insere
a interação (lugares sociais, ethos,
formas atualizadas de interação social,
etc.). Nesse nível, temos os elementos que a
interação “convoca” diretamente
e que remetem ao nível seguinte;
- O nível do contexto social propriamente dito,
aquele que determina em termos
conjunturais, culturais, e mesmo raciais, o modo de
ser da interação; e, por fim,
- O nível do horizonte social e histórico
mais amplo, que abrange a cultura em geral,
os grandes períodos da história, o Zeitgeist,
etc., e que é incluído nas considerações
que Bakhtin faz sobre a inexistência de um sentido
primeiro e de um sentido derradeiro. Se pode haver discurso
fundador, nem por isso há sentido fundador: a
gênese dos discursos é o locus da gênese
dos sentidos e não vice-versa.
À luz disso, justifica-se a nossa idéia
de que o sistema da linguagem é, mesmo em sua
forma normativa, um conjunto de potencialidades expressivas
que só o uso atualiza; se ele modifica os usos
ou sobre eles incide, estes o alteram igualmente. O
uso depende do contexto, mas o sistema também
tem elementos contextuais, não em sua coerência
porassim dizer originária, mas em suas formas
aceitas num dado momento da sociedade.
Por outro lado, o uso sofre a incidência do sistema
dominante num dado momento histórico numa dada
sociedade. O falante trabalha com o normativo, com o
descritivo, com o impositivo, o intuitivo, o vivencial
- presente e passado, com a antecipação
do futuro, as influências de outras línguas,
linguagens, variedades lingüísticas, etc.,
o que cedo ou tarde, de alguma forma, se reflete no
sistema da linguagem - o sentido é a conspiração
de tudo.
Ainda em sua intervenção, Vagner Muniz
declara:
3. "Digo que a coerência interna não
é o suficiente e que a noção de
uso deve ser
repensada. Uma passagem bíblica diz algo como
"tudo é permitido, mas nem
tudo convém".
Perfeito dizer que a coerência interna não
basta e que a noção de uso deve ser
repensada. Acrescentamos: devemos ainda, como dissemos,
modificar a noção de
sistema e mesmo de coerência interna para abranger
o uso. A linguagem, para dizer de outra maneira, é
um sistema complexo que soma sistema potencial (normas,
unificações, unidades) e sistema atual
(os usos, cristalizados ou novos, as variedades); e
nenhum desses sistemas se basta, dado que se inter-relacionam
um com o outro. Temos de pensar nos dois e em suas relações
- mútuas e com outros sistemas.
Além disso, alega o colega:
4. "O sistema lingüístico não
possui a validação da totalidade de seus
enunciados."
Trata-se de uma feliz afirmação, que fornece
elementos para negar a absolutização do
sistema entendido como código e como uma caixa
preta que, mais do que determina,
contém todos os usos possíveis, em vez
de combinatórias possíveis de elementos.
E é esse justamente nosso ponto de vista: não
é o sistema lingüístico, e muito
menos a
gramática, que cria sentido; é a linguagem
em uso que gera sentidos, e muitos deles vêm a
alterar o próprio sistema (e a gramática)
de significados cristalizados, criando novas cristalizações.
Adail Sobral
é Doutor em Lingüística Aplicada
pelo LAEL/PUC-SP e Mestre em Letras pela FFLCH-USP.
Tem Especialização em Lingüística
pelo IEL – UNICAMP e é graduado em Letras
pela UFBA. Tradutor de/para o inglês, o francês,
o espanhol e o português, das editoras Loyola,
SBS, Vozes, Idéias & Letras, entre outras,
nas áreas de filosofia, pós-modernismo,
lingüística, análise do discurso,
teoria psicanalítica, bioética e temas
da atualidade. Dedica-se a estudos de gênero e
teoria e prática da tradução/interpretação,
sendo atualmente professor do curso de Intérprete
de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) da UNIMEP.
É autor de Internet na Escola (3ª ed.),
organizador de Conversas com tradutores (2ª ed.),
de que escreveu o Posfácio, e autor de ensaios
publicados em Bakhtin – Conceitos-Chave (4ª
ed.) e Semiótica – Objetos e Práticas.
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