Alguns
meses atrás professores do Departamento de Física
da USP acusaram o chefe do Instituto de Física
da mesma instituição de plágio,
iniciando uma crise sem igual no mundo acadêmico.
O acusado defendeu-se alegando “erros de referenciamento”
nos trabalhos supostamente plagiados e afirmando que
os trabalhos haviam sido enviados por um outro integrante
do seu grupo de pesquisa, rejeitando qualquer possibilidade
de plágio e isentando-se de qualquer responsabilidade
perante o texto. Para o professor, tudo não passou
de uma mera questão editorial, sem qualquer aspecto
ético envolvido. Entretanto, independente da
procedência e do resultado das acusações,
o incidente merece atenção, pois a autoria
científica e os limites da co-autoria foram postos
na mesa de discussão.
O incidente envolvendo
o Departamento de Física da USP não é
um caso isolado. A palavra plágio tem sido cada
vez mais usada em ambientes educacionais, mas geralmente
para fazer referência à produção
de alunos. Há inúmeros sites e manuais
dedicados a ajudar professores a identificar o plágio
e outros tipos de cópia em textos produzidos
por alunos. Da mesma maneira, tem aumentado o número
dos supostos casos de plágio em universidades,
tanto entre alunos de graduação como dentre
alunos de pós-graduação. Dissertações
e teses têm sido reprovadas em função
de problemas autorais. Entretanto, o acusado agora é
um professor de renome, o que muda o quadro.
Todos esses casos parecem
apontar para a mesma direção: como identificar
casos de plágio, revelar os infratores e fornecer
punições adequadas para aqueles que cometeram
tal crime. Enquanto há facilidade em usar a palavra
plágio para fazer referência a trabalhos
de alunos, a mesma facilidade não é encontrada
para fazer qualquer tipo de referência aos trabalhos
dos professores. Mas isso não é suficiente.
Parece-nos que o que precisa ser discutido não
é a punição a ser recebida pelos
infratores, mas os limites e as novas reconfigurações
da autoria na sociedade contemporânea.
A simples pergunta “o
que é plágio” não é
fácil de ser respondida. Ela deve receber diferentes
respostas em diferentes contextos e, por isso, o conceito
de plágio em ambientes educacionais não
pode ser o mesmo de outros contextos. Talvez não
haja somente um plágio, mas plágios que
merecem ser discutidos e trazidos à cena.
Os professores universitários
e pesquisadores são cada vez mais guiados pelo
“publicar ou perecer” e a autoria colaborativa
tem imperado em diversas áreas científicas.
O crescimento de trabalhos executados em co-autoria
e o crescimento desenfreado do número de co-autores
por trabalho têm chamado atenção.
Afinal, qual o limite da co-autoria? A justificativa
do professor da USP acusado, de que o artigo havia sido
enviado por um dos co-autores sem seu conhecimento,
remete a essa questão. Que co-autoria é
essa que não está envolvida no encaminhamento
de um trabalho para publicação? Da mesma
maneira, o chamado auto-plágio, quando um autor
repete a si mesmo, submetendo várias vezes um
mesmo artigo ou copiando de si mesmo, também
tem chamado atenção.
A Internet, e a virtualização
da autoria que ela propicia, tem tentações.
Uma delas é a de usar a voz e as palavras do
outro. Entretanto, cabe perguntar se o número
de trabalhos copiados realmente aumentou ou se está
apenas mais fácil detectar as instâncias
de cópia. Antes os alunos copiavam da Barsa e
de outras enciclopédias; hoje copiam da Wikipedia.
Os professores ensinavam seus alunos que copiar não
era suficiente. Era necessário aprender a selecionar
e organizar a informação. Talvez o problema
esteja um pouco acentuado, mas sempre copiamos e o fato
de copiar por si só não é necessariamente
crime, mas falta de habilidade. Por isso, algumas escolas
estão pedindo trabalhos à mão,
a fim de reduzir a cópia; outras impedindo o
uso de ferramentas como a Wikipedia. Essas medidas não
resolvem o problema. Temos que aprender a usar as ferramentas
que temos. A escrita é uma forma de apropriação
da linguagem, uma maneira de tornar sua a linguagem,
e esse parece ser o problema. Incrementar o uso de ferramentas
de detecção de cópia e aumentar
a severidade das punições não parece
ser a saída. Precisamos atacar o problema e perguntar:
como podemos fazer com que as pessoas leiam e escrevam
mais e melhor?
O rearranjar o velho
a fim de fazer o novo não é necessariamente
plágio, pode ser até originalidade. Mas
se os professores universitários, como eu, não
souberem de tudo isso, como irão ajudar seus
alunos?
Alguns meses mais tarde,
os professores da USP solicitaram a publicação
de uma errata, em uma espécie de confissão
de culpa. O caso dos professores citados serve de alerta.
Cabe perguntar: qual o limite entre uma questão
ética e uma questão editorial?
Valéria
é Bacharel em Letras com ênfase em tradução,
Mestre em Letras - Literaturas de Língua Inglesa,
Doutora em Letras - Literaturas de Língua Inglesa.
Atualmente é professora de Língua Inglesa
e Literatura no Unilasalle em Canoas e tradutora. Possui
artigos publicados em várias revistas como a
Organon e os
Cadernos do IL.
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