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Uma questão editorial ou uma questão ética?


Por: Valéria Brisolara


Alguns meses atrás professores do Departamento de Física da USP acusaram o chefe do Instituto de Física da mesma instituição de plágio, iniciando uma crise sem igual no mundo acadêmico. O acusado defendeu-se alegando “erros de referenciamento” nos trabalhos supostamente plagiados e afirmando que os trabalhos haviam sido enviados por um outro integrante do seu grupo de pesquisa, rejeitando qualquer possibilidade de plágio e isentando-se de qualquer responsabilidade perante o texto. Para o professor, tudo não passou de uma mera questão editorial, sem qualquer aspecto ético envolvido. Entretanto, independente da procedência e do resultado das acusações, o incidente merece atenção, pois a autoria científica e os limites da co-autoria foram postos na mesa de discussão.

O incidente envolvendo o Departamento de Física da USP não é um caso isolado. A palavra plágio tem sido cada vez mais usada em ambientes educacionais, mas geralmente para fazer referência à produção de alunos. Há inúmeros sites e manuais dedicados a ajudar professores a identificar o plágio e outros tipos de cópia em textos produzidos por alunos. Da mesma maneira, tem aumentado o número dos supostos casos de plágio em universidades, tanto entre alunos de graduação como dentre alunos de pós-graduação. Dissertações e teses têm sido reprovadas em função de problemas autorais. Entretanto, o acusado agora é um professor de renome, o que muda o quadro.

Todos esses casos parecem apontar para a mesma direção: como identificar casos de plágio, revelar os infratores e fornecer punições adequadas para aqueles que cometeram tal crime. Enquanto há facilidade em usar a palavra plágio para fazer referência a trabalhos de alunos, a mesma facilidade não é encontrada para fazer qualquer tipo de referência aos trabalhos dos professores. Mas isso não é suficiente. Parece-nos que o que precisa ser discutido não é a punição a ser recebida pelos infratores, mas os limites e as novas reconfigurações da autoria na sociedade contemporânea.

A simples pergunta “o que é plágio” não é fácil de ser respondida. Ela deve receber diferentes respostas em diferentes contextos e, por isso, o conceito de plágio em ambientes educacionais não pode ser o mesmo de outros contextos. Talvez não haja somente um plágio, mas plágios que merecem ser discutidos e trazidos à cena.

Os professores universitários e pesquisadores são cada vez mais guiados pelo “publicar ou perecer” e a autoria colaborativa tem imperado em diversas áreas científicas. O crescimento de trabalhos executados em co-autoria e o crescimento desenfreado do número de co-autores por trabalho têm chamado atenção. Afinal, qual o limite da co-autoria? A justificativa do professor da USP acusado, de que o artigo havia sido enviado por um dos co-autores sem seu conhecimento, remete a essa questão. Que co-autoria é essa que não está envolvida no encaminhamento de um trabalho para publicação? Da mesma maneira, o chamado auto-plágio, quando um autor repete a si mesmo, submetendo várias vezes um mesmo artigo ou copiando de si mesmo, também tem chamado atenção.

A Internet, e a virtualização da autoria que ela propicia, tem tentações. Uma delas é a de usar a voz e as palavras do outro. Entretanto, cabe perguntar se o número de trabalhos copiados realmente aumentou ou se está apenas mais fácil detectar as instâncias de cópia. Antes os alunos copiavam da Barsa e de outras enciclopédias; hoje copiam da Wikipedia. Os professores ensinavam seus alunos que copiar não era suficiente. Era necessário aprender a selecionar e organizar a informação. Talvez o problema esteja um pouco acentuado, mas sempre copiamos e o fato de copiar por si só não é necessariamente crime, mas falta de habilidade. Por isso, algumas escolas estão pedindo trabalhos à mão, a fim de reduzir a cópia; outras impedindo o uso de ferramentas como a Wikipedia. Essas medidas não resolvem o problema. Temos que aprender a usar as ferramentas que temos. A escrita é uma forma de apropriação da linguagem, uma maneira de tornar sua a linguagem, e esse parece ser o problema. Incrementar o uso de ferramentas de detecção de cópia e aumentar a severidade das punições não parece ser a saída. Precisamos atacar o problema e perguntar: como podemos fazer com que as pessoas leiam e escrevam mais e melhor?

O rearranjar o velho a fim de fazer o novo não é necessariamente plágio, pode ser até originalidade. Mas se os professores universitários, como eu, não souberem de tudo isso, como irão ajudar seus alunos?

Alguns meses mais tarde, os professores da USP solicitaram a publicação de uma errata, em uma espécie de confissão de culpa. O caso dos professores citados serve de alerta. Cabe perguntar: qual o limite entre uma questão ética e uma questão editorial?

 

Valéria é Bacharel em Letras com ênfase em tradução, Mestre em Letras - Literaturas de Língua Inglesa, Doutora em Letras - Literaturas de Língua Inglesa.
Atualmente é professora de Língua Inglesa e Literatura no Unilasalle em Canoas e tradutora. Possui artigos publicados em várias revistas como a Organon e os
Cadernos do IL.




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