Nos últimos dois
anos a bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq e
o Qualis da Capes têm se tornado os mecanismos
centrais da organização da ciência
no Brasil. Todos os demais mecanismos estão sendo
gradativamente subordinados a esses dois, de modo que
a avaliação mal feita nesse nível
compromete e desestrutura todos os demais.
Se um periódico
é mal avaliado na base Qualis, por exemplo, isso
tem impacto na avaliação dos programas,
na produção científica daquele
campo e na própria sustentação
do periódico, uma vez que, nessa condição,
ele não pode mais concorrer, entre outros, ao
programa editorial do CNPq/Finep.
Do mesmo modo, uma avaliação
mal feita no programa de Produtividade em Pesquisa coloca
o pesquisador totalmente fora de uma série de
serviços e financiamentos. Ele ou ela terá
dificuldade em fazer um pós-doutorado no exterior,
não poderá concorrer ao programa de iniciação
cientifica do CNPq, não tem grandes chances em
muitos cargos e uma chance reduzida em editais de pesquisa.
Torna-se urgente, nesse
sentido, que os problemas de avaliação,
principalmente da Bolsa Pesquisa e do Qualis sejam debatidos
e solucionados.
Esse contexto, portanto,
me traz ao ponto do presente artigo. Não satisfeito
com os pareceres extremamente mal elaborados que tenho
recebido (em muitas instâncias, mas nesse caso
específico) do programa de Bolsa Pesquisa, resolvi
solicitar uma justificativa.
Protocolei um recurso
em 19 de janeiro de 2007 e recebi a resposta agora dia
1 de novembro. É um tempo longo demais de espera,
mas a vinda de uma resposta pelo menos sinaliza a tentativa
do CNPq de cumprir suas metas de transparência
no que tange à tramitação desses
processos. O parecer, contudo, é de um baixo
nível intelectual flagrante.
O recurso submetido
foi o seguinte:
“Recebi, do CNPq,
em 16 de janeiro do corrente ano, a seguinte mensagem,
relativa à minha solicitação de
Bolsa Pesquisa: ‘Comunicamos que, com base na
análise do Comitê LL - Letras e Lingüística,
e de acordo com o estabelecido no Produtividade em Pesquisa
- PQ - 2006, sua solicitação foi indeferida
conforme justificativa abaixo: A solicitação
teve mérito reconhecido. No entanto, na análise
comparativa com as demais propostas submetidas ao CNPq,
o seu pedido não alcançou classificação
que permitisse o atendimento?’ Entendo que esse
tipo de justificativa é demasiadamente vaga,
não me permitindo: 1) aprimorar o projeto para
futuros pleitos; e nem 2) entender e questionar o processo.
Ao dizer que o projeto apresenta mérito, o parecerista
precisa, a meu ver, deixar claro em que consiste esse
mérito e o quanto ele possibilita ou não
uma aproximação do resultado ideal (ser
classificado no programa Produtividade em Pesquisa).
O mesmo se aplica ao trecho que vem a seguir no parecer.
Se meu pedido ‘não alcançou classificação
que permitisse o atendimento’ é preciso
dizer em que sentido se deve ler a expressão
‘não alcançou’. Gostaria de
saber, nesse ranking de projetos, em que posição
minha proposta ficou e por que foi classificada em tal
posição. Essa é minha quarta tentativa
de entrar no programa de Produtividade em Pesquisa.
Em outras vezes, já recebi justificativas vagas,
mas dessa vez decidi questionar o fato. Não é
justo que o cidadão empenhe tempo para realizar
uma tarefa tão complexa e trabalhosa (como submeter
uma proposta ao CNPq) e receba apenas algumas linhas
que não comprovam sequer ter havido uma leitura
do projeto. Esse tipo de parecer certamente compromete
a seriedade e mesmo a idoneidade dessa agência.
Sendo assim, solicito uma justificativa mais fundamentada
que me permita, se for o caso, recorrer da decisão
tomada pela comissão.”
Note-se que estou fazendo
duas solicitações: 1) explicar o que significa
“ter mérito” e 2) o que se pode entender
pela expressão “não alcançou
classificação”. A resposta recebida,
que não responde nem de longe essas indagações,
é a seguinte:
“Informamos que
a Comissão Permanente de Avaliação
de Recursos do CNPq (COPAR), após análise
e julgamento do seu recurso, decidiu pelo indeferimento,
com base no seguinte parecer: ‘O CA-LL decidiu
não acatar o pedido de reconsideração
e reitera a avaliação da proposta já
divulgada. Essa decisão está baseada nos
critérios que nortearam as decisões tomadas
durante a reunião, explicitadas a seguir. Uma
vez que todos os pedidos submetidos são considerados,
pelo CNPq, novas solicitações, não
havendo mais a situação de renovação
de bolsa, decidimos fazer uma minuciosa análise
comparativa de todas as propostas submetidas com parecer
de mérito favorável atribuído tanto
pelos assessores ad hoc, quanto pela equipe técnica,
levando em consideração a produtividade
do pesquisador, quantitativa e qualitativamente, a sua
experiência na formação de novos
pesquisadores e a qualidade do projeto apresentado.
Cabe lembrar que as informações sobre
a produtividade do pesquisador foram retiradas do que
o CNPq chamou de Lattes congelado, ou seja, o Lattes
de cada pesquisador com as informações
fornecidas por ocasião da elaboração
das planilhas pelo CNPq. Atualizações
posteriores a essa data, mesmo que relevantes para o
processo de avaliação pelo CA, não
puderam ser levadas em consideração. Esse
método de trabalho permitiu uma classificação
de grupos de propostas: grupo de propostas com características
compatíveis para cada um dos níveis de
bolsistas de produtividade e propostas que, embora com
mérito, não atingiram o nível de
prioridade das propostas classificadas para a obtenção
de uma bolsa, caso este em que se inclui a proposta
da pesquisadora.’ A Diretoria Executiva homologou
o parecer da COPAR.”
Nisso tudo, recebi a
mesma resposta do parecer questionado (“embora
com mérito, não atingiu o nível
de prioridade das propostas classificadas”).
Esse último parecer
se refere a “mérito” em termos de
três quesitos: produtividade, capacidade de formação
de novos pesquisadores e qualidade do projeto. Com relação
à “produtividade”, fiz uma varredura
nos Lattes dos lingüistas agraciados com a Bolsa
Pesquisa no nível 2, ao qual supostamente eu
estaria concorrendo.
Considerei os cinco
anos anteriores ao pedido da bolsa (2000-2005) e me
ative aos dados relativos ao quantificador 1 da Capes
(artigos, livros, etc.). Encontrei, nos Lattes dos 66
bolsistas em nível 2, uma incrível variação
na produtividade, que vai de 5 a 43 itens: 10 pesquisadores
apresentam de 5 a 9 itens; 37, de 10 a 19 itens; 13,
de 20 a 29 itens; 4, de 30 a 39 itens; e apenas um com
43 itens.
O dado mais interessante
é que, como meu currículo contava 18 itens,
43 bolsistas (65% desse conjunto de 66) apresentam produção
inferior à minha no período. Pode-se fazer,
nesse caso, duas perguntas: 1) Em um escala tão
ampla de variação da produtividade, o
que significa “produtividade em pesquisa”
para o comitê da área de Letras-Lingüística?
2) O que um pesquisador teria de tão excepcional
em sua produção para, com apenas 5 ou
6 itens (caso dos menos produtivos), terem seus trabalhos
melhor classificados do que o meu (com 18 itens)?
A primeira questão
realmente eu não tenho como responder, pois os
critérios do comitê LL não são
suficientemente claros para tanto. Não são
claros nem para mim, nem para os avaliadores dos projetos
submetidos. O comitê está, desse modo,
concedendo bolsas de Produtividade em Pesquisa sem ter
clareza do que seja de fato “produtividade”.
Isso pode ser visto, no mínimo, como um dado
irônico.
Quanto à segunda
pergunta, analisei os Lattes desses dois pesquisadores
menos produtivos e, como esperado, não encontrei
nada de muito impressionante na produção
de ambos. Nenhum deles tem sequer um texto em uma publicação
internacional de ponta ou algo do gênero, por
exemplo; pelo contrário, dos poucos artigos apresentados,
dois deles ainda foram publicados um em uma revista
sem qualis e outro em uma revista qualificada como nacional
C.
Que tipo de avaliação
se faz nesse comitê, então? O fato de que
10 dos agraciados publicaram menos de 10 itens no quantificador
1 em 5 anos (ou seja, menos de 2 itens por ano) possibilita
inferir que se trata de uma avaliação
bastante intuitiva e, até mesmo, pautada por
relações pessoais e de coleguismo.
No que diz respeito
ao segundo critério (a capacidade de formação
de novos pesquisadores), o que se pode afirmar de imediato
é que se trata de um parâmetro quase infantil,
pelo menos do modo como está textualizado. Um
critério tão perigoso, com tantas saídas
para subjetividade, deveria ter um texto bem mais denso
e minucioso.
Cada doutor que concorre a essa bolsa somente pode formar
profissionais de pesquisa dentro das condições
em que está posto, e essas condições
devem ser observadas. Um pesquisador atuando, por exemplo,
em uma Universidade que somente tem o curso de mestrado
(e esse é o meu caso) não pode formar
doutores e, nesse sentido, é apenas a formação
de mestres e graduandos de iniciação científica
que deve ser considerada.
Estou autorizado, contudo,
a acreditar que isso foi observado quando da avaliação
de meu projeto? Não. Mesmo porque, só
aí, o meu processo já teria dois itens
que justificariam a sua aprovação, mas
ele não foi aprovado.
Em termos do terceiro
critério (a qualidade do projeto), vai aí
uma boa parcela de subjetividade, mas isso não
é desculpa, de modo algum, para que o avaliador
não retorne um parecer sério, entendendo-se
por “sério” um mínimo de fundamentação,
de argumentos.
O projeto que foi submetido
pode até ser entendido pelo avaliador como tendo
qualidade baixa. Esse mesmo projeto, contudo, recebeu
financiamento da Fundação de Apoio à
Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado
de Santa Catarina (Fapesc) a partir de concorrência
com inúmeros outros projetos, recebeu uma bolsa
de iniciação científica dessa mesma
agência, também a partir de concorrência
em edital, e teve uma comunicação aceita,
mediante avaliação de pares, para apresentação
em um congresso internacional (o da Associação
Internacional de Lingüística Aplicada –
AILA) que irá acontecer na Alemanha no ano que
vem. Se o projeto apresenta qualidade tão baixa,
por que os pares o aprovaram em outras instituições
também bastante renomadas?
Ao levantar a produtividade
dos bolsistas de nível 2, me deparei com outros
dados que merecem ser mencionados, quais sejam:
- No total, existem 157 Bolsas Pesquisa em lingüística
(sendo que outro tanto das bolsas desse comitê
é destinado à literatura).
- Desse montante de 157, apenas 15% delas (24 bolsas)
foram concedidas a pesquisadores de Universidades privadas,
embora 23% dos programas (24 em um montante de 103)
estejam alocados nessas instituições.
- É interessante notar também que apenas
5 bolsas das 24 voltadas ao setor privado não
foram concedidas a pesquisadores das PUCs. Ou seja,
as PUCs representam 25% do total dos programas em Universidades
privadas (6 em 24), mas recebem 79.1% do total das bolsas
destinadas a essa categoria (19 em 24).
- Os programas que não estão alocados
nem em Universidades públicas nem em PUCs representam
16.5% do total (17 em 103), mas recebem apenas 3% das
bolsas (5 em 157). Além disso, dessas cinco bolsas,
apenas duas (1.2% de 157) não foram concedidas
a professores aposentados de Universidades públicas
que migraram para o setor privado. A conclusão
óbvia é a de que, por mais que produza,
um pesquisador não pertencente a uma Universidade
pública ou a uma privada do tipo PUC tem chances
mínimas de ser beneficiado com uma bolsa de Produtividade
em Pesquisa.
Há, nesses dados,
claramente um privilégio das Universidades públicas,
seja em virtude da subjetividade desregrada que permeia
a avaliação, seja por corporativismo mesmo.
A questão é que, ao reler as normas do
comitê LL, me deparei com o critério de
que o candidato à Bolsa Pesquisa deve ter: “Atuação
em programas de graduação e pós-graduação
em instituições de ensino superior ou
de pesquisa de reconhecimento nacional e internacional”.
Eu não lembrava
desse critério, e ele deve de fato ser dos últimos
2 ou 3 anos, mas nesse momento me ficou completamente
claro que há aí uma espécie de
“reserva de mercado”. Por esse critério,
pesquisadores como eu, que trabalham em instituições
menores, certamente já têm suas solicitações
eliminadas na base. É um absurdo, mas, lendo
esse critério e analisando o parecer recebido,
só posso concluir que meu projeto não
foi sequer lido.
Embora esteja aqui utilizando
números de produtividade em minha argumentação,
isso não significa que eu acredite que a quantidade
por si só possa ser traduzida em qualidade. Esses
dados são simplesmente para mostrar como a avaliação
no comitê LL tem sido díspar e inconseqüente.
É claro que 43
itens de produção no quantificador 1 em
cinco anos já chega a ser um exagero, mas, por
outro lado, dizer que uma produção de
cinco itens em cinco anos é um diferencial merecedor
da honraria mais relevante na área de ciência
no país também já é uma
extrapolação inaceitável.
As considerações
que teço aqui tomam como objeto a área
de Letras e Lingüística, que tem revelado,
nessas avaliações, um completo despreparo.
Pode ser que isso não se estenda às demais
áreas, mas, quando a COPAR endossa um parecer
tão fraco, fica a dúvida se a regra não
é geral.
Diante do quadro exposto
acima, quero frisar, para concluir, que não estou
questionando aqui exatamente o fato de o meu projeto
não ter sido aprovado no programa de Bolsa Pesquisa,
embora haja razões para isso, uma vez que perdi
o prazo do edital agora em agosto em função
de ainda não ter recebido a resposta ao recurso
impetrado nos primeiros dias do ano.
O que não concordo,
em essência, é que, após um esforço
significativo para submeter um projeto, ele seja classificado
de qualquer modo (sem critérios realmente plausíveis)
e me seja dado um parecer que não permite questionar
absolutamente nada, uma vez que ele não diz qualquer
coisa que possa ser compreendida.
Como houve perguntas,
mas não houve respostas, ainda espero que o bom
senso se faça e o CNPq e o comitê LL me
encaminhem a lista com todos os projetos aprovados e,
portanto, a classificação de meu projeto
nessa lista. Do mesmo modo, ainda espero também
uma justificativa convincente de ter havido uma leitura
séria do projeto por um pesquisador preparado
para isso.
Adair
Bonini é graduado em Letras pela Universidade
Estadual de Maringá (1992), mestre em Lingüística
pela Universidade Federal de Santa Catarina (1995) e
doutor em Lingüística pela mesma Universidade
(1999). Atualmente é professor da Universidade
do Sul de Santa Catarina. Tem experiência na área
de Lingüística, com ênfase em Lingüística
Aplicada, atuando principalmente nos seguintes temas:
gênero textual, discurso, texto e ensino de Língua
Portuguesa.
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