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Na
visão da maioria dos países de língua
inglesa, o plágio é definido como a "apropriação
ou imitação da linguagem, idéias
ou pensamentos de outro autor e a representação
das mesmas como se fossem daquele que as utiliza",
conforme o Random House Unabridged Dictionary. Essa
definição é compartilhada por inúmeros
dicionários da língua inglesa, assim como
por universidades britânicas e americanas. De
acordo com a University of Hertfordshire Hatfield no
Reino Unido, o plágio se caracteriza pela apropriação
de idéias ou palavras de outrem sem o devido
crédito, mesmo que acidental. Segundo a universidade,
"o plágio é considerado uma prática
muito séria na educação superior
no Reino Unido. Mesmo que uma pequena seção
de seu trabalho contenha plágio, é possível
que a nota zero seja atribuída a ele... Em casos
mais extremos, você pode ser expulso da universidade".
Nos Estados Unidos, a prática do plágio
também é vista com bastante seriedade
e está sujeita a punições acadêmicas.
De acordo com John Edlund, da Califórnia State
University, "o plágio é uma violação
direta da honestidade acadêmica e intelectual.
Muito embora ele possa existir sob várias formas,
todos os tipos de plágio se resumem na mesma
prática: representar as idéias ou palavras
de outrem como se fossem suas... mesmo a utilização
das idéias do outro nas suas próprias
palavras sem citação também pode
ser qualificado como tal".
Como a prática do plágio aponta para desonestidade
acadêmica, ele também é investigado
pelas agências de fomento à pesquisa em
tais países. Em 2006, o Swedish Research Council
recebeu uma denúncia de fraude relacionada ao
plágio de um projeto de pesquisa. Um pesquisador
de biologia submeteu uma versão plagiada de um
projeto já entregue por sua orientadora ao National
Institutes of Health (NIH), nos EUA. O financiamento
para o biólogo foi automaticamente cancelado
após a denúncia de fraude.
TOLERÂNCIA ZERO De certa forma, o mesmo rigor
tem sido aplicado a denúncias de plágio
em publicações acadêmicas. Atualmente,
há uma política de "tolerância
zero" ao plágio, que vem se estabelecendo
através de periódicos internacionais.
Recentemente, a Elsevier estabeleceu orientações
bastante detalhadas sobre questões éticas
relacionadas ao artigo científico. Na definição
sobre o plágio, até mesmo algumas nuances
foram abordadas: "a cópia pode ocorrer mesmo
sem a reprodução exata das palavras do
texto original. Este tipo de cópia é conhecido
como paráfrase e pode ser o tipo de plágio
mais difícil de ser detectado." Para autores
acusados de plagiar idéias ou trechos de publicações
anteriores, a punição é, muitas
vezes, o bloqueio de nova submissão de manuscritos
pelos envolvidos nesse tipo de "fraude". Em
2004, O The Scientist divulgou uma dessas. O pesquisador
egípcio, Mostafa Imam, publicou, em cerca de
20 anos, vários papers sobre fósseis de
algas, auto-plagiando várias imagens. Figuras
de algas vermelhas, por exemplo, típicas de um
determinado período geológico, apareciam
como típicas do Egito, enquanto eram da Espanha.
Ele não só teve sua reputação
destruída na academia, como também comprometeu,
através de seus plágios, o estado da arte
na área de micropaleontologia. Imam ficou impedido
de re-submeter trabalhos para o periódico.
No entanto, o conceito de plágio ainda é
bastante difuso para pesquisadores de vários
países. Na verdade, não só o conceito
como também as relações que se
estabelecem com tal prática decorrem de um viés
cultural importante. A abordagem do plágio é
permeada pelo conceito de autoria e propriedade intelectual.
Sendo assim, não se pode negar que culturas que
legitimam a condenação da cópia
de textos e idéias de outrem sem a devida citação,
legitimam a propriedade intelectual do autor, ou seja,
a originalidade. De acordo com Edlund, "...em países
de língua inglesa, as pessoas acreditam que idéias
e expressões escritas podem ser possuídas.
Quando um autor escreve uma determinada seqüência
de palavras ou frases expressando uma determinada idéia,
esse autor, de fato, é dono de tais construções
e idéias. Portanto, a utilização
de tais palavras sem a devida atribuição
ao autor se configura roubo. Essa questão é
bem diferente, por exemplo, da idéia chinesa
de que palavras e idéias pertencem à cultura
e à sociedade e devem ser compartilhadas entre
os indivíduos..." O pesquisador Marcel Laffollette,
no artigo "The evolution of the scientific misconduct
issue: a historical overview" (2000), reporta que
para um cientista americano, "o roubo de suas palavras
é roubo de autoria. O roubo de sua idéia
é roubo de sua própria identidade como
cientista". A importância dada ao plágio
nas universidades e órgãos de financiamento
americanos acaba se introduzindo em outras culturas
que não compartilham dessa mesma visão
de propriedade. Para culturas confucianas – como,
por exemplo, Singapura, China e Coréia –
a autoria e a originalidade não são valorizadas
como no Ocidente. A noção de propriedade
intelectual, tradicionalmente, é bem mais coletiva
do que individual. Portanto, num contexto acadêmico
extremamente multicultural, não são poucos
os conflitos e dilemas que decorrem dessa visão
diversa de autoria e produção textual.
Há uma preocupação considerável
por parte de autores dessas culturas confucianas em
desenvolver mecanismos educacionais para diminuir as
diferenças, por exemplo, na visão do texto
do artigo científico.
Em 1996, a Science divulgou que três casos de
plágio envolvendo cientistas chineses levaram
a uma discussão nacional sobre esse tipo de má
conduta. A Academia Chinesa de Ciências, engajada
na discussão, introduziu o On being a scientist,
lançado em 1989 pela Academia Nacional de Ciências
dos EUA, entre os pesquisadores chineses. O objetivo
seria reduzir a incidência de fraudes, incluindo
o plágio, entre os pesquisadores. Hoje, medidas
educacionais contra o plágio e outras formas
de má conduta se tornaram uma das prioridades
no ambiente acadêmico daquele país.
Num editorial sobre o plágio (1996), Carlos Coimbra,
editor de Cadernos de Saúde Pública, declara
que "no Brasil pouco se fala sobre plágio
em ciência. Isto certamente decorre menos da ausência
do problema no país do que da falta de iniciativas
para aprofundar essa discussão." É
necessário considerarmos o cenário atual
da pesquisa científica. Hoje, diferente do que
acontecia até pelo menos a década de 1980,
ciência em inglês é um imperativo.
Se considerarmos que mais de 95% dos artigos na base
de dados do Science Citation Index está em língua
inglesa, qual a razão para que resultados originais
de pesquisa não tenham pelo menos uma versão
no idioma? Porém, quantos cientistas não-nativos,
incluindo os brasileiros, são proficientes em
inglês? Mais do que isso: quantos desses cientistas
conseguem produzir sua própria voz em todas as
seções do artigo científico? Para
o Brasil, um país cuja língua materna
é o português e onde o inglês não
é falado nem mesmo como terceira língua,
poderíamos dizer que bem poucos.
PERIÓDICOS ESTRANGEIROS No entanto, a produção
do país em periódicos internacionais é
crescente e hoje contamos com cerca de 1.6% das publicações
em periódicos indexados no Thomson Scientific.
Não se sabe se há trechos plagiados nessas
publicações nem mesmo o quanto de auto-plágio
existe nessa fração, já que isso
não foi investigado. Porém, se considerarmos
a realidade linguística da pesquisa brasileira
e a de uma educação voltada para a produção
do texto não como instrumento formador de senso-crítico
e opinião, nos vemos numa situação
favorável ao plágio. De acordo com Obdália
Silva, em seu Entre o plágio e a autoria? qual
o papel da universidade? (2006) [no Brasil]... "historicamente,
desde o ensino fundamental à universidade, tem-se
convivido com a prática de cópias de produções
textuais de outrem, seja de forma parcial ou total,
omitindo-se a fonte...". De volta à pergunta
(1), será que por compartilharmos uma visão
mais ocidental da autoria e propriedade intelectual,
cometemos menos plágio do que, por exemplo, os
chineses? Não necessariamente; a questão
é que a produção científica
chinesa é bem maior que a brasileira e talvez
a exposição seja maior. Quanto à
pergunta (2), será que os poucos casos de plágio
(publicizados) envolvendo cientistas brasileiros indicam
que a prática aqui é rara? Não
necessariamente, pois se a tolerância à
prática do plágio de textos em inglês,
por exemplo, for a mesma para quem comete e quem detecta,
não haveria interesse em investigar a questão.
Seria quase como se pensar em abrir uma caixa de Pandora.
O fato é que a discussão da dimensão
da prática do plágio na academia é
de extrema importância para a atividade científica.
Diante da relevância do tema e do foco internacional
que ele vem recebendo é, no mínimo, ingênuo
ou imaturo não se pensar de forma bem pragmática
em abordar o plágio nas universidades e outras
instituições de pesquisa. Isto poderia
ser discutido nos programas de pós-graduação.
Vale lembrar, porém, que a definição
de plágio aceita pelas agências de fomento
americanas e européias é bastante rigorosa
e demanda originalidade na produção textual.
É difícil pensar que apenas informação
resolva o problema de autores que, por não dominarem
a língua inglesa, se vêem "tentados"
a um empréstimo lingüístico subversivo
de pequenos trechos de artigos em inglês. Segundo
a definição internacional do plágio,
mudar algumas palavras de uma frase de outrem e incorporá-las
no texto em construção configura plágio.
Sendo assim, também é extremamente importante
que, paralelamente à orientação
sobre tal prática, também estejam políticas
educacionais que fomentem o ensino de redação
científica em inglês nos programas de pós-graduação
em ciências. Se as ações não
forem conjuntas, pouco se avançará sobre
essa questão e perderemos a oportunidade de,
inclusive, questionarmos, se for o caso, o quanto dessas
definições internacionais dialogam com
a realidade cultural e linguística em que se
dá a pesquisa científica brasileira.
Sonia
M.R.Vasconcelos é mestre em Literaturas de Língua
Inglesa e doutoranda do Programa de Educação,
Gestão e Difusão em Biociências,
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
VASCONCELOS, Sonia M. R. O plágio na
comunidade científica: questões culturais
e linguístcas. Cienc. Cult. [online].
jul./set. 2007, vol.59, no.3 [citado 05 Novembro 2007],
p.4-5. Disponível na World Wide Web: <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252007000300002&lng=pt&nrm=iso>.
ISSN 0009-6725.
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