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Na sociedade atual, só a mídia
é capaz de nos fornecer um relatório rápido
e completo dos acontecimentos que se produzem à
nossa volta. Seu papel é obter a informação,
triá-la, interpretá-la e em seguida fazê-la
circular.
Ninguém possui conhecimento direto do conjunto
do globo. Além de sua experiência pessoal,
o que se sabe provém da escola, de conversas,
mas, sobretudo da mídia. Para o homem comum,
a maior parte das regiões, das pessoas, dos assuntos
dos quais a mídia não fala, não
existem.
Na sociedade de massa, o entretenimento é mais
indispensável do que antigamente para diminuir
as tensões que ameaçam levar à
doença ou à loucura. Para a mídia,
o usuário solicita, sobretudo um divertimento
e esta função combina-se eficazmente com
todas as outras.
As funções dos meios de comunicação
em nosso mundo são indiscutivelmente importantes.
E como lhes são freqüentemente atribuídos
poderes imensos, são acusados à direita
e à esquerda, no Norte e no Sul, pelos poderosos
e pelos humildes, pelos velhos e pelos jovens de todos
os males da sociedade moderna.
De modo geral, admite-se que podem exercer forte influência,
em longo prazo, se a mensagem for homogênea, e,
sobretudo se eles forem num sentido segundo o qual os
usuários querem ir.
Um dos meios de comunicação que mais se
destaca é a televisão. Surgiu no Brasil,
em 1959 e adaptou-se a algumas transformações
sociais. Ver televisão é um costume que
já está incorporado à vida de todos
nós, seja para nos informar, através dos
noticiários, seja para nos entreter, com filmes,
desenhos, novelas, programas humorísticos, entre
outros. Por esse motivo, nem sempre prestamos muita
atenção nas várias idéias
que ela também veicula: dita padrões de
comportamento, lança modas e gírias, cria
hábitos de consumo, molda a opinião pública,
estabelece padrões morais e estéticos,
transmite valores e crenças e reforça
a idéia do preconceito lingüístico.
Dos programas cujo objetivo é
o entretenimento, os humorísticos merecem especial
atenção. Por eles, os modelos de moral,
de ética e de respeito são passados. A
grande maioria dos programas exibidos pauta-se no clássico
chavão de expor ao ridículo uma imagem
estereotipada. Comportamento sexual, orientações
sexuais, preconceito regional, lingüístico,
étnico, associação de classes menos
favorecidas ou de categorias profissionais à
ignorância, relação entre a velhice
a impotência total, seja sexual seja de discernimento,
são pontos de partida para a criação
de supostos tipos sociais e a partir deles, a criação
do que chamam de humor.
Segundo MARCONDES (2003): Esses são clichês
explorados ao máximo, reafirmando preconceitos,
ou de todos os preconceitos. O humor quase que totalmente
limitado a bordões. Isso quando ele não
explora a vida privada de uma pessoa pública.
No programa Zorra Total (da TV Globo) em especial o
quadro da personagem GISLAINE chama atenção
quanto ao modo de falar:
“... pobre fala: Eu vô na fera compra
murangu i vô coloca na sacola di prásticu...”
“... pobre só tem pobrema: pobrema de duença,
pobrema di dinhero. Então junta tudo e joga fora...”
Esse quadro humorístico, “Gislaine”,
enfatiza o preconceito lingüístico por meio
do humor, incentiva a discriminação, não
respeitando as diferenças, expondo ao ridículo
o pobre e aquele que fala fora dos padrões da
norma culta.
Conclui-se que o preconceito lingüístico
está presente na sociedade de forma implícita
e natural. Este é aceito pela comunidade, que
transita, sem perceber, pela tênue fronteira entre
língua como mecanismo de identificação
e língua como mecanismo de poder. A mídia
tenta a todo custo incutir idéias a serem seguidas
e não discutidas, vemos com clareza a exploração
política e econômica, mas não enxergamos
prontamente a dominação da língua.
Tratar de língua é uma questão
política, já que também é
tratar de seres humanos. Temos de fazer um grande esforço
para não incorrer no erro milenar dos gramáticos
tradicionalistas de estudar a língua como uma
coisa morta, sem levar em consideração
as pessoas vivas que as falam. A língua está
sempre em mutação, em constante transformação,
e a gramática normativa é a tentativa
de descrever apenas uma parcela mais visível,
a chamada norma culta. Essa descrição
é claro tem seu valor e seus méritos,
mas é parcial e não pode ser autoritariamente
aplicada a todo o resto da língua.
É necessário analisar de modo crítico
o que vemos e ouvimos, para que não sejamos manobrados,
colaborando para reforçar o preconceito lingüístico.
A questão é ensinar aos falantes da língua
a valorizar, defender seu idioma enquanto instrumento
de cultura. O ideal é ser “Um poliglota
dentro de sua própria língua”, como
afirma Bechara.
Adriana Braga é formada
em Letras e pós-graduada em Lingüística
Aplicada à Língua Portuguesa.
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