|
Fábio
de Castro: Há base científica para as
modificações contempladas pelo acordo?
Luiz Carlos cagliari: As reformas ortográficas
têm sido feitas sem o conhecimento científico
do que vem a ser a ortografia, daí uma série
de equívocos. A questão fundamental não
são as regras (as bases) que mudam desse jeito
ou daquele. Em primeiro lugar, é preciso saber
se precisam mudar, o que justifica uma mudança.
Os argumentos dados, em geral são falhos: 1)
mudar a ortografia não facilita a vida de ninguém,
porque a ortografia não representa a fala de
ninguém. É simplesmente uma representação
gráfica que permite a leitura. Não vou
ler Camões na pronúncia dele, mas na minha.
Se cada um faz isso, e isso é o que acontece,
a ortografia não representa a pronúncia
de ninguém. 2) Unificar a ortografia é
um equívoco porque, apesar de seguir regras de
uso, tiradas de uma tradição, a ortografia,
como a linguagem, em geral, sofre de transformações
no tempo e no espaço. Certamente, a escrita sofre
muito menos transformações do que a fala,
por isso dá a impressão de que é
quase imutável. Mas, a história da ortografia
de todas as línguas mostra que isto não
é verdade. Veja, por exemplo, nos computadores,
nos corretores ortográficos, quanto de variação
existe para línguas como o Inglês, o Francês,
etc. A Língua Inglesa tem uma ortografia (tradicional)
britânica e uma ortografia (tradicional) americana.
Então, por que precisamos ter apenas um modelo?
Se eles se viram bem assim, por que precisamos criar
problemas desnecessários. Os problemas diplomáticos
atingem somente a Língua Portuguesa? Ou é
um falso problema?
3) Com relação às ações
tomadas: pôr ou tirar trema não representa
grande coisa. Na verdade, não precisaríamos
de nenhum sinal além das letras, nem acento,
nem trema. Na situação atual o til seria
útil, mas há outros modos (antigos) que
mostram que a Língua Portuguesa poderia ser escrita
também sem o til. O Inglês não tem
sinais diacríticos e não cria problemas
aos usuários (e facilita o uso de computador).
Com relação ao hífen: em vez da
grande confusão que foi colocada nas bases (regras),
não poderia haver apenas uma que dissesse que
palavras compostas por composição levam
hífen, as por derivação não
levam hífen?4) etc.
F.C: Alguns críticos dizem que a reforma,
muito embora vá forçar uma mudança
em todos os livros didáticos, em arquivos de
editoras, etc, é uma reforma superficial. Ela
simplificaria a ortografia, mas não chegaria
a cumprir o objetivo de padronizar a língua.
O que o senhor acha dessa afirmação?
L.C.C: A idéia de simplificar
a ortografia é uma ilusão no tipo de reforma
ortográfica que vem sendo proposta. Talvez a
única simplificação é dizer
que não se usa mais o trema (com exceção!...)
ou o acento diferencial (?). Veja a confusão
que existe no uso de acento gráfico em Português:
há um número enorme de regras, todas desnecessárias,
porque o falante sabe onde cai o acento nas palavras
e quais vogais são abertas ou fechadas. Tirar
uma regra ou outra não muda muito. A ortografia
do Português foi padronizada em 1910 por força
de lei que, como outras não são cumpridas.
No caso, é um absurdo ter uma lei sobre ortografia.
A Língua Portuguesa é a única que
pode mandar alguém para a cadeia, se errar na
grafia das palavras, porque é regida por leis
e quem desobedecer comete, pelo menos, uma contravenção
penal, suscetível de sanção. Basta
um juiz querer. Isso é que é unificação.
Por outro lado, querer tirar todas as variantes ortográficas
é um ideal inútil. Basta ver os vocabulários
ortográficos oficiais e encontraremos variantes
(flecha / frecha; camião / caminhão; aluguel
/ aluguer, etc.)
F.C: Vale a pena, na sua opinião, fazer
uma reforma como essa? Pergunto isso porque, para quem
vê de fora, as dificuldades de implantação
das novas regras parecem grandes demais comparadas aos
benefícios. Parece importante ter uma padronização
para redigir documentos oficiais entre os países
de língua portuguesa. Mas isso em um certo número
de órgãos oficiais e comerciais, enquanto
a mudança da ortografia envolve todos os cidadãos.
Valeria a pena causar tanta comoção?
L.C.C: Como disse antes, se cada país
de Língua Portuguesa oficializasse que qualquer
documento escrito em Língua Portuguesa pode ser
aceito como documento oficial, como acontece com as
outras línguas, não haveria a necessidade
de achar que só podemos reconhecer como documento
escrito em Português aqueles que trazem a grafia
que achamos que é a única que podemos
aceitar, por ser nossa. Quando eu mando um artigo para
os USA procuro mandar na ortografia americana e quando
mando para UK mando na ortografia britânica. Por
que nós não podemos fazer o mesmo? Nunca
vi um americano reclamar da ortografia britânica
nem um britânico reclamar da ortografia americana.
É claro que há excessos (veja os blogs),
mas isso é um uso específico, não
o tradicional.
Como venho dizendo há décadas, o melhor
é não mexer na ortografia, não
fazer leis, deixar a tradição (recomendada
pelos dicionários, gramáticas, vocabulários
ortográficos) fazer sua história. Hoje,
temos que lidar e ler com muitos documentos antigos,
escritos em outras ortografias e nada disto perturba,
nem mesmo a lei que precisa desses documentos para se
pronunciar em processos e coisas semelhantes.
As regras ortográficas podem ser tiradas do uso
tradicional e não apenas através de leis.
Os usuários agem da seguinte forma: ou sei escrever
e escrevo com certeza, ou tenho dúvidas e não
adianta pensar: a solução típica
é olhar no dicionário e não ficar
procurando regras nas gramáticas. Somente em
alguns momentos da escola, essas regras são estudadas.
Elas ajudam também, mas não são
tão importantes quanto o fato de os usuários
memorizarem como devem escrever as palavras. No total
do que escrevemos, as dúvidas ortográficas
dos usuários comuns não são salvas
com as regras (bases), mas pelo conhecimento de outros
fatores, como a etimologia, a comparação,
etc.
Por outro lado, num país em que grande parte
da população não lê e muitos
mais pessoas nem sequer escreve (sendo alfabetizadas
ou não), uma reforma ortográfica vem perturbar
apenas os letrados, muito pouca gente, gente que não
quer passar o vexame de não saber mais como escrever
a grafia de palavras comuns...
F.C: Entre as mudanças,
quais o senhor considera mais impactantes? Alguma delas
é imprescindível? Alguma é dispensável?
Há diferentes motivações para as
diferentes alterações?
L.C.C: A resposta está no que
disse acima. Numa reforma, ninguém ganha e muitos
perdem. Nenhuma mudança sugerida é necessária:
são todas dispensáveis: podíamos
ficar com o que tínhamos que não mudava
nada. A grande confusão veio quando resolveram
transformar a ortografia em lei, um absurdo tão
grande quanto o fato de terem tornado oficial uma nomenclatura
gramatical brasileira. Aberração sem tamanho.
F.C: Parece que a maior resistência
à reforma vem de Portugal. Por que isso acontece?
O senhor vê, como alguns, uma "brasilificação"
da língua com essa reforma?
L.C.C: Já estive em reunião
em Portugal na qual alguns acadêmicos e escritores
discutiam a unificação. As pessoas achavam
a reforma totalmente desnecessária: tudo podia
continuar como estava, que estava bom. Nesse sentido,
esta reforma (contrariamente à de 1910) representa
um gesto brasileiro contra a tradição
da língua. As pessoas, de um modo geral, acham
que Portugal, Brasil, etc. podem usar o sistema ortográfico
em uso nos diferentes países da lusofonia ou
de fora. Para uma pessoa culta, a escrita (a linguagem
mais) traz as marcas da pátria, da história
e isso fica prejudicado por leis que pretendem que todos
sejam iguais... Os literatos são os que mais
sofrem, porque a ortografia também pode ter valor
estilístico, como acontece com Saramago. Os poetas
concretistas e alguns agentes de propaganda deveriam
ser presos, porque desrespeitam as leis da ortografia,
ou será que para eles, a lei não se aplica?
E para as crianças que estão se alfabetizando:
não podem errar? É uma questão
de lei, de cultura, de costume, de uso, de arte, ...
do quê?
F.C: A padronização
poderia aquecer o mercado editorial, viabilizando comercialmente
os livros brasileiros em Portugal, por exemplo?
- Um professor do Rio Grande do Sul, Cláudio
Moreno, comentou o seguinte: "Assisti às
mudanças em 1971, quando foi retirado o acento
circunflexo diferencial de "gelo" e "coco".
Os dicionários e livros de literatura infantil
tiveram que ir para o lixo. É uma tolice. Só
países ridículos fazem reformas ortográficas".
O que o senhor acha disso?
L.C.C: Na verdade, o problema não
está na reforma ortográfica. Alguém
poderia propor alterações na grafia das
palavras e se os usuários passarem a aderir,
com o tempo virava tradição, como aconteceu
sempre. O problema é transformar a ortografia
em lei: todos os problemas são derivados desse
erro inicial. Se não for oficial, a ortografia
pode aparecer de modos diferentes e os livreiros não
precisam jogar nada no lixo. E nossas bibliotecas: vamos
jogar fora os livros escolares de nossas bibliotecas
escolares porque estão com a ortografia errada?
Numa dessas ações, todas as cartilhas
foram jogadas fora e hoje cartilha antiga é o
livro mais raro. Eu faço coleção
e sei o quanto é difícil encontrar uma.
Mas, sem as cartilhas, como podemos escrever uma história
das cartilhas? O mesmo vale para muitos livros didáticos
e infantis que se perderam...
O português muda demais? Tive uma vivência
de alguns anos na França e não via grande
diferença entre o francês usado correntemente
e o dos livros do século 18. A língua
é viva e muda. Teremos que fazer reformas eternamente
conforme ela muda, ou seria menos confuso fazer como
os franceses, que aparentemente (falo por observação
empírica, posso estar completamente enganado)
fixam a ortografia, ainda que pareça arcaica?
Apesar da longa tradição de brigas por
reformas ortográficas na Língua Francesa
e Inglesa, o sistema se mantém há séculos
sem grandes mudanças. Poderíamos ter seguido
o exemplo, mas entramos num caminho errado. Para entender
a ortografia, a idéia básica é
a seguinte: a escrita permite a leitura (não
é transcrição fonética nem
semântica) portanto basta reconhecer na escrita
o que o usuário fala (em seu dialeto –
é assim que lemos). Para que isso funcione foi
criada a ortografia, cujo objetivo é neutralizar
a variação lingüística: não
interessa se você fala tia ou tchia, problema
ou pobrema, ponhei... a escrita é uma só:
tia, problema, pus... Desse modo, não é
o alfabeto que diz que som a letra tem, mas a ortografia!!!
A letra A tem o som de todos os AS falados em todos
os dialetos em todas as palavras da língua. Assim,
em ‘acharu’ que se escreve ACHARAM, o A
tem o som de U; em ‘encontremo’, que se
escreve ENCONTRAMOS , o A tem o som de E, assim como
em “tchia’ que se escreve TIA tem o som
de TCH, mas não em ‘tatu’, e assim
por diante.
F.C: Quanto tempo uma reforma
dessas deve levar para ser assimilada pelas populações?
L.C.C: Com relação à reforma (e
lei) de 1919, constatamos que somente na segunda metade
do século XX as pessoas aderiram de fato à
reforma (nem todas). As publicações (jornais,
revistas, livros) também só adotaram definitivamente
a reforma 50 anos depois !! No caso das reformas posteriores,
a intervenção do MEC nas escolas, nos
livros e nas editoras foi ameaçadora, como é
hoje: ou tudo ou nada. Com relação às
pessoas cultas, a reforma começa logo, por força
social. Com relação à escola é
sempre um problema grande para os professores e menor
para os alunos (eles estão ainda aprendendo e
podem aprender qualquer coisa, não precisam modificar
nada que sabiam antes... dependendo do grau de escolaridade).
O povo... pouco interessa. Muitos continuarão
escrevendo fora de qualquer padrão tradicional
ou imposto por lei, mas de acordo com hipóteses
que eles fazem de como podem escrever para alguém
ler e entender o que eles querem dizer..... ortografia
para eles é coisa de gente que estuda...
Há ainda uma questão que
nunca foi resolvida de modo correto nas muitas reformas
do século passado e nesta última. É
o caso do Ç. A letra Ç é uma letra
do alfabeto e não apenas a soma de C + cedilha
(não há outra cedilha!). A letra Ç
é uma letra independente, assim como o G, que
é C com uma barra vertical. Por quê a reforma
não colocou o Ç depois do C: A B C Ç
D E ... ? É uma ignorância dos reformadores.
O fato de o Ç não constar do alfabeto
perturba muito as crianças (e os professores)
na alfabetização. No alfabeto turco, o
Ç representa o som de [tch] e eles têm
também o S cedilha (S), que tem o som de [ch],
mais uma aberração na história
do alfabeto, causada pelo ideal de escrita de base fonológica.
Será que não colocamos o Ç no alfabeto
porque os franceses não o colocam? Atualmente,
não temos palavras começadas por Ç,
mas os franceses têm. Está na hora de colocá-la
no alfabeto!
Fábio de Castro
Editor - Agência FAPESP
www.agencia.fapesp.br
agencia@fapesp.br
Voltar
para artigos anteriores
|