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Leitura de memórias ou memórias de leituras: a aproximação do texto do outro


Por: Felippe Santos



Este escrito tem a intenção de socializar a prática de leitura das memórias de professoras em formação do município de Salvador – parte de um convênio da prefeitura com a Faculdade de Educação da UFBA, o Projeto Salvador.
A partir das trocas e das aproximações um tanto cuidadosas, e receosas, dos textos das professoras, optei por dividir as responsabilidades com o leitor ou para um futuro orientador de escritas memorialísticas. Isso porque a construção desse tipo de texto como condição para formação está cada vez mais em voga. E não demoram a brotarem diversas dúvidas de como proceder. Como se aproximar do texto do outro (ainda mais sendo um gênero memorial)?
Pois nas próximas linhas a (pre)tensão é exatamente buscar, com base na experiência, dirimir as ansiedades dos estreantes (e por que não dos rodados?). Para tal, abordarei um pouco sobre como a escrita das professoras tem definido o gênero memorial; depois, como tem sido a aproximação dos memoriais.

Primeiras lembranças…

O gênero memorial é marcado pelas lembranças de fatos que tiveram importância e que se escondem nas gavetas da memória retida, para serem acionadas no momento oportuno. Por isso, a escrita desse gênero implica em um tempo de maturação, visando a compreensão do conjunto de fatos da formação do momento recortado. Pois o Projeto Salvador, de formação em Pedagogia das professoras municipais, já se diferencia, porque a escrita se processa na medida em que se vive o processo. Isso tem um lado positivo que é o acompanhamento das transformações textuais (o que ajuda a não ter a prática de escrita como uma primeira versão), e tem um lado negativo que é anular as recordações, uma vez que as professoras se servem de apontamentos e terminam tendendo a escrever sobre tudo que se vivencia.
O perigo é o texto ter um caráter de relatório de atividades e se centrar no curso de formação apenas, o que não é parte do objetivo principal. O que se quer é que elas sejam capazes de articular vivências do curso de formação, da vida, da formação escolar e da prática em sala de aula (que acontece enquanto elas estudam). Aí está o primeiro foco de atuação do orientador. Um leitor atento ao para que se escreve. Escreve-se para deixar essa articulação singular ser percebida pelos leitores ou pelas leitoras. É preciso fazê-las (as professoras) notar que a escrita é destinada a elas mesmas, aos leitores virtuais (que estão ‘’fora’’ do curso de formação) e aos que estão vivenciando o processo.
As regras ainda assombram e são elementos de interesse imediato. Para além do que se ‘’pode’’ escrever, estão as normas da ABNT. Sabemos da importância desses elementos para a padronização e para o entendimento coletivo do texto, mas não podemos assentir com o ‘’temor’’ do que colocar no papel por ser um texto acadêmico. A Academia permite a possibilidade de transgredir também e é na tensão entre até onde posso ir que se instala a criatividade. Por outro lado, o ‘’medo’’ vem também de uma exposição ao coletivo que algumas não se permitem. Às vezes, derramam lágrimas e revelam grandes fantasmas no processo de escrita.
Essa tem sido, pois, a definição de memorial que a leitura dos textos tem apontado.

Cabrito em terra alheia tem que pisar devagar…

A aproximação do texto do outro é sempre uma aproximação de nós mesmos, uma vez que nos completamos a partir dessa interação com o outro. Por isso, todo cuidado é pouco. O que sinalizamos diz o que somos.
O que tenho visto nessa função nada fácil é que se fazem necessárias muitas leituras para entender o global. Depois disso é que podemos interagir, porque, então, somos capazes de entender o outro e sua dinâmica própria de ser, de escrever.
Pensemos que a relação com a escrita e as histórias de leitura é que vão determinar a construção do texto e, mesmo sabendo da existência de regras de composição e estruturação do memorial, buscamos estabelecer um diálogo cuidadoso mesmo ao olhar elementos tais como a concordância nominal, verbal; a pontuação; a inserção do discurso do outro; a organização em parágrafos; o uso de conectivos; a sintaxe das orações e por aí vai. Devemos ler não na perspectiva da frase e sua sintaxe, mas buscar entender o que está escrito considerando a perspectiva do enunciado, do texto. O que significa buscar todo o entorno que envolve a produção: portanto, conhecer aquela professora e dialogar com a sua escrita.
Assim, se partimos do pressuposto de que o próprio gênero de texto determina o modo de aproximação, então devemos entender o gênero. O memorial, ao revelar fatos da formação, revela fatos de como se foi formada considerando a escrita e a leitura. E, ao sinalizar algo, estamos formando, seja auxiliando a superar a própria formação normativa, seja reforçando essa postura.
Que tal sugerir construções, sugerir pontuações, sugerir concordâncias, sugerir paragrafações? O ato de sugerir não uma, mas outras formas de dizer, coloca a gramática como possibilidades de escolhas.
Esse é o caminho para não cair na mesma postura que tanto se condena, a de reforçar, durante a leitura do texto do outro, a gramática normativa como a base para a interação com a escrita ou a fala alheias.


Felippe Santos
Graduado em Letras pela UFBA e Mestre em Educação pela UFBA.
Professor da Faculdade de Tecnologia e Ciências na Modalidade EAD.

Professor substituto da Universidade Federal da Bahia.
Professor Orientador do Projeto de Formação em Pedagogia para Professoras da Rede Municipal de Ensino.
Participante do grupo de Educação e Linguagem da Faculdade de Educação da UFBA.

E-mail: ticoserpa@yahoo.com.br


 

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