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Este escrito tem a intenção de socializar
a prática de leitura das memórias de professoras
em formação do município de Salvador
– parte de um convênio da prefeitura com
a Faculdade de Educação da UFBA, o Projeto
Salvador.
A partir das trocas e das aproximações
um tanto cuidadosas, e receosas, dos textos das professoras,
optei por dividir as responsabilidades com o leitor
ou para um futuro orientador de escritas memorialísticas.
Isso porque a construção desse tipo de
texto como condição para formação
está cada vez mais em voga. E não demoram
a brotarem diversas dúvidas de como proceder.
Como se aproximar do texto do outro (ainda mais sendo
um gênero memorial)?
Pois nas próximas linhas a (pre)tensão
é exatamente buscar, com base na experiência,
dirimir as ansiedades dos estreantes (e por que não
dos rodados?). Para tal, abordarei um pouco sobre como
a escrita das professoras tem definido o gênero
memorial; depois, como tem sido a aproximação
dos memoriais.
Primeiras lembranças…
O gênero memorial é marcado
pelas lembranças de fatos que tiveram importância
e que se escondem nas gavetas da memória retida,
para serem acionadas no momento oportuno. Por isso,
a escrita desse gênero implica em um tempo de
maturação, visando a compreensão
do conjunto de fatos da formação do momento
recortado. Pois o Projeto Salvador, de formação
em Pedagogia das professoras municipais, já se
diferencia, porque a escrita se processa na medida em
que se vive o processo. Isso tem um lado positivo que
é o acompanhamento das transformações
textuais (o que ajuda a não ter a prática
de escrita como uma primeira versão), e tem um
lado negativo que é anular as recordações,
uma vez que as professoras se servem de apontamentos
e terminam tendendo a escrever sobre tudo que se vivencia.
O perigo é o texto ter um caráter de relatório
de atividades e se centrar no curso de formação
apenas, o que não é parte do objetivo
principal. O que se quer é que elas sejam capazes
de articular vivências do curso de formação,
da vida, da formação escolar e da prática
em sala de aula (que acontece enquanto elas estudam).
Aí está o primeiro foco de atuação
do orientador. Um leitor atento ao para que se escreve.
Escreve-se para deixar essa articulação
singular ser percebida pelos leitores ou pelas leitoras.
É preciso fazê-las (as professoras) notar
que a escrita é destinada a elas mesmas, aos
leitores virtuais (que estão ‘’fora’’
do curso de formação) e aos que estão
vivenciando o processo.
As regras ainda assombram e são elementos de
interesse imediato. Para além do que se ‘’pode’’
escrever, estão as normas da ABNT. Sabemos da
importância desses elementos para a padronização
e para o entendimento coletivo do texto, mas não
podemos assentir com o ‘’temor’’
do que colocar no papel por ser um texto acadêmico.
A Academia permite a possibilidade de transgredir também
e é na tensão entre até onde posso
ir que se instala a criatividade. Por outro lado, o
‘’medo’’ vem também de
uma exposição ao coletivo que algumas
não se permitem. Às vezes, derramam lágrimas
e revelam grandes fantasmas no processo de escrita.
Essa tem sido, pois, a definição de memorial
que a leitura dos textos tem apontado.
Cabrito em terra alheia tem que pisar
devagar…
A aproximação do texto
do outro é sempre uma aproximação
de nós mesmos, uma vez que nos completamos a
partir dessa interação com o outro. Por
isso, todo cuidado é pouco. O que sinalizamos
diz o que somos.
O que tenho visto nessa função nada fácil
é que se fazem necessárias muitas leituras
para entender o global. Depois disso é que podemos
interagir, porque, então, somos capazes de entender
o outro e sua dinâmica própria de ser,
de escrever.
Pensemos que a relação com a escrita e
as histórias de leitura é que vão
determinar a construção do texto e, mesmo
sabendo da existência de regras de composição
e estruturação do memorial, buscamos estabelecer
um diálogo cuidadoso mesmo ao olhar elementos
tais como a concordância nominal, verbal; a pontuação;
a inserção do discurso do outro; a organização
em parágrafos; o uso de conectivos; a sintaxe
das orações e por aí vai. Devemos
ler não na perspectiva da frase e sua sintaxe,
mas buscar entender o que está escrito considerando
a perspectiva do enunciado, do texto. O que significa
buscar todo o entorno que envolve a produção:
portanto, conhecer aquela professora e dialogar com
a sua escrita.
Assim, se partimos do pressuposto de que o próprio
gênero de texto determina o modo de aproximação,
então devemos entender o gênero. O memorial,
ao revelar fatos da formação, revela fatos
de como se foi formada considerando a escrita e a leitura.
E, ao sinalizar algo, estamos formando, seja auxiliando
a superar a própria formação normativa,
seja reforçando essa postura.
Que tal sugerir construções, sugerir pontuações,
sugerir concordâncias, sugerir paragrafações?
O ato de sugerir não uma, mas outras formas de
dizer, coloca a gramática como possibilidades
de escolhas.
Esse é o caminho para não cair na mesma
postura que tanto se condena, a de reforçar,
durante a leitura do texto do outro, a gramática
normativa como a base para a interação
com a escrita ou a fala alheias.
Felippe Santos
Graduado
em Letras pela UFBA e Mestre em Educação
pela UFBA.
Professor da Faculdade de Tecnologia e Ciências
na Modalidade EAD.
Professor substituto da Universidade Federal da Bahia.
Professor Orientador do Projeto de Formação
em Pedagogia para Professoras da Rede Municipal de Ensino.
Participante do grupo de Educação e Linguagem
da Faculdade de Educação da UFBA.
E-mail: ticoserpa@yahoo.com.br
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