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Roberta Binatti e Tatiana Mattos estiveram em Paraty
representando o Português do Brasil na V Festa
Literária Internacional de Parati – FLIP
– e têm muito o que contar a respeito desta
grande festa.
De acordo com a organização
do evento, dos dias 4 a 8 de julho circularam na festa,
além dos vinte mil turistas que lotaram a cidade,
setenta e seis escritores de onze países, dentre
eles dois vencedores do Prêmio Nobel. A FLIP –
que nesta quinta edição homenageou o escritor,
jornalista e cronista Nelson Rodrigues – foi composta
por vinte e uma mesas de debate e eventos paralelos,
tais como: a Flipinha com diversas atividades para crianças
e a Off Flip com mesas de debate, saraus, palestras,
lançamentos de livros e revistas, entre outras
atividades.
As vinte e uma mesas da FLIP aconteciam
na Tenda dos Autores, onde podíamos estar frente
a frente com os autores que estavam participando dos
debates, inclusive enviar perguntas para eles, porém
nem sempre o tempo era suficiente para que estas fossem
respondidas. Os debates que ocorriam na Tenda dos Autores
eram transmitidos ao vivo para a Tenda da Matriz, onde
eram acompanhados através de três telões.
Para assistir às mesas de debate se fez necessário
comprar os ingressos com antecedência, os ingressos
da Tenda dos Autores custavam R$ 20,00 e os da Tenda
da Matriz R$ 6,00. Logo após cada mesa de debate
era possível pegar autógrafos dos autores
num espaço montado especialmente para isto, logo
ao lado da Livraria da Vila.
A primeira mesa da FLIP foi “Futuro
do presente” onde estavam presentes jovens escritores
brasileiros – Cecília Giannetti, Fabrício
Corsaletti e Verônica Stigger – o assunto
foi o destino da literatura nacional.
A segunda mesa, “Uivos”
foi marcada pelo encontro da música, representada
por Lobão e da poesia, representada por Chacal.
O primeiro “uivou” algumas canções,
o segundo algumas poesias e ambos, acostumados a trilhar
circuitos alternativos e independentes, “uivaram”
contra a indústria cultural.
A mesa de debates “Sobre macacos
e patos” reuniu talentos literários excêntricos
com estilos bem diferentes a fim de tentar responder
às perguntas: “Até que ponto o processo
criativo na literatura pode ser ensinado?” e “Qual
a melhor forma de alimentar a criatividade dos escritores?”.
Participaram da mesa o escritor americano “cult”
Jim Dodge, poeta, autor da fábula “Fup”
e diretor do Programa de Escrita Criativa da Humboldt
State University e o inglês Will Self, escritor
e jornalista, que se demonstrou tão sarcástico
e provocador durante o debate quanto é na ficção.
A quinta mesa, “Tão longe,
tão perto” foi marcada pela primeira alteração
na programação, o escritor de Gana William
Boyd foi substituído pelo angolano José
Eduardo Agualusa, que participou do evento em 2004 dividindo
a mesa com Caetano Veloso. Desta vez Agualusa dividiu
a mesa com a indiana Kiran Desai, ambos falaram sobre
deslocamentos necessários à profissão
de escritor e a confusão de identidades com a
qual convivem em países como a Índia e
Angola. A participação numa edição
anterior da FLIP, tamanha a importância do evento
e pelo fato de estar ao lado de um nome de grande expressão
da música popular brasileira, fez com que Agualusa
dividisse sua carreira de escritor aqui no Brasil em
duas fases: a.C. e d.C. antes e depois de Caetano.
O terceiro dia da FLIP teve início
com uma mesa bastante polêmica, “A vida
como ela foi”, com a participação
dos biógrafos Fernando Morais e Ruy Castro e
do historiador Paulo César de Araújo,
este último autor da biografia de Roberto Carlos
que teve todos os exemplares apreendidos pela justiça
após um acordo entre o biografado e a editora.
A experiência de enfrentar a justiça devido
a um trabalho biográfico foi nova para Paulo
César, mas já é bem conhecida dos
outros autores que estavam participando da mesa: Ruy
Castro disse que lutou junto com a editora durante onze
anos para garantir o direito de circulação
da biografia do Garrincha “Estrela solitária”;
Fernando Morais está sendo processado pela biografia
jornalística “Na toca dos leões”,
onde Morais esmiúça a vida de Washington
Olivetto, Javier Llussá Ciuret e Gabriel Zellmeister,
os fundadores da W/Brasil, uma das agências de
propaganda mais premiadas do mundo. Nesta mesa foi proposta
a criação de um abaixo-assinado dos escritores
reunidos em Paraty com o intuito de propor à
Câmara dos deputados uma emenda constitucional
que garanta os direitos de informação
e de liberdade de expressão assegurados pela
Constituição Federal, mas que entram em
conflito com o direito de imagem, honra e intimidade
disposto no mesmo artigo da constituição.
De acordo com Morais, a contradição presente
na constituição dá brechas a atos
de censura, para ele e os demais participantes da mesa
a história não poderá ser contada
através de biografias se todos os presentes numa
determinada obra reclamarem invasão de privacidade
como fez Roberto Carlos.
Na mesa oito, “Terras”,
estavam presentes o baiano Antônio Torres e o
moçambicano Mia Couto, eles falaram sobre suas
vidas, seus passados e disseram acreditar na linguagem
como o lugar onde o escritor percorre uma trajetória,
onde encontra palavras, histórias e vidas vividas.
As últimas mesas de sexta-feira
foram: “Crime e castigo” composta pelo americano
Dennis Lehane e pelo mexicano Guillermo Arriaga ambos
marcados por vivências de violência durante
a juventude, marcas estas que, segundo eles, continuam
a contribuir em suas obras, eles partilham a idéia
de que a literatura está entrelaçada com
a vida; e “Panteras no porão”, onde
a sul-africana, Prêmio Nobel Nadine Gordimer dividiu
as atenções com o israelense Amós
Oz.
O sábado teve início com
outra ausência, Arnaldo Jabor, que não
participou da mesa “Nelson Rodrigues ato 3”,
porém enviou um vídeo com seus comentários
sobre o escritor, Jabor foi substituído por Nelson
Mota, os demais participantes desta mesa que falou da
pessoa de Nelson Rodrigues e de suas obras eram o artista
plástico e escritor Nuno Ramos e a professora
de literatura e ensaísta Leyla Perrone-Moisés.
O sábado foi marcado pela presença
de grandes nomes: o argentino César Aira dividiu
a mesa “Dois lados do balcão” com
o brasileiro Silviano Santiago; o argentino Alan Pauls
e a poeta, ensaísta e psicanalista Maria Rita
Kehl afirmaram nos debates da mesa “Perdoa-me
por me traíres” que o amor é uma
forma de doença; o americano Lawrence Wright,
um dos mais respeitados jornalistas investigativos da
atualidade, dividiu a mesa “Narrativas de conflito”
com Robert Fisk, correspondente do jornal britânico
“The Independent” no Oriente Médio;
o esperado sul-africano, Prêmio Nobel John Maxwell
Coetzee, que teve a mesa “Diário de um
ano ruim” exclusivamente para ele, apenas fez
leituras do seu próximo romance com título
homônimo ao da mesa e, não aceitou perguntas
do público.
Às vinte e duas horas a mesa
“Um beijo” foi completamente diferente das
demais, vários autores, entre eles Silviano Santiago,
Jorge Mautner e Sérgio Sant’anna cantaram,
dançaram e contaram histórias sobre Nelson
Rodrigues e da tragédia carioca “O beijo
no asfalto”.
A primeira mesa do último dia
da FLIP foi “De Macondo a McCondo”, composta
pelo argentino Rodrigo Fresán e pelo mexicano
Ignacio Padilla, os autores afirmaram terem seus próprios
caminhos para fazerem suas obras, que misturam gêneros
literários, derrubam fronteiras geográficas
e que são ecléticos, esta mesa deveria
acontecer às 17:00h, mas teve seu horário
trocado com a mesa que ocorreria às 10:00h “Sem
Dramas”.
O professor de história do Brasil
na Universidade de Paris IV – Sorbone, Luiz Felipe
de Alencastro, foi o responsável pela décima
oitava mesa do evento “No coração
da selva” e por mais de um minuto de aplausos
do público quando criticou a postura do Governador
do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, em apoiar a
ação da polícia no Complexo do
Alemão, alegando que o Estado precisava optar
entre a civilização e ou a barbárie.
Para Alencastro está acontecendo aqui o mesmo
que ocorreu nos países europeus quando estes
tentavam justificar o imperialismo no século
passado.
A mesa “Sobre meninos e lobos”
foi dividida entre o escritor de Serra Leoa Ishmael
Beah, autor do livro “Muito longe de casa –
memórias de um menino soldado” e Paulo
Lins, brasileiro, autor do livro que deu origem ao filme
homônimo “Cidade de Deus”. Bosco Brasil
e Mário Bortolotto dramaturgos brasileiros premiados
por escreverem suas peças, montarem suas companhias
e arrumarem espaços alternativos para encená-las
compuseram a mesa “Sem dramas”.
A vigésima primeira mesa, a mesa
de despedida da FLIP 2007, foi marcada pela presença
de alguns autores que tiveram de escolher um livro que
levariam para uma ilha deserta. A primeira a escolher
foi Nadine Gordimer que escolheu o escritor contemporâneo,
Chinua Achebe. Amós Oz optou pelo escritor israelense
S. Agnon. Nuno Ramos escolheu um texto da Clarice Linspector
"O crime do professor de matemática".
Rodrigo Fresán citou um escritor espanhol que
disse que se ele tivesse que sobreviver numa ilha deserta
com apenas um livro, preferia morrer afogado. Mas, já
que tinha que escolher um, elegeu o escritor americano
Kurt Vonnegut. Ahdaf Soueif escolheu ler poesias de
um autor desconhecido do Antigo Egito. Veronica Stigger
levaria consigo Kafka. Jim Dodge escolheu o clássico
chinês “Tao Te Ching”, de Lao-Tse,
do século I e Coetzee leu o texto "Molloy",
de Samuel Becket.
E assim termina a FLIP
2007, nos vemos na FLIP 2008!!!
Roberta Binatti
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