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POR DENTRO DAS ÁGUAS:
os símbolos noturnos em Beira-mar, de Zé Ramalho

Por: Regivaldo Batista Monteiro


A proposta do presente trabalho é investigar os elementos do imaginário numa obra literária. Para isso, faremos uma análise da canção Beira-mar, do cantor e compositor paraibano Zé Ramalho, esclarecendo a função dos símbolos, especialmente os símbolos noturnos, na esperança de elucidar as complexidades semânticas ocultas sob um manto de aleatoriedade e improvisação que a leitura ingênua costuma ver na poética popular.
Eis o poema-canção (Beira-mar), que faz parte do álbum “Zé Ramalho 2”, lançado pela Epic (CBS - Sony Music) em 1980:

Eu entendo a noite como um oceano
Que banha de sombras o mundo de sol
Aurora que luta por um arrebol
De cores vibrantes e ar soberano
Um olho que mira nunca o engano
Durante o instante que vou contemplar
Além, muito além, onde quero chegar
Caindo a noite me lanço no mundo
Além do limite do vale profundo
Que sempre começa na beira do mar

Por dentro das águas há quadros e sonhos
E coisas que sonham o mundo dos vivos
Peixes milagrosos, insetos nocivos
Paisagens abertas, desertos medonhos
Léguas cansativas, caminhos tristonhos
Que fazem o homem se desenganar
Há peixes que lutam para se salvar
Daqueles que caçam em mar revoltoso
Outros que devoram com gênio assombroso
As vidas que caem na beira do mar

Até que a morte eu sinta chegando
Prossigo cantando, beijando o espaço
Além do cabelo que desembaraço
Invoco as águas a vir inundando
Pessoas e coisas que vão arrastando
Do meu pensamento já podem lavar
No peixe de asas eu quero voar
Sair do oceano de tez poluída
Cantar um galope fechando a ferida
Que só cicatriza na beira do mar

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que Zé Ramalho pertence a uma casta de poetas devedora e herdeira dos trovadores medievais, não obstante a originalidade e especificidade de sua obra. Surgido para a mídia nos anos 70 pós-tropicalistas, faz parte de uma geração de nordestinos que ignora as barreiras entre a cultura popular e a erudita. Seu estilo único, permeado de referências a imagens apocalípticas, profecias de beatos sertanejos e figuras mitológicas evocam um paradoxal ar de surrealismo arcaico e pós-moderno. O artista em questão alia o que poderíamos chamar de “cultura universitária” de artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico César (que transitam à vontade no ambiente cultural das metrópoles), a uma fidelidade telúrica ao imaginário dos poetas populares de sua região (que estão radicados no, digamos, “Nordeste profundo”), e o faz de modo tão singular que se pode enxergar nele um intuitivo empírico ou um meticuloso artesão da palavra.
Vemos em Beira-mar um texto que parece ter sido feito por encomenda de Gilbert Durand, estudioso francês pioneiro dos estudos do imaginário, que, na obra As estruturas antropológicas do imaginário, explicita as relações entre um regime diurno e um regime noturno das imagens. Este último estaria ligado ao mergulho e à aceitação do inconsciente, que precisa ser “domado” e usado a favor do homem, ao invés de negado e atacado por aquele, que o vê como inimigo e ameaça. Durand surpreende a presença, no regime diurno, da luta dos opostos, e estuda os símbolos nictomórficos (ligados à noite), teriomórficos (relativos a animais) e catamórficos (relativos ao fenômeno da queda). Tudo isso encontramos em Beira-mar. Desde o início do poema, a figura da noite aparece, e em torno dela gravitam as metáforas e símbolos-chave. Bem adequada essa centralidade, pois o gênero da canção é o galope à beira-mar, o qual exige a tematização do mistério. O detalhe, no plano formal, é a exigência de a palavra final de cada estrofe ser mar ou beira do mar. Ora, mar (ou oceano) simboliza o mundo fenomênico, o espaço primevo de transição entre o formal e o informal. As águas escuras do oceano são o ventre da mãe Natureza e o reino do Inconsciente, e tudo isso se associa à noite, por oposição à lucidez da vigília-razão-claridade solar e racional.
Na primeira estrofe, testifica-se o embate entre forças elementares (Luz X Trevas) em que o poeta subverte o clichê do “banho de luz”, ou “banho de sol”. Banho, indicador de pureza, no clichê equivale ao pólo positivo, do Bem. Já noite carrega, em nível simbólico, os semas do impuro, do pecaminoso, da sujeira, de tudo o que é do pólo negativo no onipresente dualismo que a nossa cultura ocidental-cristã (e as civilizações levantinas em geral) herdou do antigo zoroastrismo. As trevas aparecem como uma fluência e uma expansão que afirmam sua existência e força sobre o ser e o mundo. Não se promove com isso uma inversão, mas uma subversão, do valor comumente atribuído a cada um dos lados da disputa. A postura de mostrar o Bem vencendo o Mal, a Luz derrotando as Trevas, cede lugar à de privilegiar o enfoque do pólo normalmente estigmatizado, não para “trocar o dia pela noite”, mas para, como na mitologia nórdica e em tantas outras, afirmar a visão em que a totalidade da existência abrange os pólos conflitantes, sem que nenhum oposto seja valorado positivamente em detrimento do outro. Assim, a natureza do mundo é a luta entre trevas e luz, ambas necessárias e inerentes à existência: “Eu entendo a noite como um oceano/ Que banha de sombras um mundo de Sol,/ Aurora que luta por um arrebol/ De cores vibrantes e ar soberano,/Um olho que mira nunca o engano/ Durante o instante que vou contemplar (...).” Não esqueçamos que a luta entre esses elementos (o macrocosmo)simbolizam, numa leitura junguiana ou alquímica, os percalços do ser ( o microcosmo) em busca de sua individuação. O percurso do eu lírico consiste, aqui, num reconhecimento desse encontro de forças, consciente versus inconsciente, instaurando uma poética das fronteiras e do enfrentamento corajoso da vida, com todos os seus perigos. O mundo de Sol do consciente só ganha sentido por coexistir com o banho de sombras. Observe-se que o eu advoga a tese de que trazer à tona os poderes obscuros contribui, paradoxalmente, para a “iluminação” do ser. Afinal, Noite é igual a Oceano, e também a Um olho que mira nunca o engano. Alçado à mesma importância de dois símbolos de primeira grandeza no plano mitológico, o olho que superou a possibilidade de ilusão lembra as imagens de místicos orientais que levantaram o véu de maya, a ilusão universal. Os traços lingüísticos são claros. Afinal, o eu se apresenta como sujeito dos verbos entender e contemplar, no trecho inicial do poema, o que remete aos campos semânticos tanto do entendimento cognitivo quanto da iluminação mística. O caminho para essa transcendência não é, contudo, a via mais aceita pelo Ocidente, que despreza o mundo, e promove a separação dualística do Bem e do Mal. Estamos diante do caminho que implica um mergulho nos elementos que compõem a Natureza, tanto interna quanto externa, que caracteriza o regime noturno das imagens, como se vê no trecho seguinte da estrofe.
A estrofe se fecha com o símbolo catamórfico que é veiculado com o desejo de transcendência: “Além, muito além onde quero chegar,/ Caindo a noite me lanço no mundo, / Além do limite do vale profundo/ Que sempre começa na beira do mar.” O “limite do vale profundo” representa a zona de transição da luz da consciência para o abismo-mar do Inconsciente, pleno de promessas e de riscos. Não é a separação de um pólo, ou o evitamento de um em benefício de outro, que atrai o eu. Antes, ele defende que o início da jornada de transcendência (o Além do limite...) se inicia no espaço em que há o encontro dos elementos: terra, água, fogo e ar. Aliás, permitamo-nos a especulação, seguindo pistas de Jung, de que a consolidação desse gênero do cancioneiro nordestino, a saber, o galope à beira-mar, pode advir de razões ligadas ao inconsciente coletivo e ao trabalho alquímico de individuação.
Talvez seja hora de abrir parênteses para explorar a própria denominação do gênero, que tem no título a palavra “galope”, que indica, nos mitos heróicos, o herói, em sua jornada interior, montando o cavalo – sua natureza animal inferior domada e usada de forma construtiva. “Galope” implica o movimento rítmico da busca e significa, ainda, significa o ritmo do significante poético. Assim, dizer “galope à beira-mar” é abranger o plano dos significantes e dos significados, extrapolando para os sentidos simbólicos inesgotáveis que se ligam à jornada interior do Si mesmo, mergulhando no mundo dos fenômenos, no espaço da dança dos elementos (a beira do mar), para romper todos os limites e atingir um Além. Daí porque a denominação lembra o mundo rural, interiorano dos vaqueiros nordestinos, mas curiosamente associado ao espaço litorâneo. O galope dos vaqueiros do sertão, do espaço árido, junto da beira do mar, contraria a dicotomia estereotipada sertão-mar, árido-úmido, terra-água. Galope, palavra de ação, implica a presença do elemento humano, do elemento natural (animal) transitando pelo espaço de fronteiras (beira) do macrocosmo (o mundo fenomênico, o exterior, o Cosmos) e o microcosmo (a psique, o interior, a alma). Não negar o mundo, não tomar partido por este ou por aquele lado no jogo das forças cósmicas, é o caminho escolhido pelo eu-herói. Uma postura que não nega os perigos da estrada.
Os perigos dessa empreitada pela noite interior são explicitados na segunda estrofe. O espaço dos riscos, das ameaças, dos obstáculos que exigem um esforço heróico de superação, corresponde ao “Ói, por dentro das águas há quadros e sonhos/ E coisas que sonham o mundo dos vivos/ Há peixes milagrosos, insetos nocivos,/ paisagens abertas, desertos medonhos,/Há léguas cansativas, caminhos tristonhos/ Que fazem um homem se desenganar,/ Há peixes que lutam para se salvar/ Daqueles que caçam em mar revoltoso,/ E outros que devoram com gênio assombroso/ As vidas que caem na beira do mar”. Essa segunda estrofe condensa no mesmo contexto símbolos teriomórficos e catamórficos. Afinal, além de “insetos nocivos” temos peixes capazes de devorar os incautos aventureiros do mergulho no Inconsciente. Por outro lado, o percurso por “dentro das águas” evoca a descida aos Infernos de heróis mitológicos caros à nossa cultura, como Cristo, Orfeu e Dante. Por que os peixes (a natureza instintiva) não lutam para se salvar “Daqueles que pescam”, ao invés de “Daqueles que caçam?” Porque a imagem da pescaria se liga, simbolicamente, à ação do avatara que resgata os homens-peixes imersos no mar da inconsciência, sem despertar, incapazes de perceber sua condição existencialmente precária. Mas a imagem da caçada, que implica matar um animal terrestre após seguir-lhe o rastro, significa a busca espiritual (ver O Dicionário de símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant). Matar o animal é afirmar a ordem da consciência espiritual sobre uma fração do caos até então incontrolada. Vencer a natureza inferior, dos instintos. Lembremos ainda o Krishna pisoteando as cabeças múltiplas da serpente Kaliya, na mitologia indiana, e a variada iconografia da cristandade medieval sobre o mesmo tema, de inspiração numa maldição do Gênesis.
Em recapitulação, vemos na obra o relato de um eu que, na primeira estrofe, afirma-se um estado de lucidez (“Eu entendo a noite... Um olho que mira nunca o engano... o instante em que vou contemplar”) pelo próprio ato de efetuar a descrição segura de um mistério, desvelado porém em linguagem cifrada, por se enraizar esta no manancial de símbolos universais da psique humana, aquilo que Jung chamou de Inconsciente Coletivo. A segunda estrofe aprofunda a descrição do mistério, correspondendo a uma descida lúcida à “noite escura da alma” pela qual é imperioso passar, enfrentando e vencendo os monstros interiores, embora tal empreitada envolva riscos para a integridade do Self. Por se tratar de um mistério de interesse universal, concernente a todos os homens, o poeta nesta passagem usa apenas a terceira pessoa. A terceira estrofe retoma a primeira pessoa. O foco agora passa para a vitória, a ascensão do herói em sua jornada interior: “E até que a morte não sinta chegando,/ Prossigo cantando, beijando o espaço,/ Além dos cabelos que desembaraço/ Invoco as águas a vir inundando/ As pessoas e coisas que vão arrastando,/ Do meu pensamento já podem lavar./ No peixe de asas eu quero voar,/ Sair do oceano de tez poluída/ Cantar um galope, fechando a ferida/ Que só cicatriza na beira do mar.”
A estrofe final é o relato do triunfo. Começa pela aceitação das contingências inerentes ao mundo fenomênico com um sereno autodomínio. Observe-se a imagem do cabelo. O eu, ao desembaraçar o cabelo, desfaz os nós, os vínculos das relações, pessoais ou com objetos simbólicos, internalizados conflituosamente. É um ser que não foge ao mundo das relações, mas cultiva o desapego. Dizer “cabelo” e não “cabelos” (no plural), é entender os problemas de quaisquer natureza como parte de um continuum que não mais interfere na harmonia interior. Como o mago do tarô, o eu adquiriu a capacidade de fazer jogar a seu favor as potências elementares. Singular alquimista, sabe aproveitar o lado positivo de todo elemento da vida, que, como sabemos, apresenta dois pólos; daí a referência à água limpa (que atuará na lavagem simbólica da “sujeira” das relações) e à água suja, não mais ameaçadora por ter sofrido a transmutação alquímica: “sair do oceano de tez poluída.” O símbolo teriomórfico análogo ao das águas é o do peixe, que se transforma no “peixe de asas”: Ou seja: ao invés de matar a natureza inferior, mais vale usá-la de forma produtiva e colocá-la a serviço da tarefa de ascensão do Self. Cavalga-se o peixe de asas para subir aos céus da iluminação espiritual, elevando-se acima da noite da alma, alcançar e viver nas alturas da harmonia do ser. Não é à toa que se realiza um galope na própria concepção arquitextual. Um galope à beira-mar. Realizar esse trabalho significa curar a ferida da própria desarmonia espiritual, fazer reverdecer a Terra Devastada. O que nos leva à figura do rei-pescador dos contos do Graal.
Os muitos verbos no gerúndio talvez sirvam para afirmar que essa é uma tarefa contínua. Não há glória no chegar, a viagem é que conta. Quem não quiser entender a noite da alma, adentrar as águas do oceano de si mesmo, não cavalgará o peixe de asas nem dominará a técnica de cantar um galope que cicatriza a ferida (o velho tema schopenhaueriano da arte como um lenitivo para as dores do mundo).
À guisa de conclusão, precisamos reafirmar a unidade do Homem e a do imaginário do Homem. Nesse aparentemente simples poema (ao mesmo tempo canção popular), onde uma primeira leitura de superfície enxerga uma seqüência de imagens ou busca de rimas dentro de uma forma fixa, podemos enxergar uma coerência tanto dionisíaca quanto apolínea, tanto cartesiana quanto pós-moderna, tanto plena de conteúdos arcaizantes, primitivos (no bom sentido), quanto fecunda de relações transtextuais complexas. O nosso primeiro olhar pouco mostra, porque se trata de uma escuridão que não habita o texto, mas está em nós mesmos. Com um pouco de paciência, e armados das leituras pregressas e de conteúdos atávicos, podemos decifrar as metáforas, e dizer como o poeta: "Eu entendo a noite..."

Referências:

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1988.
CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain.Dicionário de símbolos. 9.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.
DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Regivaldo Batista Monteiro é mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ (2001), e especialista em Literatura Brasileira pela UFPB (1996), onde também concluiu em 1990 a graduação em Letras.


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