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O sentido do discurso jornalístico através
de cartas dos leitores

Por: Alexandre Sebastião Ferrari Soares


O propósito deste trabalho é analisar, segundo as concepções da escola francesa de análise do discurso, os sítios de significância (ORLANDI: 1996, 15) que foram se estabelecendo sobre a construção do discurso da imprensa na própria imprensa.
Para isso, analiso as cartas de leitores publicadas nas revistas Veja e Istoé na segunda metade da década de 1980, mais especificamente entre os anos de 1985-1990.
Aqui, nessa apresentação, priorizo apenas o efeito de sentido da construção do discurso jornalístico que se pauta numa pretensa abordagem em torno dos mitos de verdade, objetividade, neutralidade e imparcialidade e numa equivocada consideração de que a linguagem seria, não um efeito de sentido, mas transmissão de informação.
O recorte temporal proposto se deu por ser possível considerar que a partir de 1985 a ciência já não falava mais em grupos de risco, mas em comportamento de risco e que em alguns artigos publicados por pesquisadores norte-americanos e europeus a AIDS era uma doença transmissível, principalmente, através do sexo e, portanto, não mais própria de certos grupos (principalmente dos homossexuais e dos viciados em drogas injetáveis).
A imprensa, no entanto, continua fazendo a manutenção do sentido que afirma ser a AIDS, senão própria dos homossexuais, muito próxima ainda desse grupo. Mesmo depois da ciência negar qualquer relação entre ser soropositivo (quando um indivíduo tem presente no sangue anticorpos que provam a existência de um agente infeccioso) e pertencer a um grupo específico.

As matérias sobre transmissão em alguns grupos são muito mais freqüentes do que em outros. É interessante observar como, na imprensa, merece grande destaque a transmissão entre homossexuais e pouco se comenta sobre a transmissão heterossexual. O jornal, habitualmente, vai em busca do exótico da AIDS entre minorias e ignora o risco cotidiano que faz parte da vida das maiorias. O texto interdito refere-se à conduta do indivíduo heterossexual que tem vários parceiros e está sujeito a se contaminar. (CAMARGO: 1994, 115-116, grifos nossos)

A epidemia dessa forma se estabelece como doença própria dos homossexuais: o sentido se naturaliza por essa via. A imprensa ignora a heterossexualização da AIDS e vai além, alimenta o vírus que se sustenta dessa relação: homossexual & AIDS.
A imprensa falada e escrita, em várias instâncias e de formas diversas, trouxe à baila manifestações que, de alguma forma, ou de forma clara, expressam um discurso homofóbico no qual ser portador do vírus e ser homossexual praticamente significaria a mesma coisa: alguns exemplos de manchetes sobre o tema:
• “A peste rosa” Jornal da Tarde de 01.09 de 1983;
• “AIDS – a peste do século XX – doença chega ao Brasil e alarma comunidade gay” Correio Braziliense de 17.06 de 1983;
• “Homossexuais cubanos transmitem a doença” O Globo de 19.03 de 1983;
• “Síndrome ou Câncer-gay” A Tarde de 07.06 de 1983;
• “Síndrome gay deixa Europa amedrontada” Correio Braziliense de 06.07 de 1983;
• “Síndrome gay leva os americanos à histeria” Correio Braziliense de 09.07 de 1983. (apud NETO: 1999, 50-51, grifos nossos).

São essas as condições de produção dos textos que tratavam da epidemia até então pouco conhecida. A ciência não foi capaz de, com as então recentes descobertas, direcionar de outra forma o que a imprensa publicava sobre ser o homossexual portador em potencial do vírus e principal responsável pela transmissão da doença.
A fim de fazer um recorte sobre esse imaginário em torno do sentido do discurso jornalístico, destaquei, das seguintes cartas¹ , alguns trechos pertinentes sobre ele:

Carta.1
“Sei que existe homossexualismo em todas as partes do mundo, acho até muito natural em termos biológicos; contudo, não sabia que no Brasil, além dos problemas econômicos, sociais e de saúde, na caso da AIDS, existia tanta falta de vergonha, tanta promiscuidade, demonstrada na reportagem Garotos de Aluguel”. (Mário A. Rego. São Luís – MA, da revista Istoé edição 533 de 11 de março de 1987, grifos nossos)

Carta.2
Sobre a reportagem “Ataque pelo ar”, de VEJA nº 984, acho bastante importante o esclarecimento da população brasileira a respeito da AIDS. Porém, não como vem sendo veiculada na TV. Deve-se deixar bem claro que não é o uso da “camisinha” nas relações sexuais que vai banir o mal do planeta.
(Paulo Fernando Rodrigues da Cruz, Rio de Janeiro, RJ, revista Veja, ed. 990 de 26 de agosto de 1987, grifos nossos)

Carta.3
A respeito da reportagem sobre o cantor Cazuza, quero dizer que VEJA tem tido um papel honrado e moralizador ao longo de sua existência, não podendo ser atingida, injustamente, por sentimentos temporários e emocionais. (Paulo Roberto Magalhães de Jesus, Salvador, BA, revista Veja, ed. 1078 de 10 de maio de 1989, grifos nossos)

As cartas não só comentam (FOUCAULT, 1996) as informações veiculadas pelas revistas, mas também fazem considerações a respeito do discurso, ou melhor, desse efeito do discurso jornalístico.
O efeito do discurso jornalístico que faz sentido para os leitores é o de que, nessas revistas, a linguagem é um meio de comunicação de informação. Os leitores agradecem ao editor ou à própria revista (como uma entidade que se auto-organiza) pelos serviços prestados, pelas informações recebidas e veiculadas através dela.
Para o leitor, no imaginário que circula sobre o discurso da imprensa, não poderia ser publicado nada além dos fatos que ocorreram ou, num furo de reportagem, estão para acontecer. E mais, como diz (MARIANI 2005), se foram publicados são importantes, e ainda, só são importantes porque foram publicados.
Sobre o pré-significado impresso por uma relevância constituída pelo imaginário (neutralidade, veracidade etc.), destaco as seguintes passagens (selecionadas das cartas 1-3):
O leitor não sabia, mas passou a saber, depois de informado pela revista, que a falta de vergonha e promiscuidade tinham relações com a AIDS.

“não sabia que no Brasil, além dos problemas econômicos, sociais e de saúde, na caso da AIDS, existia tanta falta de vergonha, tanta promiscuidade, demonstrada na reportagem Garotos de Aluguel”. (carta 1)

O leitor seguinte acha importante que a população brasileira seja esclarecida a respeito da doença. A revista retira da ignorância, escuridão, os leitores com as suas informações sobre a epidemia.

“acho bastante importante o esclarecimento da população brasileira a respeito da AIDS”. (carta 2)

Um outro leitor destaca, além da prestação de serviço digna de honra, que a revista também tem como atribuição moralizar e, por isso, não poderá ser atingida por sentimentos temporários e emocionais.
Um dado importante, na construção dessas colunas, é o que nos aponta SOUZA (1997) em relação à moral cívica que emerge dos discursos ao tornarem as questões ligadas à ordem do privado, públicas².
Segundo este autor, a questão da subjetividade, nas cartas, está ligada à escolha da forma sujeito que irá elidir nas instâncias públicas. Isso seria um novo dispositivo de subjetivação no espaço público. Já que nem tudo pode ser dito e nem qualquer um pode dizê-lo.
Por isso, a moral cívica toma um espaço bastante considerável nas cartas que compõem o corpus dessa pesquisa: em nome da sociedade, em nome da família, em nome da moral e dos bons costumes, em nome de Deus são muito recorrentes nesses textos.
Soma-se a isso o fato de que não é qualquer assunto que está sendo comentado, mas a sexualidade. Acrescenta-se ainda o fato de que não se trata de uma sexualidade qualquer, mas da homossexualidade.
Sobre a moral cívica, segundo SOUZA (1997), destaco as seguintes cartas (6 abaixo):

Carta.4
Com relação à matéria sobre a AIDS, cito a Bíblia sagrada na epístola aos romanos, capítulo 6, versículo 23: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna”. (Rosângela Zacarkim dos Santos, Cuiabá, MT, revista Veja, edição 890 de 25 de setembro de 1985, grifos nossos)

AIDS coloca na ordem do público o que deveria ser da ordem do privado: a relação sexual de cada um, porque ela revela a história pregressa do portador do vírus. Essa história também não é qualquer uma: trata-se de tornar público questões que não eram (podiam ser) abordadas por diversos motivos: a AIDS epidemia até então pouco estudada, sabia-se apenas que era transmitida através do contato sexual, mas não era qualquer contato (pelo menos discursivamente), mas do contato entre homens. Essa relação era, ainda é, analisada oficialmente através de princípios cristãos, de leis moralizadoras, e de um discurso médico que confundia moralidade com prescrição de doença e que até bem pouco tempo considerava a homossexualidade uma doença.
Na carta 4, a leitora fala em nome de Deus: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna”.
Nesses espaços, que se pretendem mediadores entre o público e a mídia, não passam de uma espécie de ilusão de uma possível subjetividade. Primeiro porque o espaço é construído pela própria revista, depois porque é a revista que determina o espaço que pode ser ocupado por ele (o leitor), em termos discursivos e, finalmente, essa ocupação é regulada (não são publicadas todas as cartas que chegam à redação e nem todo o texto é aproveitado):
Nas cartas selecionadas os comportamentos sócio-culturalmente admissíveis emergem desses textos: o modelo conjugal heterossexual é o único referencial da normalidade e revelar uma outra forma de relação: múltipla, com possibilidade de encontros e trocas de prazeres (SOUZA: 1997, 23), seria afrontar a ordem estabelecida.
A questão que trago para análise das cartas editadas e publicadas pela editoria das revistas é, portanto:
1. Há uma quebra do sentido que se cola ao discurso jornalístico (neutralidade, objetividade etc.)?

Destaquei a seguinte carta para análise:

Carta.5
É lastimável que no Brasil ainda exista tanto preconceito contra os homossexuais. Agora, é pior com a AIDS, cujo lado mais fatal é o estigma que destrói o indivíduo antes mesmo das infecções a que ele está sujeito. Fiquei chocado com a desumanidade e a violência com que foi tratado aquele senhor de Araguari, em Minas Gerais. (Marcos Antonio de Morais. Natal, RN, Revista Veja, edição 892 de 9 de outubro de 1985, grifos nossos)
É interessante perceber que o preconceito a que se refere o leitor é direcionado ao Brasil. Não à linha editorial da revista, não ao jornalista responsável pela matéria, mas ao Brasil de uma forma generalizada.
Essa leitura que se faz do texto jornalístico é um índice do efeito produzido pelo discurso jornalístico de que este é neutro, imparcial, objetivo e verdadeiro donde se atribui, o tal preconceito, por exemplo, não à revista, mas ao país, ainda que o leitor se sinta em um outro lugar, já que percebe o preconceito e não compartilha dele.
O leitor toma as informações como verdade e não consegue, por conta do efeito de sentido que é construído a partir do discurso da imprensa, perceber que é possível que haja outras relações entre a AIDS e os contaminados, por exemplo.
Quando ele diz: “o estigma que destrói o indivíduo antes mesmo das infecções a que ele está sujeito”, ele está reproduzindo o discurso da imprensa, como se este discurso partisse dele e como se só fosse possível dizer o que ele diz. Os esquecimentos 1 e 2³ , aos quais PÊCHEUX se refere.
Confirmando a declaração de MARIANI (2005), o efeito de sentido dessas cartas é o delas virem ser absorvidas pelo discurso hegemônico contribuindo para a permanência dos sentidos legitimados historicamente: nessas seções qualquer um pode falar e tudo pode ser dito. Promovendo assim “a idealização do sujeito centrado e autônomo, capaz de decidir sobre o seu destino” (MARIANI: 2005).

Considerações finais:

As cartas não representam para a Formação Discursiva hegemônica uma brecha nos sentidos sobre a AIDS e a homossexualidade.
Há alguns sinais isolados (que questionam a legitimidade das matérias publicadas) durante o período estudado -entre os anos de 1985 e 1990-, mas não se estabelecem como um outro sentido em relação à FD institucionalizada, oficial ou hegemônica sobre o objeto de análise, apenas sustentam a idealização do sujeito centrado e autônomo (MARIANI: 2005).
As cartas contribuem para a permanência dos sentidos legitimados historicamente sobre os homossexuais. Elas não produzem um deslocamento na posição sujeito homossexual, não favorecem, portanto, uma ruptura com os sentidos estabelecidos.
O imaginário em torno do discurso jornalístico de que este se trata de um discurso neutro, objetivo e imparcial se confirma numa grande maioria de cartas publicadas por essas revistas.
Não há, durante o período estudado, uma brecha na FD hegemônica a respeito da forma de contaminação da AIDS, ainda que se questionem timidamente algumas informações veiculadas pelas revistas.

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¹ Outras cartas (não analisadas) funcionam como paráfrases das que eu apresento e analiso. E como o espaço aqui é bem restrito, apresento apenas algumas análises.

² Acredito ser importante retomar aqui o fato de que estou analisando o discurso jornalístico na década de 1980 para compreender como esse veículo trata a relação que se consolidou como sendo “causal” entre a homossexualidade e a AIDS, portanto quando me refiro à moral cívica de que trata SOUZA (1997), estou fazendo referência, principalmente, às questões de cunho sexual em torno daquela relação.

³ O esquecimento nº 1 dá conta do fato de que o sujeito-falante não pode, por definição, se encontrar no exterior da formação discursiva que o domina. Nesse sentido, o esquecimento nº 1 remetia, por uma analogia com o recalque inconsciente, a esse exterior, na medida em que – como vimos – esse exterior determina a formação discursiva em questão; esquecimento nº 2 seria o “esquecimento” pelo qual todo sujeito-falante “seleciona” no interior da formação discursiva que o domina, isto é, no sistema de enunciados, formas e seqüências que nela se encontram em relação de paráfrase – um enunciado, forma ou seqüência, e não um outro, que, no entanto, está no campo daquilo que poderia reformulá-lo na formação discursiva considerada. (PÊCHEUX 1995: 173, grifos nossos).

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BIBLIOGRAFIA

Alexandre Sebastião Ferrari Soares
é Doutor em Letras pela Universidade Federal Fluminense, com pesquisas em Análise do Discurso. É importante retomar que esse trabalho é parte integrante uma tese de doutorado defendida em março de 2006, na qual analisei textos jornalísticos, fotografias/ilustrações e cartas de leitores publicados nas revistas semanais (Veja e Istoé) e mensal (Superinteressante) para compreender como a relação causal que se consolidou entre a homossexualidade e a AIDS se materializou nessas revistas.

 


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