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O propósito deste trabalho
é analisar, segundo as concepções
da escola francesa de análise do discurso, os
sítios de significância (ORLANDI: 1996,
15) que foram se estabelecendo sobre a construção
do discurso da imprensa na própria imprensa.
Para isso, analiso as cartas de leitores publicadas
nas revistas Veja e Istoé na segunda metade da
década de 1980, mais especificamente entre os
anos de 1985-1990.
Aqui, nessa apresentação, priorizo apenas
o efeito de sentido da construção do discurso
jornalístico que se pauta numa pretensa abordagem
em torno dos mitos de verdade, objetividade, neutralidade
e imparcialidade e numa equivocada consideração
de que a linguagem seria, não um efeito de sentido,
mas transmissão de informação.
O recorte temporal proposto se deu por ser possível
considerar que a partir de 1985 a ciência já
não falava mais em grupos de risco, mas em comportamento
de risco e que em alguns artigos publicados por pesquisadores
norte-americanos e europeus a AIDS era uma doença
transmissível, principalmente, através
do sexo e, portanto, não mais própria
de certos grupos (principalmente dos homossexuais e
dos viciados em drogas injetáveis).
A imprensa, no entanto, continua fazendo a manutenção
do sentido que afirma ser a AIDS, senão própria
dos homossexuais, muito próxima ainda desse grupo.
Mesmo depois da ciência negar qualquer relação
entre ser soropositivo (quando um indivíduo tem
presente no sangue anticorpos que provam a existência
de um agente infeccioso) e pertencer a um grupo específico.
As matérias sobre transmissão
em alguns grupos são muito mais freqüentes
do que em outros. É interessante observar como,
na imprensa, merece grande destaque a transmissão
entre homossexuais e pouco se comenta sobre a transmissão
heterossexual. O jornal, habitualmente, vai em busca
do exótico da AIDS entre minorias e ignora o
risco cotidiano que faz parte da vida das maiorias.
O texto interdito refere-se à conduta do indivíduo
heterossexual que tem vários parceiros e está
sujeito a se contaminar. (CAMARGO: 1994, 115-116, grifos
nossos)
A epidemia dessa forma se estabelece
como doença própria dos homossexuais:
o sentido se naturaliza por essa via. A imprensa ignora
a heterossexualização da AIDS e vai além,
alimenta o vírus que se sustenta dessa relação:
homossexual & AIDS.
A imprensa falada e escrita, em várias instâncias
e de formas diversas, trouxe à baila manifestações
que, de alguma forma, ou de forma clara, expressam um
discurso homofóbico no qual ser portador do vírus
e ser homossexual praticamente significaria a mesma
coisa: alguns exemplos de manchetes sobre o tema:
• “A peste rosa” Jornal da Tarde de
01.09 de 1983;
• “AIDS – a peste do século
XX – doença chega ao Brasil e alarma comunidade
gay” Correio Braziliense de 17.06 de 1983;
• “Homossexuais cubanos transmitem a doença”
O Globo de 19.03 de 1983;
• “Síndrome ou Câncer-gay”
A Tarde de 07.06 de 1983;
• “Síndrome gay deixa Europa amedrontada”
Correio Braziliense de 06.07 de 1983;
• “Síndrome gay leva os americanos
à histeria” Correio Braziliense de 09.07
de 1983. (apud NETO: 1999, 50-51, grifos nossos).
São essas as condições
de produção dos textos que tratavam da
epidemia até então pouco conhecida. A
ciência não foi capaz de, com as então
recentes descobertas, direcionar de outra forma o que
a imprensa publicava sobre ser o homossexual portador
em potencial do vírus e principal responsável
pela transmissão da doença.
A fim de fazer um recorte sobre esse imaginário
em torno do sentido do discurso jornalístico,
destaquei, das seguintes cartas¹ , alguns trechos
pertinentes sobre ele:
Carta.1
“Sei que existe homossexualismo em todas as partes
do mundo, acho até muito natural em termos biológicos;
contudo, não sabia que no Brasil, além
dos problemas econômicos, sociais e de saúde,
na caso da AIDS, existia tanta falta de vergonha, tanta
promiscuidade, demonstrada na reportagem Garotos de
Aluguel”. (Mário A. Rego. São Luís
– MA, da revista Istoé edição
533 de 11 de março de 1987, grifos nossos)
Carta.2
Sobre a reportagem “Ataque pelo ar”, de
VEJA nº 984, acho bastante importante o esclarecimento
da população brasileira a respeito da
AIDS. Porém, não como vem sendo veiculada
na TV. Deve-se deixar bem claro que não é
o uso da “camisinha” nas relações
sexuais que vai banir o mal do planeta.
(Paulo Fernando Rodrigues da Cruz, Rio de Janeiro, RJ,
revista Veja, ed. 990 de 26 de agosto de 1987, grifos
nossos)
Carta.3
A respeito da reportagem sobre o cantor Cazuza, quero
dizer que VEJA tem tido um papel honrado e moralizador
ao longo de sua existência, não podendo
ser atingida, injustamente, por sentimentos temporários
e emocionais. (Paulo Roberto Magalhães de Jesus,
Salvador, BA, revista Veja, ed. 1078 de 10 de maio de
1989, grifos nossos)
As cartas não só comentam
(FOUCAULT, 1996) as informações veiculadas
pelas revistas, mas também fazem considerações
a respeito do discurso, ou melhor, desse efeito do discurso
jornalístico.
O efeito do discurso jornalístico que faz sentido
para os leitores é o de que, nessas revistas,
a linguagem é um meio de comunicação
de informação. Os leitores agradecem ao
editor ou à própria revista (como uma
entidade que se auto-organiza) pelos serviços
prestados, pelas informações recebidas
e veiculadas através dela.
Para o leitor, no imaginário que circula sobre
o discurso da imprensa, não poderia ser publicado
nada além dos fatos que ocorreram ou, num furo
de reportagem, estão para acontecer. E mais,
como diz (MARIANI 2005), se foram publicados são
importantes, e ainda, só são importantes
porque foram publicados.
Sobre o pré-significado impresso por uma relevância
constituída pelo imaginário (neutralidade,
veracidade etc.), destaco as seguintes passagens (selecionadas
das cartas 1-3):
O leitor não sabia, mas passou a saber, depois
de informado pela revista, que a falta de vergonha e
promiscuidade tinham relações com a AIDS.
“não sabia que no Brasil,
além dos problemas econômicos, sociais
e de saúde, na caso da AIDS, existia tanta falta
de vergonha, tanta promiscuidade, demonstrada na reportagem
Garotos de Aluguel”. (carta 1)
O leitor seguinte acha importante que
a população brasileira seja esclarecida
a respeito da doença. A revista retira da ignorância,
escuridão, os leitores com as suas informações
sobre a epidemia.
“acho bastante importante o esclarecimento
da população brasileira a respeito da
AIDS”. (carta 2)
Um outro leitor destaca, além
da prestação de serviço digna de
honra, que a revista também tem como atribuição
moralizar e, por isso, não poderá ser
atingida por sentimentos temporários e emocionais.
Um dado importante, na construção dessas
colunas, é o que nos aponta SOUZA (1997) em relação
à moral cívica que emerge dos discursos
ao tornarem as questões ligadas à ordem
do privado, públicas².
Segundo este autor, a questão da subjetividade,
nas cartas, está ligada à escolha da forma
sujeito que irá elidir nas instâncias públicas.
Isso seria um novo dispositivo de subjetivação
no espaço público. Já que nem tudo
pode ser dito e nem qualquer um pode dizê-lo.
Por isso, a moral cívica toma um espaço
bastante considerável nas cartas que compõem
o corpus dessa pesquisa: em nome da sociedade, em nome
da família, em nome da moral e dos bons costumes,
em nome de Deus são muito recorrentes nesses
textos.
Soma-se a isso o fato de que não é qualquer
assunto que está sendo comentado, mas a sexualidade.
Acrescenta-se ainda o fato de que não se trata
de uma sexualidade qualquer, mas da homossexualidade.
Sobre a moral cívica, segundo SOUZA (1997), destaco
as seguintes cartas (6 abaixo):
Carta.4
Com relação à matéria sobre
a AIDS, cito a Bíblia sagrada na epístola
aos romanos, capítulo 6, versículo 23:
“Porque o salário do pecado é a
morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna”.
(Rosângela Zacarkim dos Santos, Cuiabá,
MT, revista Veja, edição 890 de 25 de
setembro de 1985, grifos nossos)
AIDS coloca na ordem do público
o que deveria ser da ordem do privado: a relação
sexual de cada um, porque ela revela a história
pregressa do portador do vírus. Essa história
também não é qualquer uma: trata-se
de tornar público questões que não
eram (podiam ser) abordadas por diversos motivos: a
AIDS epidemia até então pouco estudada,
sabia-se apenas que era transmitida através do
contato sexual, mas não era qualquer contato
(pelo menos discursivamente), mas do contato entre homens.
Essa relação era, ainda é, analisada
oficialmente através de princípios cristãos,
de leis moralizadoras, e de um discurso médico
que confundia moralidade com prescrição
de doença e que até bem pouco tempo considerava
a homossexualidade uma doença.
Na carta 4, a leitora fala em nome de Deus: “Porque
o salário do pecado é a morte, mas o dom
gratuito de Deus é a vida eterna”.
Nesses espaços, que se pretendem mediadores entre
o público e a mídia, não passam
de uma espécie de ilusão de uma possível
subjetividade. Primeiro porque o espaço é
construído pela própria revista, depois
porque é a revista que determina o espaço
que pode ser ocupado por ele (o leitor), em termos discursivos
e, finalmente, essa ocupação é
regulada (não são publicadas todas as
cartas que chegam à redação e nem
todo o texto é aproveitado):
Nas cartas selecionadas os comportamentos sócio-culturalmente
admissíveis emergem desses textos: o modelo conjugal
heterossexual é o único referencial da
normalidade e revelar uma outra forma de relação:
múltipla, com possibilidade de encontros e trocas
de prazeres (SOUZA: 1997, 23), seria afrontar a ordem
estabelecida.
A questão que trago para análise das cartas
editadas e publicadas pela editoria das revistas é,
portanto:
1. Há uma quebra do sentido que se cola ao discurso
jornalístico (neutralidade, objetividade etc.)?
Destaquei a seguinte carta para análise:
Carta.5
É lastimável que no Brasil ainda exista
tanto preconceito contra os homossexuais. Agora, é
pior com a AIDS, cujo lado mais fatal é o estigma
que destrói o indivíduo antes mesmo das
infecções a que ele está sujeito.
Fiquei chocado com a desumanidade e a violência
com que foi tratado aquele senhor de Araguari, em Minas
Gerais. (Marcos Antonio de Morais. Natal, RN, Revista
Veja, edição 892 de 9 de outubro de 1985,
grifos nossos)
É interessante perceber que o preconceito a que
se refere o leitor é direcionado ao Brasil. Não
à linha editorial da revista, não ao jornalista
responsável pela matéria, mas ao Brasil
de uma forma generalizada.
Essa leitura que se faz do texto jornalístico
é um índice do efeito produzido pelo discurso
jornalístico de que este é neutro, imparcial,
objetivo e verdadeiro donde se atribui, o tal preconceito,
por exemplo, não à revista, mas ao país,
ainda que o leitor se sinta em um outro lugar, já
que percebe o preconceito e não compartilha dele.
O leitor toma as informações como verdade
e não consegue, por conta do efeito de sentido
que é construído a partir do discurso
da imprensa, perceber que é possível que
haja outras relações entre a AIDS e os
contaminados, por exemplo.
Quando ele diz: “o estigma que destrói
o indivíduo antes mesmo das infecções
a que ele está sujeito”, ele está
reproduzindo o discurso da imprensa, como se este discurso
partisse dele e como se só
fosse possível dizer o que ele diz. Os esquecimentos
1 e 2³ , aos quais PÊCHEUX se refere.
Confirmando a declaração de MARIANI (2005),
o efeito de sentido dessas cartas é o delas virem
ser absorvidas pelo discurso hegemônico contribuindo
para a permanência dos sentidos legitimados historicamente:
nessas seções qualquer um pode falar e
tudo pode ser dito. Promovendo assim “a idealização
do sujeito centrado e autônomo, capaz de decidir
sobre o seu destino” (MARIANI: 2005).
Considerações
finais:
As cartas não representam para a Formação
Discursiva hegemônica uma brecha nos sentidos
sobre a AIDS e a homossexualidade.
Há alguns sinais isolados (que questionam a legitimidade
das matérias publicadas) durante o período
estudado -entre os anos de 1985 e 1990-, mas não
se estabelecem como um outro sentido em relação
à FD institucionalizada, oficial ou hegemônica
sobre o objeto de análise, apenas sustentam a
idealização do sujeito centrado e autônomo
(MARIANI: 2005).
As cartas contribuem para a permanência dos sentidos
legitimados historicamente sobre os homossexuais. Elas
não produzem um deslocamento na posição
sujeito homossexual, não favorecem, portanto,
uma ruptura com os sentidos estabelecidos.
O imaginário em torno do discurso jornalístico
de que este se trata de um discurso neutro, objetivo
e imparcial se confirma numa grande maioria de cartas
publicadas por essas revistas.
Não há, durante o período estudado,
uma brecha na FD hegemônica a respeito da forma
de contaminação da AIDS, ainda que se
questionem timidamente algumas informações
veiculadas pelas revistas.
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¹ Outras cartas (não
analisadas) funcionam como paráfrases das que
eu apresento e analiso. E como o espaço aqui
é bem restrito, apresento apenas algumas análises.
² Acredito ser importante retomar
aqui o fato de que estou analisando o discurso jornalístico
na década de 1980 para compreender como esse
veículo trata a relação que se
consolidou como sendo “causal” entre a homossexualidade
e a AIDS, portanto quando me refiro à moral cívica
de que trata SOUZA (1997), estou fazendo referência,
principalmente, às questões de cunho sexual
em torno daquela relação.
³ O esquecimento nº 1 dá
conta do fato de que o sujeito-falante não pode,
por definição, se encontrar no exterior
da formação discursiva que o domina. Nesse
sentido, o esquecimento nº 1 remetia, por uma analogia
com o recalque inconsciente, a esse exterior, na medida
em que – como vimos – esse exterior determina
a formação discursiva em questão;
esquecimento nº 2 seria o “esquecimento”
pelo qual todo sujeito-falante “seleciona”
no interior da formação discursiva que
o domina, isto é, no sistema de enunciados, formas
e seqüências que nela se encontram em relação
de paráfrase – um enunciado, forma ou seqüência,
e não um outro, que, no entanto, está
no campo daquilo que poderia reformulá-lo na
formação discursiva considerada. (PÊCHEUX
1995: 173, grifos nossos).
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BIBLIOGRAFIA
Alexandre Sebastião Ferrari Soares
é Doutor em Letras pela Universidade Federal
Fluminense, com pesquisas em Análise do Discurso.
É importante retomar que esse trabalho é
parte integrante uma tese de doutorado defendida em
março de 2006, na qual analisei textos jornalísticos,
fotografias/ilustrações e cartas de leitores
publicados nas revistas semanais (Veja e Istoé)
e mensal (Superinteressante) para compreender como a
relação causal que se consolidou entre
a homossexualidade e a AIDS se materializou nessas revistas.
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