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Literatura: Ferramenta ou Brinquedo?

Por: Roberta Binatti


Rubem Alves diz que são apenas duas as tarefas da educação: ajudar os homens a utilizar a Caixa de Ferramentas, carregada pela destreza da mão direita e utilizar a Caixa de Brinquedos, carregada pela mão esquerda, que fica no mesmo lado do coração. Na primeira caixa estão os conhecimentos que são meios para viver, enquanto na segunda estão os conhecimentos que nos dão razões para viver.
As ciências são as Ferramentas, é importante que estas sejam conhecidas, que se adquiram habilidades práticas para bem utilizá-las, sendo então dever do educador não somente conhecer a utilidade das ferramentas que ele ensina a seus alunos a utilizarem, mas principalmente ensiná-los a técnica de construir novas ferramentas.
Enquanto seres humanos somos pensantes e sonhadores e é para realizarmos nossos sonhos que pensamos, pois são os nossos desejos que justificam a necessidade de pensar e, assim, a criação de novas ferramentas.
As ferramentas, num primeiro momento, funcionam como uma espécie de “chave” que nos permite abrir a Caixa de Brinquedos, uma vez aberta, aquelas nos auxiliarão a utilizar todos os conhecimentos “inúteis”, que “não servem para nada”, tais como: um romance, um poema, uma pintura, uma dança, um saco de bolas de gude, uma música, o sorriso de uma criança... conteúdos da Caixa de Brinquedos que nem sempre podem ser utilizados, todavia devem ser experimentados, gozados.
A capacidade de brincar precisa ser apreendida, ela tem a ver com o prazer pelas coisas que estão a nossa volta e que podemos trazer para nossas vidas.
Qualquer coisa pode ser um brinquedo ou uma ferramenta, uma corda quando deixa de ser algo para amarrar e passa a ser algo que pode ser pulado, proporcionando diversão e satisfação, deixa de ser ferramenta e passa a ser um brinquedo.
Podemos dizer que as ferramentas, apesar de indispensáveis, não nos motivam a viver, elas só servem para nos fornecer os instrumentos necessários para abrir e descobrir o conteúdo infinito da Caixa de Brinquedos. Como, por exemplo: ver e ouvir são tarefas bem mais complexas que olhar e escutar, é preciso que olhos e ouvidos, sejam treinados a funcionarem como algo mais que simples ferramentas, que sejam brinquedos capazes de contemplar o mundo.
Sabendo-se que pensar é construir, desconstruir e brincar com as ferramentas. No que diz respeito ao ato de ler é importante saber que não gostar de ler é diferente de não gostar da leitura.
O lugar da literatura não é a cabeça: é o coração. A literatura é feita com as palavras que desejam morar no coração, pois só assim ela é capaz de produzir a catarse.
A Literatura não é só para produzir consciência crítica. Ela deve ser guardada na Caixa de Brinquedos, dar prazer, pois o escritor nem sempre escreve com intenções didático-pedagógicas. Ele escreve para produzir emoções. Para fazer amor. Escrever e ler são formas de deleite. Cada livro é um sacramento. Cada leitura é um ritual mágico.
Não se pode ensinar o prazer da leitura com ferramentas como aulas sobre as ciências da linguagem, com os conhecimentos da gramática normativa e com as técnicas de interpretação. Porém, ela pode e deve ser estimulada ao produzir sensações agradáveis, distração e conhecimento.
Os escritores precisam saber brincar com todas as ferramentas disponíveis para bem desenvolverem seus trabalhos, enquanto os leitores precisam de ferramentas para terem acesso aos “brinquedos” produzidos.
A educação, não somente ao que diz respeito à literatura, mas em seu sentido lato sensu, é responsável por nos auxiliar a carregar e utilizar as duas caixas de modo equilibrado no nosso dia-a-dia.


Roberta Binatti


Artigo baseado no livro de: ALVES, Rubem. Educação dos sentidos e mais... Campinas, SP: Verus editora, 2005.


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