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Rubem Alves diz que são
apenas duas as tarefas da educação: ajudar
os homens a utilizar a Caixa de Ferramentas, carregada
pela destreza da mão direita e utilizar a Caixa
de Brinquedos, carregada pela mão esquerda, que
fica no mesmo lado do coração. Na primeira
caixa estão os conhecimentos que são meios
para viver, enquanto na segunda estão os conhecimentos
que nos dão razões para viver.
As ciências são as Ferramentas, é
importante que estas sejam conhecidas, que se adquiram
habilidades práticas para bem utilizá-las,
sendo então dever do educador não somente
conhecer a utilidade das ferramentas que ele ensina
a seus alunos a utilizarem, mas principalmente ensiná-los
a técnica de construir novas ferramentas.
Enquanto seres humanos somos pensantes e sonhadores
e é para realizarmos nossos sonhos que pensamos,
pois são os nossos desejos que justificam a necessidade
de pensar e, assim, a criação de novas
ferramentas.
As ferramentas, num primeiro momento, funcionam como
uma espécie de “chave” que nos permite
abrir a Caixa de Brinquedos, uma vez aberta, aquelas
nos auxiliarão a utilizar todos os conhecimentos
“inúteis”, que “não
servem para nada”, tais como: um romance, um poema,
uma pintura, uma dança, um saco de bolas de gude,
uma música, o sorriso de uma criança...
conteúdos da Caixa de Brinquedos que nem sempre
podem ser utilizados, todavia devem ser experimentados,
gozados.
A capacidade de brincar precisa ser apreendida, ela
tem a ver com o prazer pelas coisas que estão
a nossa volta e que podemos trazer para nossas vidas.
Qualquer coisa pode ser um brinquedo ou uma ferramenta,
uma corda quando deixa de ser algo para amarrar e passa
a ser algo que pode ser pulado, proporcionando diversão
e satisfação, deixa de ser ferramenta
e passa a ser um brinquedo.
Podemos dizer que as ferramentas, apesar de indispensáveis,
não nos motivam a viver, elas só servem
para nos fornecer os instrumentos necessários
para abrir e descobrir o conteúdo infinito da
Caixa de Brinquedos. Como, por exemplo: ver e ouvir
são tarefas bem mais complexas que olhar e escutar,
é preciso que olhos e ouvidos, sejam treinados
a funcionarem como algo mais que simples ferramentas,
que sejam brinquedos capazes de contemplar o mundo.
Sabendo-se que pensar é construir, desconstruir
e brincar com as ferramentas. No que diz respeito ao
ato de ler é importante saber que não
gostar de ler é diferente de não gostar
da leitura.
O lugar da literatura não é a cabeça:
é o coração. A literatura é
feita com as palavras que desejam morar no coração,
pois só assim ela é capaz de produzir
a catarse.
A Literatura não é só para produzir
consciência crítica. Ela deve ser guardada
na Caixa de Brinquedos, dar prazer, pois o escritor
nem sempre escreve com intenções didático-pedagógicas.
Ele escreve para produzir emoções. Para
fazer amor. Escrever e ler são formas de deleite.
Cada livro é um sacramento. Cada leitura é
um ritual mágico.
Não se pode ensinar o prazer da leitura com ferramentas
como aulas sobre as ciências da linguagem, com
os conhecimentos da gramática normativa e com
as técnicas de interpretação. Porém,
ela pode e deve ser estimulada ao produzir sensações
agradáveis, distração e conhecimento.
Os escritores precisam saber brincar com todas as ferramentas
disponíveis para bem desenvolverem seus trabalhos,
enquanto os leitores precisam de ferramentas para terem
acesso aos “brinquedos” produzidos.
A educação, não somente ao que
diz respeito à literatura, mas em seu sentido
lato sensu, é responsável por nos auxiliar
a carregar e utilizar as duas caixas de modo equilibrado
no nosso dia-a-dia.
Roberta Binatti
Artigo baseado no livro de: ALVES, Rubem. Educação
dos sentidos e mais... Campinas, SP: Verus
editora, 2005.
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