Por que doem nossos ouvidos quando
ouvimos “nós foi” e normalmente dizemos
que “vamos no banheiro”? Costumamos julgar
o modo de falar de algumas pessoas, e a nossa fala, como
anda?
O uso da expressão “nós foi”
é considerada um erro crasso, mas o que é
erro? O que é crasso? Segundo o Dicionário
Aurélio, “erro”, no que diz respeito
aos estudos da linguagem, é o desvio em relação
à variedade padrão de uma língua
e “crasso” é o adjetivo utilizado quando
se deseja fazer referência a um erro grosseiro.
Porém a noção de erro não
pode ser interpretada denotativamente, ela varia de acordo
com quem o comete e os erros são considerados crassos
quando cometidos por quem não pertence ao meio
social do acusador, quando quem “erra” está
numa posição social inferior.
Hoje em dia fala-se muito de Preconceito Lingüístico,
que é discriminar determinados usos da língua
que não estão de acordo com a norma culta
padrão. Normalmente sentimos pena ou achamos engraçado
quando alguém diz “nós foi”
ou “pobrema”, estas reações
preconceituosas servem para distanciar social, econômica
e culturalmente os falantes mais e menos escolarizados.
James Milroy, lingüista britânico disse que:
“Numa época em que a discriminação
em termos de raça, cor, religião ou sexo
não é publicamente aceitável, o último
baluarte da discriminação social explícita
continuará a ser o uso que uma pessoa faz da língua”.
Falantes cultos da Língua Portuguesa, isto é,
aqueles que possuem nível superior completo, também
cometem diversos desvios no uso da língua padrão,
os mesmos falante que riem do “nós vai”
e/ou do “pobrema”, utilizam-se com freqüência
de formas como “ir no banheiro”, ao invés
de “ir ao banheiro” e “ele não
vai fazê o trabalho”, ao invés de “ele
não vai fazer o trabalho”. No que diz respeito
aos falantes cultos o segundo exemplo ocorre, essencialmente,
na língua falada, onde há uma tendência
de redução do “r” dos verbos
no infinitivo.
Erros maiores, menores ou crassos, isto é, os usos
comumente aceitos ou os estigmatizados do Português
Não-Padrão estão diretamente relacionados
à condição social de seus praticantes,
quem está acima hierarquicamente tem erros menores
do que aqueles que estão abaixo.
Podemos então, afirmar que não julgamos
o uso da língua, mas seu falante, avaliamos o valor
social que é atribuído a este.
Não pretendo, neste artigo, defender os “erros”
de português, sobretudo minha intenção
é deixar claro que os usos de uma língua
variam de modos diversos (em função da idade,
da localização geográfica, da condição
social e do contexto do uso, entre outros fatores que
influenciam diretamente os falantes).
Não temos o direito de julgar as pessoas pelas
aparências, pela posição que ocupam
na sociedade, muito menos pelo modo com o qual se comunicam.
É um desafio para a Educação, especialmente
para os professores de Língua Portuguesa, trabalhar
com as variedades lingüísticas, sem que haja
uma desvalorização da Língua Padrão,
esta precisa ser encarada como mais uma dentre as diversas
variedades, porém a variedade que garante a unicidade
da língua, que goza de prestígio, que “abre
portas”, que tem poder de influência nas decisões
políticas, econômicas, culturais e educacionais
deste país.
Roberta Binatti
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