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PRECONCEITO LINGÜÍSTICO: um dos disfarces do Preconceito Social.

Por: Roberta Binatti


Por que doem nossos ouvidos quando ouvimos “nós foi” e normalmente dizemos que “vamos no banheiro”? Costumamos julgar o modo de falar de algumas pessoas, e a nossa fala, como anda?
O uso da expressão “nós foi” é considerada um erro crasso, mas o que é erro? O que é crasso? Segundo o Dicionário Aurélio, “erro”, no que diz respeito aos estudos da linguagem, é o desvio em relação à variedade padrão de uma língua e “crasso” é o adjetivo utilizado quando se deseja fazer referência a um erro grosseiro.
Porém a noção de erro não pode ser interpretada denotativamente, ela varia de acordo com quem o comete e os erros são considerados crassos quando cometidos por quem não pertence ao meio social do acusador, quando quem “erra” está numa posição social inferior.
Hoje em dia fala-se muito de Preconceito Lingüístico, que é discriminar determinados usos da língua que não estão de acordo com a norma culta padrão. Normalmente sentimos pena ou achamos engraçado quando alguém diz “nós foi” ou “pobrema”, estas reações preconceituosas servem para distanciar social, econômica e culturalmente os falantes mais e menos escolarizados.
James Milroy, lingüista britânico disse que: “Numa época em que a discriminação em termos de raça, cor, religião ou sexo não é publicamente aceitável, o último baluarte da discriminação social explícita continuará a ser o uso que uma pessoa faz da língua”.
Falantes cultos da Língua Portuguesa, isto é, aqueles que possuem nível superior completo, também cometem diversos desvios no uso da língua padrão, os mesmos falante que riem do “nós vai” e/ou do “pobrema”, utilizam-se com freqüência de formas como “ir no banheiro”, ao invés de “ir ao banheiro” e “ele não vai fazê o trabalho”, ao invés de “ele não vai fazer o trabalho”. No que diz respeito aos falantes cultos o segundo exemplo ocorre, essencialmente, na língua falada, onde há uma tendência de redução do “r” dos verbos no infinitivo.
Erros maiores, menores ou crassos, isto é, os usos comumente aceitos ou os estigmatizados do Português Não-Padrão estão diretamente relacionados à condição social de seus praticantes, quem está acima hierarquicamente tem erros menores do que aqueles que estão abaixo.
Podemos então, afirmar que não julgamos o uso da língua, mas seu falante, avaliamos o valor social que é atribuído a este.
Não pretendo, neste artigo, defender os “erros” de português, sobretudo minha intenção é deixar claro que os usos de uma língua variam de modos diversos (em função da idade, da localização geográfica, da condição social e do contexto do uso, entre outros fatores que influenciam diretamente os falantes).
Não temos o direito de julgar as pessoas pelas aparências, pela posição que ocupam na sociedade, muito menos pelo modo com o qual se comunicam.
É um desafio para a Educação, especialmente para os professores de Língua Portuguesa, trabalhar com as variedades lingüísticas, sem que haja uma desvalorização da Língua Padrão, esta precisa ser encarada como mais uma dentre as diversas variedades, porém a variedade que garante a unicidade da língua, que goza de prestígio, que “abre portas”, que tem poder de influência nas decisões políticas, econômicas, culturais e educacionais deste país.

Roberta Binatti


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