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Ortografia não é apenas escrever palavras com a grafia correta

Por: Luiz Carlos Cagliari

 

A nossa tradição escolar, baseada nos livros didáticos, nas gramáticas e dicionários, formou a ideia comum que as pessoas têm, segundo a qual a ortografia significa escrever as palavras da língua com a grafia correta. Algumas pessoas lembram a origem dessa palavra, dizendo que ela veio do grego e que, naquela língua, significa “escrita correta”. Embora não se saiba bem o que “escrita correta” signifique, a palavra ortografia ficou com o sentido tradicional de grafar as palavras com as “letras corretas” com que as pessoas escrevem a língua que usam. Como apoio para isso, apareceram os vocabulários ortográficos e os dicionários.

As questões problemáticas a respeito de saber “com que letras” se escrevem as palavras começam com a própria história da língua. Por exemplo, em português, já se escreveu a palavra “igreja” dos seguintes modos: jgreja, egleja, egleia, eglesa, eglesia, egreja, eigleja, eygleyga, eigleja, eigrega, eigreja, ergreja, ergueyja, greja, igreija, igreja, etc., (cf. Dicionário etimológico da língua portuguesa (1956), de José Pedro Machado). Aparentemente, aquela palavra não mudou muito em sua pronúncia, mas a percepção da fala e os recursos da escrita levaram as pessoas a escrevê-la de muitas maneiras, na história da língua. Um dos motivos pelos quais a grafia das palavras muda é porque mudou a pronúncia. Até o século XV, ainda se via escrito “estromento” para o latim instrumentum. Depois, voltou a pronúncia instrumento: mudando a pronúncia, a tendência da escrita é mudar o modo como a palavra é escrita.

A questão da pronúncia é ainda mais complicada. Nenhuma língua tem apenas uma pronúncia para todas as palavras. Todas as línguas sofrem de um processo dinâmico de transformação, o que se torna muito óbvio com o passar do tempo. Todavia, a escrita é um meio permanente de registro da fala e, vendo escritas muito antigas, facilmente percebemos que a língua mudou. As mudanças mais evidentes para os falantes são as de natureza dialetal, geográfica ou social. Percebemos muito bem que os portugueses não falam como os brasileiros. No Brasil, o português apresenta características próprias nas diversas regiões do país. Numa cidade, facilmente distinguimos classes sociais com pronúncias peculiares para determinadas palavras. Por exemplo, no Rio de Janeiro, ouvimos alguém falar “tchia”, “doidu”, “chuva”. As mesmas palavras são pronunciadas “tia” no sul do Brasil, “doidju” numa variedade de Alagoas e Sergipe, e “tchuva” em uma variedade do Mato Grosso. Há pessoas da zona rural que falam “drentu”, há pessoas que falam “nóis ponhamu us pratu”, “uz adevogadu acharu us curpadu”, etc. A variedade linguística é um resultado do fato de as línguas se transformarem inevitavelmente ao longo dos tempos. O latim virou português, francês, espanhol etc. Essas línguas também não pararam de se transformar. As línguas românicas vieram do latim popular, não do clássico, mas, ao serem adotadas pela nobreza nos diferentes territórios da Europa, tornaram-se línguas com um status semelhante ao do latim clássico, falado pelos nobres, e não ao do latim vulgar, falado pelas classes sociais menos privilegiadas. Como as novas nações também passaram a ter nobres e plebeus, ricos e pobres, nelas também se desenvolveu a teoria segundo a qual os nobres, os ricos, os poderosos e as pessoas cultas falam uma variedade da língua considerada “melhor” e os demais falam uma variedade “com muitos erros”. Essas diferenças de fala traziam um problema para a escrita. Por essa razão, no final do século XV e, principalmente, a partir do século XVI, começaram a aparecer gramáticas vernáculas para ensinar o povo a distinguir o que era fala de pessoas nobres e cultas da fala das pessoas menos favorecidas socioculturalmente. Apareceram também os tratados de ortografia.

Os tratados de ortografia se mostraram importantes, pois as pessoas cultas e ricas também tinham dúvidas sobre como escrever certas palavras, porque elas também percebiam que havia pronúncias diferentes no país e porque havia, ainda, uma tradição mais nobre de escrita, que vinha dos antigos. Mudar ou não mudar? Ficar com o antigo ou com o moderno? Era preciso estabelecer regras. Analisando o modo como as pessoas escreviam, era evidente que havia regras não declaradas publicamente, mas seguidas nas escritas oficiais, nas publicações e até em documentos e em cartas particulares. Explicitar tais regras seria uma maneira de justificar o modo como as palavras deveriam ser escritas, manter uma tradição, corrigir erros do passado e evitar problemas futuros. Com os ortógrafos, a ortografia passou a ter donos. Todavia, o poder dos ortógrafos era limitado, tratava-se de uma questão acadêmica, que podia ser contestada com argumentos contra. E foi o que aconteceu na história da ortografia da língua portuguesa, até o final do século XIX. Com muitas teorias e modelos ortográficos em uso, o poder político resolveu entrar na questão e estabelecer, via leis e decretos, a forma ortográfica das palavras. Curiosamente, nem assim a ortografia ficou única em seu uso, passando por muitos acordos entre Portugal e Brasil, procurando um ideal único de escrita das palavras da língua portuguesa. O último acordo, depois de mais de dez anos de discussão, acabou sendo implementado no Brasil no final de 2008, com início em 2009. Portugal também aceitou o acordo, mas ainda não o implementou.

Como vimos acima, as ideias mais comuns sobre ortografia dizem respeito à correção ortográfica, aos tratados de ortografia e aos acordos oficiais entre países usuários de uma mesma língua, no sentido de manter uma grafia única para todos. Observamos também que apesar dos ortógrafos e das leis, na prática, encontramos pessoas que escrevem sem seguir todas as normas oficiais ou porque discordam delas, ou porque não as conhecem. Em graus diferentes, todos os falantes da língua têm alguma dúvida ortográfica em determinadas circunstâncias. Mesmo palavras já escritas muitas vezes, ocasionalmente, podem aparecer com uma dúvida sobre qual letra ou letras devam ser escritas.

Leia mais deste artigo em: Revista Com Ciência

 

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