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Próximo de encerrar o prazo
para adaptação definitiva ao Novo Acordo
Ortográfico da Língua Portuguesa - previsto
para dezembro de 2012 -, as polêmicas em torno
dos benefícios gerados pelas mudanças
das normas parecem não ter fim. Para o escritor,
conferencista e autor nas áreas de gramática,
linguística, teoria e análise literária,
Ernani Pimentel, a população ainda não
aprendeu as novas regras. E ele vai além: há
diferenças entre o Acordo e o Vocabulário
Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp),
que incorpora as novas normas estabelecidas pelo Acordo
Ortográfico de 1990, regulamentado no Brasil
em setembro de 2008, na Academia Brasileira de
Letras (ABL), e em vigor desde 1º de janeiro de
2009.
Para Ernani Pimentel, essa distinção
dos dois documentos é prejudicial para todos
os profissionais que utilizam a Língua Portuguesa
como meio de trabalho, sem excluir a população
em geral, haja vista que é o idioma materno dos
brasileiros. "O Acordo, assinado por oito países,
inclusive o nosso, representa um compromisso internacional,
que deve ser seguido pelo Brasil tal qual estipula o
seu texto. A ABL ficou de implementá-lo e o fez
por meio da publicação da 5ª Edição
do Volp, mas, surpreendentemente, ao arrepio de qualquer
autorização legal, modificou o teor do
texto acordado. Quaisquer que sejam as explicações,
submeteu-se o texto original do Acordo a alterações,
sem a aprovação devida do Congresso Nacional
do Brasil e das
Assembleias Nacionais dos outros países, o que
está previsto e implícito na Lei",
explica Pimentel.
*Dois anos e meio após a implantação
do Acordo Ortográfico, como o senhor analisa
a aceitação das novas regras por parte
da população?*
*Ernani Pimentel -* De um modo geral, a população
está insatisfeita e inconformada com as contradições
das novas normas e se pergunta por que substituir regras
mal formuladas e inconsistentes por outras também
mal formuladas e inconsistentes. O povo não aprendeu
as novas regras. Os alunos nas escolas e nas universidades
não aprenderam as novas regras. Os professores
de Português não aprenderam as novas regras,
porque são tantas as exceções e
particularidades que só com um dicionário
na mão. Aliás, quais novas regras? As
estipuladas pelo Acordo ou as inseridas no Vocabulário
Ortográfico da Língua Portuguesa, o problemático
Volp? As contradições das novas normas
criaram uma grande insegurança na hora de escrever.
*Há diferenças entre as
regras do Acordo e as do Volp?*
Desafortunadamente, há. O Acordo, assinado por
oito países, inclusive o nosso, representa um
compromisso internacional, que deve ser seguido pelo
Brasil tal qual estipula o seu texto. A Academia Brasileira
de Letras ficou de implementá-lo e o fez por
meio da publicação da 5ª Edição
do Volp, mas, surpreendentemente, ao arrepio de qualquer
autorização legal, modificou o teor do
texto acordado. Eis alguns casos: pelo Acordo, grafa-se
re-haver, re-eleição, pelo Volp, reaver,
reeleição. Há outros casos como
azeite de dendê, água de coco, sem hífens,
pelo Acordo, e azeite-de-dendê, água-de-coco,
hifenados, pelo Volp. O Acordo prescreve que "r"
e "s" antecedidos de vogal devem ser dobrados
e não usam hífen (biorritmo, microssistema).
O Vocabulário Ortográfico, contrariando-o,
registra com hífen para- raios, para-sol, guarda-raios,
guarda-redes, guarda-rios, guarda-rodas, guarda-roupa,
guarda-sexo, guarda-sol. O respeito ao Acordo exigiria
o hífen ser substituído pelas consoantes
dobradas. Quaisquer que sejam as explicações,
submeteu-se o texto original do Acordo a alterações,
sem a aprovação devida do Congresso Nacional
do Brasil e das Assembleias Nacionais dos outros países,
o que está previsto e implícito na Lei.
*Quais têm sido as grandes dificuldades
enfrentadas pela população para apreender
as novas regras?*
As dificuldades são várias e apontamos
as mais importantes, sendo que a primeira é a
causadora das demais. A falta de lógica e de
senso prático, compatíveis com nosso século
XXI. A educação moderna prescreve que
os professores devem ensinar o aluno a raciocinar para
entender e não se importar com a "decoreba".
O raciocínio deve, pois, ser lógico para
que o cidadão possa transformar o aprendizado
em algo útil, a ser empregado na sua vida. Não
existe lógica em se dizer que São Paulo,
Porto Alegre, Cabo Verde e todos os nomes de lugares
compostos se escrevem sem hífen, mas Guiné-Bissau
e Timor-Leste são hifenados. Não há
lógica em ensinar que as consoantes que deixaram
de ser pronunciadas não mais se escrevem, como
em óptimo e jacto, e mandar escrever o "h"
inicial não mais pronunciado, como em homem e
hoje. Não há lógica em dizer que
guarda-chuva deve ter hífen e mandachuva, não.
Não há lógica em obrigar uma população
inteira a decorar lista de exceções, ou
andar com um dicionário a tiracolo, quando o
mais fácil seria eliminá-las, submetendo-as
às regras. Se o Acordo veio para mudar o uso,
não há o mínimo de lógica
em manter listas de exceções, com o argumento
absurdo de que "estão consagradas pelo uso".
Ninguém quer perder tempo com ilogicidades. O
desrespeito à didática do nosso século
é outra dificuldade. Ensina-se e se aprende,
entendendo os porquês. Como se pode aprender ou
entender que pé de chinelo não tem hífen,
mas pé-de-meia tem; cor de bonina não
tem hífen, mas cor-de-rosa tem; água-de-colônia
tem hífen e água de cheiro, não;
pontapé não tem hífen, mas finca-pé
tem. Há falta de padrão também.
Primitivos e derivados deveriam ter o mesmo tratamento,
mas não têm. Por que pré-eleito/preeleito,
pré-eleição/preeleição,
com duas grafias, se são derivados de preeleger,
que só tem uma? Por que duas grafias
corretas para adrenal/ad-renal, com ou sem hífen,
mas uma só, sem hífen, para os derivados
adrenalina e adrenalite? Há contradições
implícitas.
*Cite mais alguns casos.*
O trema, a partir do Acordo, só será usado
nas palavras estrangeiras, como em Müller, mülleriano,
Caraïbes. Então, reconhecemos sua importância
para as outras línguas e sua desimportância
para a nossa? O Acordo se chama "ortográfico"
- correta mais escrita -, para alterar apenas a grafia,
sem mexer na pronúncia. É assim que já
aconteceu anteriormente, quando "fallar" e
"Hespanha" tornaram-se falar e Espanha, mostrando
que a queda de uma letra manteve inalterada a sonoridade
da palavra. A função do trema em qualquer
palavra, como em eqüidistância e eqüidistante,
é mostrar que o "u" deve ser pronunciado
átono (ekuidistância, ekuidistante). A
sua eliminação leva o leitor à
eliminação do som "u" (ekidistância,
ekidistante), alterando a pronúncia, o que foge
ao ambiente da ortografia para instalar-se no campo
da ortofonia. Afinal, o trema tem ou não tem
função? Se tem, como está provado,
não se pode, pois, simplesmente eliminá-lo
sem lhe dar um substituto gráfico que preserve
inalterada a pronúncia da sílaba. A solução
proposta por este Acordo parece ser cada cidadão
andar com um dicionário a tiracolo, para
consulta de pronúncia ante qualquer palavra nova
que apresente uma sílaba "que", "qui",
"gue", "gui". Além disso,
não se pensou na possível padronização
gráfica de radicais e temos de decorar que estender
e mais de uma dezena de seus derivados se escrevem com
s, ao passo que extensão e mais de uma dezena
de seus derivados se grafam com x, quando no latim só
havia uma grafia para todas essas muitas palavras -
extendere, extensione, extense.
*O senhor chegou a afirmar que alguns
tópicos do acordo eram ilegais, porque não
passaram pela aprovação do Congresso.
Existe alguma mobilização dos parlamentares
no sentido de rediscutir o acordo?*
A rigor, afirmo que o que se está implantando
no Brasil como Acordo Ortográfico é o
que preconiza o Volp e este muda em vários pontos
o texto original do Acordo. Portanto, o Brasil está
pregando o desrespeito ao acordado. Mais que isso, o
Volp está impondo insubordinação
à Lei, pois o Art. 1º do Decreto 6.583 da
nossa Presidência da República determina
que o Acordo "deve ser executado e cumprido tão
inteiramente como nele se contém". Tratados
e acordos internacionais pertencem ao âmbito do
Senado Federal, cuja Comissão de Educação,
Cultura e Esporte, em audiência pública,
em 4 de novembro de 2009, tomou conhecimento desses
problemas, e ficou de buscar solução.
Diga-se de passagem que todos os pontos apresentados
pelo nosso movimento foram aceitos sem contestação
por todos os presentes. No ano passado, nada foi feito,
estando em prioridade a preocupação com
os assuntos eleitorais. Em 2011, só recentemente
se redefiniram os integrantes das comissões,
entre as quais a de Educação, e estamos
solicitando a retomada do assunto ao atual presidente,
senador Roberto Requião. É de se elogiar
a atuação consciente de vários
parlamentares, destacando-se o trabalho
especial do senador Cristovam Buarque.
*Em entrevista recente, o professor
Sérgio Nogueira afirmou que pouca coisa mudou
após a aprovação das novas regras.
Essa também é a sua opinião?*
Houve realmente poucas mudanças. No que se refere
à acentuação gráfica, houve
simplificação, embora alguns detalhes
precisem talvez ser melhorados. A inclusão das
letras K, W e Y deu-se apenas para oficializar o que
já era normal: a grafia de topônimos e
antropônimos estrangeiros e seus derivados, como
Kant, Kubitschek, Kuwait, kantistmo, kubitschekiano,
kuwaitiano; de siglas, como TWA e KLM; de símbolos;
de abreviaturas de unidades de medidas internacionais.
No tocante ao uso do hífen, o que era ruim tornou-se
pior. As regras de hifenação pouquíssimas
pessoas, inclusive raros professores, as conheciam –
apenas quem ao longo dos anos foi criando sofridos recursos
mnemônicos. Tudo porque tinham sido construídas
numa época em que regra era para ser decorada
e não entendida. Com o tempo, a Pedagogia passou
a demonstrar que o ensino devia tornar-se mais prático
e objetivo para tornar-se ferramenta útil na
vida do cidadão, cujo cérebro é
mais afeito nos tempos pós-modernos ao entendimento
e às relações lógicas, que
à pura e simples memorização. É
por isso e pelo acúmulo de várias outras
prioridades
do mundo pós-moderno que 99% dos leitores não
aprenderam, não sabem nem querem saber as antigas
regras de uso do hífen – a "decoreba"
não tem mais sentido. A esperança estava
em que algo realmente mudasse na visão e na
aplicabilidade desse maldito sinalzinho. Para constrangimento
geral, o Acordo que agora se vai implantando tem base
lá nos idos de 1975 e pretende trazer para a
nossa época a imposição dos mesmos
padrões educacionais falidos dos séculos
passados. As posições do Acordo, em si,
estão anacrônicas e são inadmissíveis
e inapreensíveis na Educação de
hoje. Não bastante esse desastre, o Volp, como
arlequim às avessas, com pretensões de
esmagar colombinas, contribui com fortes e atordoantes
dissonâncias, capazes de superar e desbancar o
genial Stanislaw Ponte Preta, com o seu 'Samba do Crioulo
Doido'.
*O senhor preside um movimento para
rediscutir as mudanças na ortografia, o "Acordar
Melhor". Em que consiste essa proposta?*
O <www.acordarmelhor.com.br> nasceu junto com
o início da implantação do Acordo
Ortográfico no Brasil, nos primeiros meses de
2009, mostrando os vários problemas que um texto
mal redigido, sobre um assunto mal estudado, poderia
trazer aos países subscritores. Desde então,
a cada dia ou mês que se passa, mais se comprovam
as verdades que apontávamos no livro crítico
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa,
e o Acordo vem literalmente naufragando, como também
mostramos no artigo Alerta Oportuno ao Congresso Nacional.
O que queremos é simplificar a ortografia, eliminando
exceções, duplas grafias, padronizando
sempre que possível a escrita dos radicais, reduzindo
as atuais regras a um mínimo, concatenadas, convergentes
e lógicas. Queremos uma discussão ampla
e democrática nas universidades, nas escolas,
nas associações, e em todas as entidades
voltadas à cultura e à língua.
Queremos a criação de um organismo competente,
aberto democraticamente à participação
de quem tenha a língua escrita como ferramenta,
ou que com ela se preocupe - linguistas, filólogos,
gramáticos,
escritores, advogados, jornalistas, sociólogos,
filósofos, professores, pedagogos -, com a responsabilidade
de ensinar, divulgar, manter e defender os princípios
aprovados e acordados. Não se pode deixar essa
tarefa a cargo de uma ou duas academias que se mostraram
incompetentes para uma tarefa de tal magnitude. Nosso
objetivo é escrever sem a obrigatoriedade recorrente
de consultar o dicionário e que a ortografia
deixe de ser um fator de segregação e
se torne um forte instrumento de inclusão social
e de aproximação dos povos.
*Quais são as próximas
atividades a serem desenvolvidas?*
Estamos desenvolvendo quatro atividades simultâneas.
A primeira é o abaixo-assinado. Pedimos que todos
entrem no site do Acordar Melhor e leiam o texto Nova
Ortografia e Escravidão, cliquem em "Eu
assino o manifesto" e, finalmente, em "Assinar".
Daí em diante é só divulgar todos
os dias para amigas e amigos fazerem o mesmo. A segunda
são os contatos com a Comissão de Educação
do Senado, buscando a continuidade da ação
interrompida. Como terceira atividade, estamos proferindo
palestras e debates em universidades, faculdades, colégios,
cursos, associações, órgãos
e entidades interessadas em que a Educação
em nossos países se torne mais eficaz e menos
dispendiosa para o Estado e para toda a população.
Para finalizar, estamos sempre à disposição
da imprensa para entrevistas, matérias
e artigos. Contudo, o mais importante é que o
leitor assine o abaixo-assinado em nosso site e o divulgue
sempre, para nos fortalecermos e conseguirmos antecipar
a simplificação ortográfica, tão
benéfica a todos.
*É possível possuir
a mesma ortografia em países tão distintos
e com culturas tão diferentes como as nações
lusófonas?*
É perfeitamente possível. A língua
castelhana é falada por mais países que
a portuguesa, com todas suas variadas culturas, no entanto
a grafia se mantém
unificada graças ao trabalho da Real Academia
Española, em que nos inspiramos para sugerir
a criação de um organismo competente como
tutor de nossa ortografia, adequado às nossas
realidades étnicas, sociais, culturais, históricas
e de século XXI.
Folha Dirigida,
20/07/2011 - Rio de Janeiro
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