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A nossa tradição
escolar, baseada nos livros didáticos, nas gramáticas
e dicionários, formou a ideia comum que as pessoas
têm, segundo a qual a ortografia significa escrever
as palavras da língua com a grafia correta. Algumas
pessoas lembram a origem dessa palavra, dizendo que
ela veio do grego e que, naquela língua, significa
“escrita correta”. Embora não se
saiba bem o que “escrita correta” signifique,
a palavra ortografia ficou com o sentido tradicional
de grafar as palavras com as “letras corretas”
com que as pessoas escrevem a língua que usam.
Como apoio para isso, apareceram os vocabulários
ortográficos e os dicionários.
As questões problemáticas
a respeito de saber “com que letras” se
escrevem as palavras começam com a própria
história da língua. Por exemplo, em português,
já se escreveu a palavra “igreja”
dos seguintes modos: jgreja, egleja, egleia, eglesa,
eglesia, egreja, eigleja, eygleyga, eigleja, eigrega,
eigreja, ergreja, ergueyja, greja, igreija, igreja,
etc., (cf. Dicionário etimológico da língua
portuguesa (1956), de José Pedro Machado). Aparentemente,
aquela palavra não mudou muito em sua pronúncia,
mas a percepção da fala e os recursos
da escrita levaram as pessoas a escrevê-la de
muitas maneiras, na história da língua.
Um dos motivos pelos quais a grafia das palavras muda
é porque mudou a pronúncia. Até
o século XV, ainda se via escrito “estromento”
para o latim instrumentum. Depois, voltou a pronúncia
instrumento: mudando a pronúncia, a tendência
da escrita é mudar o modo como a palavra é
escrita.
A questão da pronúncia
é ainda mais complicada. Nenhuma língua
tem apenas uma pronúncia para todas as palavras.
Todas as línguas sofrem de um processo dinâmico
de transformação, o que se torna muito
óbvio com o passar do tempo. Todavia, a escrita
é um meio permanente de registro da fala e, vendo
escritas muito antigas, facilmente percebemos que a
língua mudou. As mudanças mais evidentes
para os falantes são as de natureza dialetal,
geográfica ou social. Percebemos muito bem que
os portugueses não falam como os brasileiros.
No Brasil, o português apresenta características
próprias nas diversas regiões do país.
Numa cidade, facilmente distinguimos classes sociais
com pronúncias peculiares para determinadas palavras.
Por exemplo, no Rio de Janeiro, ouvimos alguém
falar “tchia”, “doidu”, “chuva”.
As mesmas palavras são pronunciadas “tia”
no sul do Brasil, “doidju” numa variedade
de Alagoas e Sergipe, e “tchuva” em uma
variedade do Mato Grosso. Há pessoas da zona
rural que falam “drentu”, há pessoas
que falam “nóis ponhamu us pratu”,
“uz adevogadu acharu us curpadu”, etc. A
variedade linguística é um resultado do
fato de as línguas se transformarem inevitavelmente
ao longo dos tempos. O latim virou português,
francês, espanhol etc. Essas línguas também
não pararam de se transformar. As línguas
românicas vieram do latim popular, não
do clássico, mas, ao serem adotadas pela nobreza
nos diferentes territórios da Europa, tornaram-se
línguas com um status semelhante ao do latim
clássico, falado pelos nobres, e não ao
do latim vulgar, falado pelas classes sociais menos
privilegiadas. Como as novas nações também
passaram a ter nobres e plebeus, ricos e pobres, nelas
também se desenvolveu a teoria segundo a qual
os nobres, os ricos, os poderosos e as pessoas cultas
falam uma variedade da língua considerada “melhor”
e os demais falam uma variedade “com muitos erros”.
Essas diferenças de fala traziam um problema
para a escrita. Por essa razão, no final do século
XV e, principalmente, a partir do século XVI,
começaram a aparecer gramáticas vernáculas
para ensinar o povo a distinguir o que era fala de pessoas
nobres e cultas da fala das pessoas menos favorecidas
socioculturalmente. Apareceram também os tratados
de ortografia.
Os tratados de ortografia
se mostraram importantes, pois as pessoas cultas e ricas
também tinham dúvidas sobre como escrever
certas palavras, porque elas também percebiam
que havia pronúncias diferentes no país
e porque havia, ainda, uma tradição mais
nobre de escrita, que vinha dos antigos. Mudar ou não
mudar? Ficar com o antigo ou com o moderno? Era preciso
estabelecer regras. Analisando o modo como as pessoas
escreviam, era evidente que havia regras não
declaradas publicamente, mas seguidas nas escritas oficiais,
nas publicações e até em documentos
e em cartas particulares. Explicitar tais regras seria
uma maneira de justificar o modo como as palavras deveriam
ser escritas, manter uma tradição, corrigir
erros do passado e evitar problemas futuros. Com os
ortógrafos, a ortografia passou a ter donos.
Todavia, o poder dos ortógrafos era limitado,
tratava-se de uma questão acadêmica, que
podia ser contestada com argumentos contra. E foi o
que aconteceu na história da ortografia da língua
portuguesa, até o final do século XIX.
Com muitas teorias e modelos ortográficos em
uso, o poder político resolveu entrar na questão
e estabelecer, via leis e decretos, a forma ortográfica
das palavras. Curiosamente, nem assim a ortografia ficou
única em seu uso, passando por muitos acordos
entre Portugal e Brasil, procurando um ideal único
de escrita das palavras da língua portuguesa.
O último acordo, depois de mais de dez anos de
discussão, acabou sendo implementado no Brasil
no final de 2008, com início em 2009. Portugal
também aceitou o acordo, mas ainda não
o implementou.
Como vimos acima, as ideias
mais comuns sobre ortografia dizem respeito à
correção ortográfica, aos tratados
de ortografia e aos acordos oficiais entre países
usuários de uma mesma língua, no sentido
de manter uma grafia única para todos. Observamos
também que apesar dos ortógrafos e das
leis, na prática, encontramos pessoas que escrevem
sem seguir todas as normas oficiais ou porque discordam
delas, ou porque não as conhecem. Em graus diferentes,
todos os falantes da língua têm alguma
dúvida ortográfica em determinadas circunstâncias.
Mesmo palavras já escritas muitas vezes, ocasionalmente,
podem aparecer com uma dúvida sobre qual letra
ou letras devam ser escritas.
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